O Facebook está alegadamente a usar o seu “News Feed”, onde são hierarquizados os conteúdos que os utilizadores vêem, para “mostrar às pessoas histórias positivas sobre a rede social”, no âmbito de uma iniciativa aprovada pelo CEO da empresa, Mark Zuckerberg, em Janeiro passado com o nome de código Project Amplify, revelou esta terça-feira o New York Times.

A ideia subjacente é que “ao mostrar estas notícias pró-Facebook – algumas escritas pela empresa -, a sua imagem melhore aos olhos dos utilizadores”.

Isso está a ser necessário, cada vez mais. Também ontem, o Politico apontou que accionistas processaram a empresa por esta ter “condicionado” os 5.000 milhões de dólares pagos à Federal Trade Commission no âmbito do processo Cambridge Analytica com a ressalva de o CEO da empresa não ser processado pela agência federal.

“Zuckerberg, [a COO Sheryl] Sandberg e outros directores do Facebook concordaram em autorizar um acordo multibilionário com a FTC como um expresso ‘quid pro quo’ [troca] para proteger Zuckerberg de ser citado na queixa da FTC, sujeito a responsabilidade pessoal ou mesmo obrigado a depor”, alega-se numa das duas acções apresentadas pelos accionistas.

Membros da direcção da empresa concordaram nesta protecção e a FTC nunca revelou que pretendia acusar pessoalmente Zuckerberg.

Também o The Real Facebook Oversight Board (RFOB) obteve documentos no âmbito das acções judiciais onde se “alega que o Facebook ganhou ilegalmente poder de mercado, falhou [no cumprimento] do Consent Decree da FTC de 2012 e encobriu e não divulgou os danos relativos aos dados pessoais” no escândalo Cambridge Analytica.

O RFOB considera que os documentos “servem como um registo que documenta a infinidade de alegações falsas, declarações enganadoras e mentiras que o Facebook e os seus executivos fizeram” desde o acordo (“Consent Decree“) de 2012.

Estas acusações surgem após o Wall Street Journal (WSJ) ter publicado na semana passada os “The Facebook Files“, com diversas acusações à empresa.

O Center for Humane Technology sintetizou algumas dessas acusações, recordando que o problema era previsível e generalizado às redes sociais, “incentivadas a priorizar os lucros em detrimento do bem-estar do utilizador”, como demonstrou no documentário “The Social Dilemma“:
– 32% das jovens adolescentes disseram que, quando se sentiam mal com os seus corpos, o Instagram (propriedade do Facebook) as fazia sentirem-se pior;

– 13% dos adolescentes britânicos e 6% dos adolescentes americanos que reportaram pensamentos suicidas ligaram o desejo de se matar ao Instagram;

– 5,8 milhões de VIPs estão protegidos ou impedidos de ter os seus conteúdos removidos mesmo que violem as políticas da rede social, devido a um sistema chamado “XCheck“;

– apenas 13% do tempo que um moderador leva a rotular ou remover informações falsas ou enganadoras é gasto com conteúdo de fora dos EUA, apesar de 90% dos utilizadores estar fora dos EUA e do Canadá.

Perante a acusação de poder manipular ou esconder os resultados dos estudos, o Facebook respondeu às afirmações do WSJ dizendo que as “notícias contêm caracterizações deliberadamente erradas do que estamos a tentar fazer e conferem motivos flagrantemente falsos à liderança e aos funcionários do Facebook”, assentes numa “alegação falsa: que o Facebook conduz investigação e depois a ignora de forma sistemática e intencional se as descobertas forem inconvenientes para a empresa”.

Esta assume que não aplica todas as ideias propostas pelos investigadores mas tal “prática não significa que as equipas do Facebook não estão continuamente a considerar uma série de diferentes melhorias”, sendo que “nenhum desses problemas pode ser resolvido apenas pelas empresas de tecnologia, e é por isso que trabalhamos em estreita parceria com investigadores, reguladores, legisladores e outros”.

https://pbs.twimg.com/media/E_zgZy2VEAAJQeJ?format=jpg&name=4096x4096

[act.: How do we solve the Facebook problem?

Facebook is starting to share more about what it demotes in News Feed: A high-level look at what gets suppressed by Facebook’s algorithm

Why these Facebook research scandals are different: How the company found itself in its biggest crisis since Cambridge Analytica

Facebook: Updating Our Cookie Controls in Europe

Foto: Niall Kennedy (CC)