O Chefe do Estado-Maior da Armada defende um maior uso da tecnologia no espaço marítimo português. Para o almirante Gouveia e Melo, “as fragatas, tal como hoje as conhecemos e concebemos, são navios datados”, que serão substituídos por “navios mistos, com alguma capacidade anfíbia, com uma robusta defesa próxima, portadores/transportadores de armas de longo alcance e de um núcleo variado de drones”.

Nesse futuro, escreveu nos Cadernos Navais de Julho de 2019, ocorrerá a “adaptação de navios do tipo Patrulhas Oceânicos (NPO), de forma modular, para operarem drones/robôs especializados na guerra de minas, telecomandados, ou autónomos, por longos períodos e à distância, com as respetivas equipas de operadores e de inativação” que também poderá ser feita “por outros drones/robôs especializados, de baixo custo e dedicados a essas tarefas”.

Eles serviriam para “detecção multidimensional alargada”, bem como “para guiar as armas orgânicas das fragatas, aumentando o seu alcance, a precisão e a descriminação sobre os alvos a atingir”.

Na visão do almirante, os drones, alguns letais, “constituirão a muito breve trecho uma capacidade fundamental das Forças Armadas modernas” que “levará certamente ao recrudescimento exponencial das disciplinas associadas à guerra electrónica e à ciber-guerra (cyberwarfare)”.

Em Novembro de 2021, Gouveia e Melo clarificou que o futuro navio deve ser “uma plataforma híbrida” ou “porta-aviões de drones”, com potencial para “ser um forte incentivador da indústria nacional”.

Em Maio passado, afirmou tratar-se de um navio “multidimensional, no sentido em que vai operar drones subaquáticos, drones de superfície e drones aéreos. É um navio que representa um salto tecnológico muito elevado, em que estamos a tentar atrair a indústria portuguesa e a academia portuguesa, o conhecimento português”.

A plataforma, explicou, “pode ser operada por 60 a 80 homens no máximo mas depois pode ir até 300 ou 400 homens embarcando, por exemplo, equipas de resgate, indo buscar pessoas ou equipas multidisciplinares de cientistas. Imagine o que é, eu quero mapear o fundo do mar e meto um navio grande, que é esta plataforma, a fazer fileiras para trás e para a frente, curtas, com uma data de gente para tentar mapear o mar durante meses seguidos. Se calhar é mais fácil a plataforma ir a um determinado sítio e largar 20 ‘drones’ que fazem essa fileiras 20 vezes mais rápido”.

Para além disto, realçou como “é um navio que pela sua tecnologia vai exigir e obrigar a que o tecido nacional encontre soluções da fileira tecnológica que mais tarde permitirão à indústria portuguesa e academia estar em projectos de elevado valor no mar”.

Nesse mês, o projecto foi aprovado pelo PRR num valor de 94,5 milhões de euros.

Na resolução do Conselho de Ministros de 24 de Maio que autoriza a despesa de 94,5 milhões de euros dividida por três anos até 2025, especifica-se que a verba servirá na “aquisição de um navio de natureza multifuncional para ser empregue em missões de natureza científica e de contributo para a proteção para a vigilância dos oceanos”.

Além disso, comunicou a Marinha, “representará uma grande aposta na inovação através de utilização de uma nova tecnologia, de sistemas digitais de alto desempenho, de Big Data, de Digital Twin e de Inteligência Artificial, com recurso a sistemas robóticos/não tripulados aéreos, de superfície e de subsuperfície, bem como para estudos e testes para novos meios e novos conceitos, desenvolvidos pela academia e pela indústria”.

Em Junho, Gouveia e Melo falava de “€30 milhões adicionais para desenvolver os primeiros robôs”, enquanto o valor do barco inscrito no PRR “custa um quarto de uma fragata”.

“Nenhuma Marinha de Guerra tem um navio multifunções com o conceito que Gouveia e Melo inventou e deu a conhecer num ensaio em 2019”, dizia então o semanário, com o seu criador a reforçar a ideia de que “este é um navio revolucionário. O próprio desenho e conceito é de um navio revolucionário”.

A realidade é, no entanto, diferente.

A China – com quem Portugal anda a disputar a aquisição de drones… – já apresentou uma plataforma com algumas semelhanças, que deverá ser lançada no final do ano.

E a própria Marinha portuguesa – que não tem sido feliz no uso de drones -, conhece o potencial deste tipo de plataformas desde, pelo menos, Setembro de 2021, quando participou no REPMUS 21 – “o maior exercício de experimentação operacional da NATO” onde se testaram drones debaixo de água, à superfície ou aéreos, referiu o chefe da Divisão de Inovação do Estado-Maior da Armada, comandante João Lourenço Piedade, à agência Lusa.