A taxa de exploração no iPhone

Karl Marx (1818-1883), como muitos dos seus contemporâneos, esteve atento e sensível às condições miseráveis dos operários e à sua actividade sindical. Era evidente que os trabalhadores que produziam mercadorias nas fábricas se viam incapazes de economizar dinheiro e melhorar o seu destino, enquanto os donos das fábricas ficavam mais ricos. A desigualdade entre proprietários e trabalhadores aumentou com o passar dos anos.

O mesmo tipo de situação descrita por Marx no século XIX existe hoje em empresas como a Apple, que prosperam enquanto os trabalhadores que fazem os seus produtos nas fábricas chinesas se submetem a intensas jornadas de trabalho mal remuneradas. Um olhar liberal para esses números sugeriria que o trabalhador precisa de ser mais bem pago, precisa de um salário justo por uma jornada de trabalho justa. Marx chamava isso de “lema conservador“, uma vez que era agradável ao liberal dizê-lo mas, ao mesmo tempo, era totalmente impraticável como solução dentro dos limites do sistema capitalista.

Salários mais elevados são necessários mas não podem chegar a um patamar “justo” sem comprometer a necessidade do capital de extrair enormes lucros do trabalhador no processo de produção. A procura por salários mais altos – ou salário digno – é necessária e urgente. Mas essa procura não liberta os trabalhadores da subordinação do potencial humano à aspiração por uma melhor remuneração. A procura por um salário digno intensifica a luta de classes. Mas o resultado da luta não devem ser melhores salários mas a abolição do sistema de salários. Como Marx escreveu em “Value, Price and Profit”, os trabalhadores “deveriam escrever na sua bandeira a palavra de ordem revolucionária – a abolição do sistema de salários!“

Neste artigo traçam-se os contornos do processo de produção contemporâneo que tem como resultado o iPhone, da Apple. Olha-se para a cadeia produtiva dessa mercadoria, bem como o funcionamento interno da exploração e da geração de lucro. Estamos interessados não apenas na Apple e no iPhone mas particularmente na análise marxista da taxa de exploração na produção de tais dispositivos electrónicos sofisticados. Acredita-se que é necessário aprender a medir cientificamente a taxa de exploração para que se saiba exactamente quanto os trabalhadores entregam à riqueza social total produzida em cada ano.

Parte 1: Benvindo ao iPhone.
E se o iPhone X fosse fabricado nos Estados Unidos?
Se o iPhone X fosse fabricado nos EUA, ele seria inacessível à vasta massa da população mundial. Uma estimativa sugere que se o aparelho fosse “made in USA”, custaria pelo menos 30 mil dólares cada unidade.

O preço actual (2019) para um iPhone X varia em torno dos 900 dólares nos Estados Unidos para cerca de 1900 dólares no Brasil e na Turquia. [Em Portugal, ronda os 750 euros.]

Por 30 mil dólares, o iPhone seria simplesmente inacessível. Um trabalhador com o salário mínimo na Índia teria de trabalhar 16,5 anos, todos os dias, para pagar um destes telemóveis. Um trabalhador que receba o salário mínimo na África do Sul precisaria de trabalhar 14,5 anos para comprar o iPhone X.

Quase todos os 70 milhões de iPhones actualmente em circulação – assim como os 30 milhões de iPads e 59 milhões de outros produtos da Apple – são feitos fora dos Estados Unidos.

Em Fevereiro de 2011, o ex-presidente dos EUA, Barack Obama jantou com altos executivos de Silicon Valley, entre eles Steve Jobs.

“O que seria preciso para fazer os iPhones nos Estados Unidos?”, questionou. “Esses empregos não vão voltar”, respondeu Jobs.

O que Jobs não mencionou é que a Apple beneficia com os baixos impostos ao longo da Cadeia Produtiva Global – se o iPhone fosse produzido nos EUA, a Apple pagaria um total de 35% em impostos. Actualmente, paga quase 2% ao longo da cadeia.

O iPhone é feito fora dos Estados Unidos por vários motivos inter-relacionados. O primeiro (e mais óbvio) é o custo da força de trabalho que nos Estados Unidos é mais alto do que em certas partes do mundo – especialmente na República Popular da China, onde muitos desses produtos são fabricados. A segunda razão são as condições de trabalho adversas (sem sindicatos, longas jornadas) em muitas partes do mundo, particularmente em zonas de exportação que proíbem explicitamente os sindicatos e quase não têm regulamentações. O papel do Estado flexibilizando a regulamentação do trabalho e da extracção de recursos estratégicos levou a um aumento nas externalidades negativas da produção – nomeadamente, o despejo de resíduos tóxicos sem tratamento, o uso de produtos químicos pesados que poluem as fontes de água e – como consequência – a destruição da agricultura. Isso expulsa cada vez mais os milhões de pequenos agricultores e camponeses da terra e lança-os ao trabalho assalariado na produção industrial. No centro dessa mudança está a produção desarticulada ao longo da Cadeia Produtiva Global, em que este artigo se foca.

Cadeia Produtiva Global?
As fábricas já foram localizadas num único lugar. A terra era alugada ou comprada, e sobre ela construía-se um edifício – a fábrica. O proprietário – o capitalista – alugava ou comprava máquinas que ficavam dentro das quatro paredes da fábrica.

Contratava o serviço de electricidade para operar as máquinas; o que permitia dias de trabalho mais longos, com um terceiro turno que se estendia até tarde na noite. O capitalista ainda comprava as matérias-primas, a partir das quais se produzia a mercadoria a ser vendida aos consumidores no mercado. Mesmo após instalar toda essa capacidade produtiva, o capitalista não poderia começar a produção sem comprar uma mercadoria especial que se chama Força de Trabalho. Então, contratava trabalhadores que traziam as suas capacidades e energia vital que na fábrica era consumida por um determinado número de horas, a jornada de trabalho. Máquinas melhores, tecnologia e avanços na cooperação, bem como a divisão do trabalho entre os trabalhadores, levou ao desenvolvimento das forças produtivas nas fábricas. O que definia essas fábricas mais antigas é que elas estavam, em geral, num único local. Mesmo quando a fábrica estava num só lugar, as matérias-primas eram provenientes de uma variedade de locais. Elas estavam, portanto, sempre ligadas globalmente a lugares de onde vinham essas matérias-primas e a locais onde os seus produtos eram vendidos.

Cerca dos anos 1960 e de forma gradual, três mudanças tecnológicas e três grandes mudanças políticas e económicas possibilitaram que as fábricas alterassem a sua estrutura básica. As três mudanças tecnológicas interligadas foram:
1. Redes de telecomunicações. Em meados da década de 1960, um grande número de satélites foi lançado para fins comerciais. Eles permitiram uma comunicação mais fácil entre diferentes partes do mundo.

2. Informatização. O uso de bases de dados informáticas permitiu que as empresas mantivessem os seus estoques – de matérias primas e de produtos finais – num computador, e não num grande livro de registos. Se dois computadores – um baseado em Hong Kong e outro na Califórnia – pudessem ser ligados por meio da rede de satélites, a sede comercial na Califórnia poderia ser informada imediatamente sobre quedas no estoque e re-encomendar matérias primas e produtos o mais rápido possível.

3. Logística e normalização eficientes. Os estivadores demoravam dias a descarregar um navio, cuja carga poderia ser facilmente perdida nos armazéns anexos ao cais. Mas os trabalhadores portuários, através dos seus sindicatos radicais, entravam em greve muitas vezes não só para reivindicar aumentos e melhores condições de trabalho, mas também por questões políticas. A sua unidade política precisava de ser debilitada. Desde meados dos anos 1950, os navios porta-contentores começaram a transportar mercadorias em grandes contentores metálicos de tamanho normalizado que podiam ser removidos em poucas horas de um navio por guindastes e colocados imediatamente na traseira de um caminão ou num vagão de comboio. Isso significava que era menos demorado movimentar mercadorias em todo o mundo e o sindicato dos estivadores enfraqueceu. Esse processo reduziu o custo total de transporte e o risco de greves. O uso de contentores foi parte de uma revolução na logística. Sistemas logísticos altamente sofisticados permitem que as empresas sigam as matérias-primas e os produtos finais, garantindo que não se perdem e chegam aos seus destinos a tempo. Nada disso seria possível sem a normalização (impulsionada pela International Organisation of Standardisation), o que significa que qualquer “input” para a produção pode ser obtido em qualquer lugar do mundo. Um tipo de cabo eléctrico ou um tipo de vidro não podem ter medidas arbitrárias. Agora, são produzidos dentro de uma certa normalização precisa. Isso permite às empresas que compram esses bens colocarem um produtor contra outro para que reduzam os preços. Se os trabalhadores de uma localidade conseguem melhores condições de trabalho, a normalização e a logística eficiente permitem que o capital direccione o seu processo de produção para longe desse “problema” em busca de uma força de trabalho mais flexível.

Estas três mudanças tecnológicas permitiram que as empresas pudessem dividir a fábrica em várias, cada uma localizada próximo das matérias-primas ou da mão-de-obra barata e qualificada. Mesmo com o processo de produção fragmentado pelos continentes, as empresas controlavam todo o processo por meio da gestão integrada de dados sobre a produção, transporte e “stocks”. Sistemas logísticos eficientes e melhores técnicas de transporte garantiam que os componentes e produtos pudessem mover-se rapidamente pelo mundo. Um capacitor poderia ser feito num lugar, o ecrã do telefone noutro – e então os vários componentes poderiam ser levados para um terceiro lugar para serem montados num iPhone. Essa fragmentação da produção intensificou o padrão do capitalismo mercantil de movimentação de matérias-primas de um país para outro para a sua produção final. Criou um novo sistema que comprometeu os direitos dos trabalhadores conquistados e os projectos de desenvolvimento nacional e permitiu que o capital global, consequentemente, aumentasse a exploração sobre a classe trabalhadora.

Chamamos a esse novo sistema de Cadeia Global de Produção (também conhecida como Cadeia Global de Valor). O que a define é que a produção (assim como o marketing e a distribuição) dos bens é dividida entre várias empresas em diferentes territórios. A Cadeia Global de Produção permite que as empresas possam gerir “stocks” por meio de um processo conhecido como “just-in-time”, no qual não mantêm grandes suprimentos mas encomendam os bens para atender à procura do mercado. O que também é fundamental aqui é que empresas multinacionais – como a Apple – raramente produzem algo além da marca do telemóvel e ainda controlam o processo e ganham a maior fatia do bolo. (Para entender melhor estes fenómenos, consulte o documento de trabalho “In the Ruins of the Present“.)

O impulso para a criação da Cadeia Global de Produção e o modelo “just-in-time” foi uma crise estrutural do capitalismo na década de 1970. Porque é que o capitalismo global entrou numa crise estrutural de longo prazo, ainda não resolvida?

As empresas capitalistas esforçam-se para manter ou aumentar os seus lucros. Esse é o objectivo. Para tal, elas fazem:
1. Criação de novos produtos, o que lhes confere o monopólio do mercado. No entanto, outras empresas copiarão esses produtos e a vantagem da inovação desfaz-se. Para proteger as suas inovações e o seu monopólio, as empresas procuram manter as patentes dos seus produtos pelo maior tempo possível.

2. Competir com outras empresas para ampliar os seus mercados através da publicidade e do desenvolvimento de marcas, ou de suborno e espionagem. Se a marca for capaz de desenvolver uma ligação emocional com os consumidores, a empresa poderá dominar o mercado mesmo que outras empresas façam exactamente o mesmo produto. O roubo de novos designs ou o pagamento a retalhistas também podem beneficiar uma empresa contra os seus concorrentes.

3. Utilizar novas tecnologias para a produção e para a gestão do trabalho, de modo a aumentar a produtividade. Esse conceito – produtividade do trabalho – significa que as empresas farão com que os trabalhadores intensifiquem o seu trabalho para produzir mais mercadorias num determinado período. Se a tecnologia ou a administração podem fazer com que os trabalhadores produzam com mais afinco pelo mesmo pagamento, então a empresa é capaz de obter a vantagem da produtividade. Por outras palavras, as empresas obtêm lucros maiores pelo mesmo número de horas em que os trabalhadores produzem as mercadorias.

A arma mais eficaz na concorrência entre empresas é reduzir o custo da produção por meio da mecanização. Mas as empresas devem investir em máquinas e tecnologia, bem como em publicidade e gestão de marca se querem aumentar a produtividade de trabalho e ampliar a sua participação no mercado. Em termos marxistas, isso significa que as empresas devem aumentar a razão capital-trabalho para reduzir o custo unitário e permanecer competitivas. Uma das categorias que Marx sugere observar para analisar a mudança é a razão capital-trabalho (composição de valor do capital). Para aumentá-la, o capitalista terá que investir mais em capital constante, que inclui o capital fixo (por exemplo, máquinas) e capital circulante (por exemplo, matérias-primas) do que em capital variável (o custo da contratação de força de trabalho).

Para Marx, o valor de composição do capital permitiu determinar a relação no processo produtivo entre investimentos na fábrica, em equipamentos e materiais (capital constante) e os investimentos em força de trabalho (capital variável). Essa relação permitiu a Marx especificar a produtividade do trabalho (pela mecanização) e a geração da mais-valia.

Os grandes investimentos em capital constante levam a um aumento na composição do valor do capital que, por sua vez, cria uma tendência de queda de longo prazo nas taxas de lucro nas economias. Nos Estados Unidos, por exemplo, no período de 1947-1985, a composição do valor do capital aumentou em 103%, enquanto a taxa de lucro caiu 53%. Foi essa crise da taxa de lucro – um problema inerente e frequente no capitalismo – que motivou os investidores a transferirem as suas actividades produtivas para áreas com menor custo de mão de obra, como o Sul Global.

Essa mudança de produção para o Sul Global não teria sido possível sem três grandes mudanças políticas que ocorreram nos anos 1980:
1. O colapso da União Soviética e do Bloco Socialista na Europa Oriental.
Quando a URSS e o bloco socialista do Leste Europeu entraram em colapso, o escudo que impedia o capitalismo multinacional da sua desejada caçada global foi removido. A URSS havia dado ao bloco do Terceiro Mundo o poder de se afirmar no cenário mundial. Esse bloco usou tal escudo para pressionar por uma Nova Ordem Económica Internacional, que incluía uma política soberana de comércio e desenvolvimento. O colapso do escudo socialista significou que a capacidade do bloco do Terceiro Mundo para defender a sua soberania ficou prejudicada.

2. A crise da dívida do Terceiro Mundo e a abertura da China.
A soberania nacional e a necessidade de construir economias nacionais após séculos de colonialismo foram importantes para os Estados pós-coloniais, incluindo a China. Mas a crise da dívida do final dos anos 1970 e dos anos 1980 forçou esses países a entregarem a sua independência a um sistema de comércio mundial. Esse novo sistema de comércio – voltado para as novas leis de propriedade intelectual e para a Organização Mundial do Comércio (1994) – favorecia as corporações multinacionais e a ideia de uma fábrica global, e não de uma fábrica local. A era da reforma de mercado da China, que começou em 1978, deu uma grande contribuição à Cadeia Global de Produção. A partir desse ano, centenas de milhões de trabalhadores chineses estavam disponíveis para serem contratados nos circuitos de produção desarticulados, que tinham uma grande base ao longo da costa chinesa.

3. O distanciamento das políticas governamentais da América do Norte, Europa e Japão das necessidades dos seus cidadãos.
Os governos da Tríade – América do Norte, Europa e Japão – desencadearam novas políticas que permitiram às empresas baseadas nas suas fronteiras irem para o exterior. Isso permitiu à finança uma quase total liberdade para entrar e sair dos seus países. As políticas como tarifas e subsídios, que ajudaram a construir economias nacionais e um projecto de desenvolvimento nacional – elementos essenciais do Projecto do Terceiro Mundo, o projecto dos novos estados pós-coloniais – foram deixados de lado. O novo espaço político – o neoliberalismo – permitiu que as empresas abandonassem as antigas fábricas locais e construíssem uma fábrica em todos os continentes, com pedaços da mercadoria construídos ao longo dos fusos horários.

O iPhone na cadeia global da mercadoria
O iPhone da Apple não seria possível sem a Cadeia Global de Produção. As matérias-primas e os componentes no iPhone vêm de mais de 30 países. Há dois tipos de produtos no iPhone:
1. Matérias-primas.
2. Componentes fabricados.

Um factor adicional é a propriedade intelectual existente no iPhone. A propriedade intelectual não é um “input” como as matérias-primas e os componentes de fabrico. Ela é meramente um direito dado pelo Estado, que é a base legal para que se possam cobrar “royalties”. As empresas que reivindicam propriedade intelectual sobre produtos farmacêuticos ou sobre tecnologia electrónica cobram taxas pelo uso dos direitos que lhes são conferidos pelo Estado e bloqueiam o uso desses produtos com base nesse direito de monopólio. Uma suposição é que a Apple fez o trabalho de criar as tecnologias e, portanto, merece reivindicar a propriedade intelectual da venda desses telefones. Mas quase todas as tecnologias que compõem o iPhone – a Internet, os sistemas GPS, o ecrã táctil, o assistente vocal (Siri) – foram desenvolvidas pratricamente com dinheiro público dado a universidades e laboratórios de investigação. Por outras palavras, a Apple usou tecnologias desenvolvidas pelo poder público para produzir o iPhone. O Estado permitiu que empresas privadas – como a Apple – reivindicassem direitos de propriedade intelectual para essas tecnologias. Os lucros dessas inovações financiadas pelo poder público foram – e continuam a ir – para mãos privadas. Empresas como a Foxconn, que fabricam partes do iPhone e as montam, não podem rejeitar a Apple e vender esses telefones por causa da propriedade intelectual e porque a Apple construiu uma marca poderosa. E, se a Apple de facto não criou essas tecnologias, ficamos com a pergunta: quem merece lucrar com a tecnologia financiada pelo sector público?

Entre as matérias-primas num iPhone, encontramos: alumínio, arsénico, carbono, cobalto, coltan (nióbio e tântalo), cobre, gálio, ouro, ferro, platina e silício.

Essas matérias-primas vêm de uma variedade de lugares, da República Democrática do Congo à Bolívia. Relatórios de instituições de renome – como a UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância) e Amnistia Internacional – revelaram que os fornecedores do iPhone usam trabalho infantil para extrair esses minerais das minas e pagar salários de fome aos mineiros.

O relatório da Amnistia Internacional mostrou, por exemplo, que 40 mil crianças trabalham em condições muito perigosas em minas na República Democrática do Congo. Morte, amputações e problemas de saúde a longo prazo fazem parte da sua rotina. As crianças, que trabalham 12 horas por dia, carregam cargas pesadas das minas profundas por 1 a 2 dólares por dia. Além disso, o trabalho infantil é trabalho forçado, com as empresas de mineração bem conscientes de que o custo de trazer minerais raros da terra e matérias-primas cruciais é tão baixo porque grupos de milícias forçam os trabalhadores a descerem às minas sob ameaça armada. Essa é actualmente uma visão comum na África central. Essas formas de disciplina de trabalho trazem elementos e minerais essenciais para o iPhone e ainda assim são tratados como a parte mais descartável da Cadeia Global de Produção.

O Código de Conduta do Fornecedor da Apple (actualizado regularmente, mais recentemente a 1 de Janeiro de 2019) diz inequivocamente:

A Apple acredita que todos os trabalhadores na nossa cadeia de fornecimento merecem um ambiente de trabalho justo e ético. Os trabalhadores devem ser tratados com a maior dignidade e respeito, e os fornecedores da Apple devem respeitar os mais elevados padrões de direitos humanos.

Essas palavras parecem significar pouco para a Apple e para os subcontratantes que compram as suas matérias-primas de lugares distantes da imaginação daqueles que adquirem esses telemóveis.

As matérias-primas entram nas unidades fabris em pelo menos 30 países, da Europa à China. Muitos componentes do iPhone são fabricados por fábricas na China. Para se ter uma ideia da diversidade de fornecedores de componentes fabricados, veja-se a origem dessas partes no iPhone 5s e no iPhone 6:
Acelerómetro: Bosch (Alemanha); Invensense (Estados Unidos).
Chipsets de áudio e codec: Cirrus Logic (Estados Unidos, fabrico terceirizado).
Processador de banda: Qualcomm (Estados Unidos, fabrico terceirizado).
Baterias: Samsung (Coreia do Sul); Huizhou Desay Battery (China).
Câmaras: Sony (Japão); a OmniVision (EUA) produz o chip de câmara frontal FaceTime mas subcontrata à TMSC (Taiwan) o fabrico.
Chipsets e processadores: Samsung (Coreia do Sul); TSMC (Taiwan). Juntamente com o seu parceiro GlobalFoundries (EUA).
Chips de controlador: PMC Sierra e Broadcom Corp, (EUA, fabrico terceirizado).
Ecrã. Japan Display e Sharp (Japão); LG Display (Coreia do Sul).
DRAM: TSMC (Taiwan). SK Hynix (Coreia do Sul).
eCompass: Alps Electrics (Japão).
Autenticação do sensor de impressão digital: Authentec (fábrica na China) com terceirização do fabrico em Taiwan.
Memória flash: Toshiba (Japão); Samsung (Coreia do Sul).
Giroscópio: STMicroelectronics (França e Itália).
Bobinas de indutor (áudio): TDK (Japão).
Montagem do chassis principal: Foxconn e Pegatron (China).
Chips de sinal misto (como NFC): NXP (Holanda).
Construções plásticas (para iPhone 5c): Hi-P e Green Point-Jabil (Singapura).
Módulos de radiofrequência: Win Semiconductors (fabricantes de módulos Avago e RF Micro Devices, em Taiwan); Avago Technologies e TriQuint Semiconductor (EUA); Qualcomm (EUA) para conectividade LTE.
Ecrã e vidro (para o ecrã): Corning (Gorilla Glass, EUA); GT Advanced Technologies para produção dos cristais de safira nos ecrãs.
Semicondutores: Texas Instruments, Fairchild e Maxim Integrated (EUA).
Identificação táctil: TSMC e Xintec (Taiwan).
Controlador do ecrã sensível ao toque: Broadcom (EUA, terceirizado para fabrico).
Transmissores e módulos de amplificação: Skyworks e Qorvo (EUA), fabrico terceirizado).

Entre estas empresas, a mais significativa é a Foxconn (Hon Hai Precision Industry), uma fabricante de Taiwan. Gerou uma receita anual de 160 mil milhões de dólares em 2017. Cerca de 1,3 milhões de trabalhadores estão na sua folha de pagamentos na China, onde é o maior empregador do sector privado no país. Em todo o mundo, apenas a Walmart e a McDonald’s empregam mais trabalhadores do que a Foxconn.

Os escândalos são rotineiros nestas fábricas. Existe um fenómeno conhecido como “suicídios da Foxconn” devido a uma série de mortes de trabalhadores em protesto contra os baixos salários e as más condições de trabalho na Foxconn City, em Shenzhen (China). Os media chineses intitulou isso de “suicídio expresso”. Dois académicos chineses (Pun Ngai e Jenny Chan, 2012) estudaram o fenómeno na Foxconn. No seu relatório, citam vários trabalhadores de uma fábrica de montagem de telemóveis:

Gritam o tempo todo connosco. É muito difícil aqui. Estamos presos num campo de concentração de disciplina do trabalho – a Foxconn conduz-nos pelos princípios da ‘obediência, obediência e obediência absoluta!’. Devemos sacrificar a nossa dignidade como pessoas pela eficiência produtiva?

Para se ter uma ideia da velocidade do trabalho, é esta a descrição de um trabalhador sobre 10 segundos do seu dia de trabalho:

Pego numa ‘motherboard’ da linha, faço o ‘scanning’ do logótipo, coloco numa bolsa de electricidade anti-estática, coloco uma etiqueta e coloco na linha. Cada uma dessas tarefas demora dois segundos. A cada 10 segundos, termino cinco tarefas.

Uma trabalhadora disse a Brian Merchant (2017) que 1.700 iPhones passam pelas suas mãos todos os dias. Ela estava encarregada de limpar um polimento especial no ecrã do smartphone. Ela limpa três ecrãs por minuto durante 12 horas por dia. Outros trabalhos – como a fixação de placas de processadores e a montagem de tampas traseiras – demoram alguns minutos. A pressão sobre os trabalhadores é alarmante.

De 2010 a 2012, Steve Jobs fez afirmações consistentes da consciência da Apple sobre as altas taxas de suicídio na Foxconn e que o problema estava sob controlo – “superámos isso”, anunciou. O problema, no entanto, permaneceu e não pode ser medido apenas pelos suicídios. Os baixos salários e as más condições de trabalho – incluindo a humilhação diária – definem a vida dos trabalhadores. Em várias ocasiões, cerca de 150 trabalhadores foram ao telhado de um prédio e ameaçaram pular.

Eles usaram o “suicídio da Foxconn” como uma táctica de reinvindicação. Esse é o nível do processo de produção do iPhone.

Referências:
Anwar M. Shaikh and E. Ahmet Tonak, Measuring the Wealth of Nations. The Political Economy of National Accounts, Cambridge: Cambridge University Press, 1994.
Baruch Gottlieb, A Political Economy of the Smallest Things, New York: ATROPOS Press, 2016.
Brian Merchant, The One Device: The Secret History of the iPhone, New York: Little, Brown and Company, 2017.
Kenneth L. Kraemer, Greg Linden and Jason Dedrick, ‘Capturing Value in Global Networks: Apple’s iPad and iPhone’, July 2011.
Karl Marx, Capital, volume 1, New Delhi: LeftWord Books, 2014.
Pun Ngai and Jenny Chan, ‘Global Capital, the State, and Chinese Workers: The Foxconn Experience’, Modern China, vol. 38, no. 4, 2012.
Tricontinental: Institute for Social Research, In the Ruins of the Present, Working Document no. 1, 2018.

Este artigo baseia-se numa análise realizada pelo economista E. Ahmet Tonak. Uma versão anterior foi publicado em “iPhone 6’daki sömürü orani?” (Sendika, 30 de Novembro de 2014).

* Publicado originalmente por Tricontinental: Institute for Social Research (CC BY-NC 4.0). A segunda parte do artigo, em português do Brasil, está disponível em “Uma análise marxista do iPhone“.

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