“Estamos num carro gigante, acelerando na direção de uma parede de tijolos e todos estão a discutir sobre onde cada um se vai sentar”. David Suzuki


O crescimento da população e da economia foi de tal ordem, nos últimos dois séculos e meio, que o prémio Nobel de Química, Paul Crutzen, avaliando o grau do impacto destruidor das actividades humanas sobre a natureza, afirmou que o mundo entrou numa nova era geológica, a do Antropoceno, que significa “época da dominação humana” [ver Um glossário para o Antropoceno e National Footprint and Biocapacity Accounts 2022]. Representa um novo período da história do Planeta, em que o ser humano se tornou a força impulsionadora da degradação ambiental e o vector de acções que são catalisadoras de uma provável catástrofe ecológica.

O Antropoceno é uma era sincrónica à modernidade urbano-industrial. A Revolução Industrial e Energética que teve início na Europa no último quartel do século XVIII deu início ao uso generalizado de combustíveis fósseis e à produção em massa de mercadorias e meios de subsistência, possibilitando uma expansão exponencial das actividades antrópicas.

Em 250 anos, a economia global cresceu 135 vezes, a população mundial cresceu 9,2 vezes e o rendimento per capita cresceu 15 vezes. Este crescimento demoeconómico foi maior do que o de todo o período dos 200 mil anos anteriores, desde o surgimento do Homo sapiens. Mas todo o crescimento e enriquecimento humano ocorreu às custas do encolhimento e empobrecimento do meio ambiente. O conjunto das actividades antrópicas ultrapassou a capacidade de carga da Terra e a pegada ecológica da humanidade extrapolou a biocapacidade do planeta. A dívida do ser humano com a natureza cresce a cada dia e a degradação ambiental pode, no limite, destruir a base ecológica que sustenta a economia e a sobrevivência humana.

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No Antropoceno, a humanidade danificou o equilíbrio homeostático existente em todas as áreas naturais. Alterou a química da atmosfera, promoveu a acidificação dos solos e das águas, poluiu rios, lagos e oceanos, reduziu a disponibilidade de água potável, ultrapassou a capacidade de carga da Terra e está a promover uma grande extinção em massa das espécies. O egoísmo, a gula e a ganância humana provoca danos irreparáveis e um ecocídio generalizado, que pode-se transformar em suicídio. A Terra entrou numa espiral da morte. A sexta extinção em massa das espécies e a crise climática são as ameaças mais urgentes do nosso tempo. E o tempo para reverter esta espiral da morte está a esgotar-se. Será necessária uma acção radical para salvar a vida no Planeta. O progresso demoeconómico tem gerado externalidades negativas para o meio ambiente.

As emissões de gases de efeito estufa (GEE) romperam com o nível de concentração de CO2 na atmosfera, de no máximo 280 partes por milhão (ppm) prevalecente durante todo o Holoceno, e, em Maio de 2020 chegou-se a 419 ppm, subindo cerca de 2,5 ppm ao ano, na actual década. A quantidade de dióxido de carbono na atmosfera está a atingir índices que a humanidade jamais viveu, nunca vistos no planeta há mais de 3 milhões de anos. Mas um estudo recente mostra que em cinco anos o Planeta atingirá uma concentração de carbono inédita em 15 milhões de anos. O estudo publicado na revista Nature Scientific Reports (De la Vega et. al., 2020) mostra que, quando a concentração de carbono era de 427 ppm na atmosfera, o planeta atravessava o pico provável do período de aquecimento do Plioceno – 3,3 milhões de anos atrás, quando as temperaturas eram de 3°C a 4°C mais quentes e o nível do mar era 20 metros maior que hoje.

Com o aumento dos GEE na atmosfera, a temperatura média tem subido e a Terra está 1,2°C mais quente do que no período pré-industrial, podendo iniciar um período de descontrolo climático. De acordo com previsões meteorológicas publicadas pela Organização Meteorológica Mundial (OMM), durante o período 2020-2024, quase todas as regiões, excepto algumas áreas oceânicas do sul, terão temperaturas mais altas do que as actuais. A temperatura média global deve permanecer acima de pelo menos 1°C até 2024, de acordo com a OMM. E a probabilidade de exceder os níveis pré-industriais em 1,5°C por, pelo menos um desses cinco anos, é alta. Um estudo de Steffen e colegas (2018) indicou que a Terra pode entrar numa situação com um clima tão quente que pode elevar as temperaturas médias globais até cinco graus Celsius acima das temperaturas pré-industriais. O fenómeno de “estufa” traria várias implicações, como a acidificação dos solos e das águas e aumentos no nível dos oceanos e onda letais de calor que podem matar mais gente do que a pandemia da Covid-19.

A Terra é um planeta finito. Isto significa que os seres vivos possuem um espaço comum e delimitado para a sobrevivência conjunta. O crescimento exponencial de uma espécie provoca a redução do espaço para a vida de outras espécies, diminuindo a disponibilidade de solos e água potável. Segundo a Global Footprint Network, a população mundial em 2016 era de 7,5 mil milhões de habitantes, com uma pegada ecológica total de 20,6 mil milhões de hectares globais (gha) e uma biocapacidade total de 12,2 mil milhões de gha. A pegada ecológica per capita estava em 2,75 gha e uma biocapacidade per capita de 1,63 gha. Assim, a Terra tinha um défice per capita de 1,12 gha (ou um défice total de 8,2 mil milhões de gha). Ou seja, para manter o consumo humano de 2016 seria necessário 1,7 planeta. Portanto, o nível das actividades antrópicas é insustentável em termos ecológicos.

Evidentemente, algumas pessoas, algumas empresas, algumas cidades e alguns países possuem pegadas ecológicas maiores do que outras. Mas é o conjunto das actividades antrópicas que impacta o planeta e é responsável pelo aumento da pegada ecológica e a diminuição da biocapacidade. A responsabilidade principal pela degradação ambiental é do chamado “modelo urbano-industrial” baseado na produção de bens e serviços em massa, com materiais retirados da natureza e com os combustíveis fósseis como forma de energia predominante. Mas o modo de produção não abrange 100% da produção do globo, pois existem outras formas de produção que actuam em paralelo. Por isso, se diz que a formação social inclui o modo de produção dominante e os demais modos de produção que são subordinados. O grande aumento da produção dos últimos 250 anos beneficiou muito mais uma pequena parcela da elite mundial, mas beneficiou também, de forma diferenciada, quase toda a população mundial. No final do século XVIII, Luís XIV vivia uma vida de luxo em Versalhes, mas não tinha luz eléctrica, televisão, bicicleta, telemóvel, computador, Internet, etc., e outras comodidades que estão à disposição da maioria da população mundial.

Do ponto de vista do impacto ambiental, não importa se o regime é de capitalismo neoliberal, capitalismo social-democrata ou socialista e estatal. O capitalismo é uma relação social e não basta mudar os proprietários dos meios de produção, mas manter a mesma base de produção. Por exemplo, após a revolução bolchevique, Lenine dizia que: “O comunismo é o poder dos sovietes mais a electrificação”. Na China, Mao Tsé-Tung tentou o “Grande Salto para a Frente” no final da década de 1950.
Como disse Brian Snyder: “A segunda lei da termodinâmica não se importa se você é Karl Marx ou Milton Friedman; não se importa com quem possui recursos ou como os recursos são alocados depois de extraídos. A segunda lei preocupa-se apenas com a conversão de energia em entropia. E, eventualmente, todos obedecem à segunda lei, até Estaline” (15/07/2020).

Por exemplo, a China comunista tinha um superávite ambiental na década de 1960, mas passou a ter um défice crescente a partir da década de 1970 e, principalmente, nos anos 2000. O mundo tem cerca de 12 mil milhões de hectares globais (gha) e, somente a China tem uma pegada ecológica de 5,2 mil milhões de gha, cerca de 40% de todos os recursos do planeta.

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Outro exemplo é o Vietname, que é difícil de ser acusado de capitalista, e passou de uma situação de superávite ambiental até meados da década de 1980 para uma situação de um défice ambiental de mais de 100%.

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Mesmo o continente africano já possui défice ambiental, embora o nível de consumo seja baixo e ninguém pode acusar a África de ser um continente capitalista com alto nível de produção e acumulação de riqueza.

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Enfim, a economia internacional é marcada por grandes desigualdades e, evidentemente, as pessoas mais ricas consomem mais e degradam mais o meio ambiente, ocorrendo o contrário com as pessoas mais pobres. Porém, a tabela abaixo mostra que a população mundial de baixo rendimento, em 2016, era de 927 milhões de pessoas e tinha uma pegada ecológica e uma biocapacidade per capita de 1,04 gha. Portanto, havia equilíbrio entre os dois indicadores e não havia nem défice nem superávite ambiental. Neste nível de consumo, a pegada total (se todos os habitantes do globo consumissem neste nível) seria de apenas 0,64 planeta e haveria sustentabilidade ambiental.

Já a população de rendimento médio-baixo, constituída por 2,8 mil milhões de pessoas em 2016, tinha uma pegada ecológica per capita de 1,36 gha e uma biocapacidade per capita de 0,84 gha. Portanto, havia um défice de 0,52 gha per capita ou um déficit de 1,5 mil milhões de gha. Porém, o nível de consumo desta camada da população é baixo e se toda a população tivesse o mesmo nível da pegada ecológica per capita (1,36 gha) a pegada total seria de 10,1 mil milhões de gha, o que daria somente 0,83 planeta e haveria sustentabilidade ambiental. Ou seja, um nível de consumo que representasse uma pegada ecológica per capita de até 1,63 gha seria compatível com a biocapacidade de 1,63 gha de 7,5 mil milhões de habitantes.

As populações de baixo rendimento e de rendimento médio-baixo, num total de 3,7 mil milhões de habitantes, com pegada ecológica per capita abaixo da biocapacidade global per capita (1,63 gha), vivem dentro da sustentabilidade ambiental. Mas são pessoas que possuem muitas carências materiais e não possuem vidas sustentáveis em termos sociais.

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As pessoas com rendimento médio-alto e rendimento alto possuem melhor sustentabilidade social, mas não ambiental. A população de rendimento médio-alto, constituída por 3,4 mil milhões de pessoas em 2016, tinha uma pegada ecológica per capita de 3,41 gha e uma biocapacidade per capita de 2,26 gha. Portanto, havia um défice de 1,15 gha per capita ou um défice de 3,1 mil milhões de gha. Se toda a população tivesse o mesmo nível da pegada ecológica per capita (3,41 gha), a pegada total seria de 25,5 mil milhões de gha, o que daria 2,09 planetas e não haveria sustentabilidade ambiental. Com uma pegada ecológica de 3,41 gha só haveria sustentabilidade na Terra se a população global fosse de 3,57 mil milhões de habitantes em 2016. Isto é, para haver sustentabilidade num quadro de consumo per capita mais alto seria preciso haver um volume populacional menor.

Entre a população de elevado rendimento, constituída de 1,13 mil milhões de habitantes em 2016, a pegada ecológica per capita era de 5,97 gha e a biocapacidade per capita era de 2,26 gha. Portanto, havia um défice de 3,12 gha per capita ou um défice de 3,6 mil milhões de gha. Se toda a população tivesse o mesmo nível da pegada ecológica per capita (3,41 gha), a pegada total seria de 44,6 mil milhões de gha, o que daria 3,7 planetas e não haveria o mínimo de sustentabilidade ambiental. Com uma pegada ecológica de 5,97 gha só haveria sustentabilidade na Terra se a população global fosse de 2 bilhões de habitantes em 2016.

Sem dúvida, os ricos consomem muito e possuem um elevado impacto ambiental. Porém, mesmo se eliminássemos os 1,13 mil milhões de habitantes com elevado rendimento – com uma pegada ecológica total de 6,7 mil milhões de gha em 2016 – o mundo continuaria com défice ambiental, pois o restante dos 6,4 mil milhões de habitantes teria uma pegada ecológica total de 13,9 mil milhões de gha, superior aos 12,2 mil milhões de gha da biocapacidade total do planeta.

Desta forma, o quadro ambiental do mundo é mais grave do que simplesmente baixar o consumo dos ricos, ou simplesmente acusar o capitalismo sem considerar que é o conjunto da população que consome. Os cerca de 6 mil milhões de habitantes de rendimento baixo e médio já são suficientes para colocar a Terra no caminho do colapso ecológico. Os cálculos anteriores não tiram as responsabilidades dos países desenvolvidos como os maiores poluidores per capita do planeta. Apenas mostram a real dimensão dos problemas causados pela interacção entre consumo e população.

É compreensível que as populações dos países pobres aspirem a níveis mais elevados de desenvolvimento e consumo. Todavia, reproduzir o modelo dos países ricos e poluidores seria um desastre total para o meio ambiente, com efeito bumerangue sobre a própria humanidade. A luta por mais rendimento, educação, saúde, casa, transporte, acesso à informação, lazer, etc., é justa. Porém, o aumento da pegada ecológica per capita só é viável com a diminuição do volume da população (ceteris paribus outros indicadores).

Hoje em dia, simplesmente distribuir a riqueza e o consumo humano não resolve os problemas ambientais globais. O consumo médio da população mundial já ultrapassou os níveis de sustentabilidade ambiental. Se a pegada ecológica de 2,75 gha de 2016 for completamente bem distribuída e todos os habitantes da Terra conseguirem um padrão médio e decente de consumo, mesmo assim haveria défice ambiental com o actual número de habitantes. Para uma pegada ecológica per capita de 2,75 gha só haveria sustentabilidade ambiental com 4,4 mil milhões de pessoas. Se a população for de 7,5 mil milhões de habitantes então a pegada ecológica per capita tem que cair para 1,6 gha. Uma alternativa é ter uma população de 6 mil milhões com pegada ecológica per capita de 2 gha.

Ou seja, no momento actual em que a humanidade já ultrapassou os limites da resiliência do planeta há três alternativas: 1) diminuir muito o consumo; 2) diminuir muito a população; ou 3) diminuir um pouco o consumo e um pouco a população. O facto é que o decrescimento demoeconómico é o único caminho viável para se chegar à sustentabilidade ambiental.

E o decrescimento demoeconómico precisa de ocorrer quer no capitalismo ou no socialismo. Planear o decrescimento para a sustentabilidade é a tarefa mais urgente para mitigar a crise climática e ambiental e para promover a regeneração dos ecossistemas. O que não dá é para manter o rumo actual de degradação ecológica e de emissão de gases de efeito estufa que provocam a aceleração do aquecimento global. Prosseguir no modelo actual é promover um ecocídio e também um suicídio, pois sem ecologia não há maneira de manter a vida na Terra.

A humanidade ultrapassou a capacidade de carga da Terra e os limites da resiliência do planeta.

Não vai ser trocando a palavra Antropoceno por Capitaloceno que vamos resolver os problemas ecológicos ou evitar a ameaça de um colapso ambiental.

Referências:
ALVES, JED. A Terra teria déficit ambiental global mesmo sem os ricos, Ecodebate, 06/11/2019
ALVES, JED. Antropoceno: a Era do colapso ambiental, Ecodebate, 10/01/2020
ALVES, JED. Antropoceno e Colapso Sistêmico Global, SCRIBD, 27/06/2020
ALVES, JED. A dinâmica demográfica global em uma “Terra inabitável”, Revista Latinoamericana de Población, Vol. 14 Núm. 26, dezembro de 2019
ALVES, JED. Antropoceno e a Crise Sistêmica, CEPAT, 27/06/2020
ALVES, JED. Os limites da resiliência do Planeta e o decrescimento demoeconômico, XXI Encontro Nacional de Estudos Populacionais, da ABEP, Poços de Caldas, 25/09/2018
MARTINE, G. ALVES, JED. Economia, sociedade e meio ambiente no século 21: tripé ou trilema da sustentabilidade? R. bras. Est. Pop. Rebep, n. 32, v. 3, Rio de Janeiro, 2015 (em português e em inglês)
De la Vega, E., Chalk, T.B., Wilson, P.A. et al. Atmospheric CO2 during the Mid-Piacenzian Warm Period and the M2 glaciation. Sci Rep 10, 11002 (2020).
Steffen et. al. Trajectories of the Earth System in the Anthropocene, PNAS August 6, 2018. 06/08/2018
Brian Snyder. Don’t Call It “Communist”. July 15, 2020

Artigo de José Eustáquio Diniz Alves publicado em EcoDebate (CC).