O consórcio jornalístico Investigate Europe (IE) revelou que o European Digital Media Observatory (EDMO), financiado pela União Europeia para o combate à desinformação, tem várias ligações às empresas tecnológicas que deveria escrutinar.

Gerido pelo português Miguel Poiares Maduro, o EDMO foi lançado pela Comissão Europeia em Junho de 2020 para, entre outras tarefas, “monitorizar como as plataformas online seguem o código de conduta para a desinformação”.

Dos 25 executivos do EDMO, 11 têm ligações às empresas, afirma o IE. Um trabalhou no Facebook e outros – académicos e jornalistas – porque as suas instituições são – ou foram – financiadas pela Meta (Facebook) ou pela Google.

Dois fizeram mesmo trabalho de “lobby pessoalmente em nome de corporações”. É o caso de Richard Allan, ex-“chief lobbyist” na Europa entre 2009 e 2019, e “aliado político” de Nick Clegg, o anterior vice-presidente e recém-promovido presidente de assuntos globais do Facebook.

“Isto é uma falta de independência, quem vigia [‘watchdog’] não deve incluir pessoas com vínculos àqueles que devem ser vigiados”, notou Monique Goyens, responsável da união de 46 associações europeias de consumidores BEUC. “A mudança de Richard Allan do Facebook para o EDMO foi tão rápida que é um caso típico de portas giratórias”.

“Especialistas com vínculos à indústria não podem ser considerados independentes”, acrescenta Vicky Cann, da ONG Corporate Europe Observatory. “Aqueles que trabalham para [o sector da] tecnologia ou com financiamento da tecnologia não devem estar numa entidade como o EDMO, há aqui problemas reais de conflitos de interesse”.

Segundo a instituição, “os membros do Conselho Consultivo actuam a título pessoal, mesmo que pertençam a uma determinada organização/empresa. A sua participação nas atividades do EDMO é regulada pela Charter of the Governance Body, incluindo disposições sobre transparência e eventuais conflitos de interesse”.

O EDMO tem, “no papel”, um orçamento de €2,5 milhões para o observatório e mais €11 milhões para oito pólos regionais mas, segundo o IE, “o projecto todo é uma parceria entre universidades e verificadores de factos com as suas próprias finanças”, num consórcio liderado pela European University Institute (EUI).

Algumas entidades foram financiadas pelas tecnológicas, recorda a IE: o Athens Technology Center recebeu apoios da Google entre 2016 e 2019, a Aarhus University obteve financiamentos da Google e do Facebook, e o verificador de factos italiano Pagella Politica desta última rede social.

A relação entre o EDMO e a Google é ainda mais forte dado que o observatório é responsável por atribuir €25 milhões a cinco anos através do European Media and Information Fund (EMIF), uma parceria entre o EUI e a Fundação Calouste Gulbenkian financiada por uma doação da Google. Segundo o EMIF, “a Google não está envolvida na tomada de decisões e não lucra com a propriedade intelectual de quaisquer ideias ou projectos financiados pelo Fundo”.

Na sua lista de entidades financiadas, o EDMO inclui como “fact-checker” a Agência Lusa. Como “media partners” em Portugal, conta com o Diário de Notícias, a Mensagem de Lisboa e o Público.