Um estudo revelou o impacto negativo do comércio electrónico no emprego, contando o número de empregos criados e destruídos.

A Amazon, gigante global do comércio electrónico está a ser criticada pelas suas condições de trabalho cada vez mais precárias, optimização fiscal agressiva e custos ambientais da sua cadeia de fornecimentos. Perante todas essas críticas, a Amazon destaca regularmente a sua capacidade de criar empregos. Mas entre os novos empregos nos armazéns da empresa americana e o encerramento de pequenos negócios devido ao desenvolvimento das vendas online, o saldo é mesmo positivo?

Dois economistas da consultora Kavala Capital analisaram o assunto em vários países europeus, incluindo França. O estudo não se concentra especificamente na Amazon, mas no comércio online não alimentar, sector em que a plataforma americana é de longe protagonista, seguida, dependendo do tipo de produto, por outros sites como Cdiscount, Fnac ou mesmo a SNCF para viajar [de comboio].

É difícil avaliar com precisão a quota de mercado da gigante americana em França, mas uma coisa é certa: ela é ultra-dominante. A Fevad, federação francesa do comércio online, afirma que a Amazon detém 53% do mercado (sem ter em conta os mercados de alojamento e reservas de viagens). A Kantar, especialista em pesquisas de mercado, estima que a quota de mercado da Amazon seja de 22%, quase três vezes mais do que o seu principal concorrente Cdiscount.

Mais de 80 mil empregos destruídos em dez anos

Florence Mouradian e Ano Kuhanathan modelaram a evolução da perda de empregos no retalho não alimentar e a criação de empregos no comércio grossista. Eles estimam que em França o desenvolvimento das compras online levou à perda de 114 mil empregos entre 2009 e 2018 no sector do retalho e à criação de 33 mil empregos no grossista, ou seja, um saldo negativo de mais de 80 mil empregos perdidos – o equivalente à perda de cerca de dez mil empregos por ano.

No que diz respeito à logística, “as estimativas efectuadas neste estudo não permitem confirmar que o comércio electrónico teve um impacto significativo no transporte de mercadorias, nomeadamente no rodoviário”, afirmam os autores. Uma possível falta de dados pode justificar esta situação, uma vez que a utilização de trabalhadores destacados, por conta própria ou “freelancers” não é abrangida pelas estatísticas utilizadas.

Após uma avaliação dos números da década de 2010, os autores alargaram a projecção para a próxima década e apresentaram um número de 46 mil empregos perdidos em França até 2028, de acordo com um cenário mediano de desenvolvimento do comércio electrónico. Este número pode subir para 87 mil se o desenvolvimento das compras online pelos consumidores acelerar ainda mais.

As consequências em termos de emprego variam entre países mas são negativas para a Alemanha (mais de 80 mil empregos serão perdidos) e Espanha (30 mil). A Itália, por outro lado, veria um aumento de empregos no âmbito estudado, o que pode ser explicado por um desenvolvimento do comércio electrónico muito menor do que os seus vizinhos. Apenas 38% dos italianos fizeram pelo menos uma compra online em 2019, em comparação com 70% dos franceses e 79% dos alemães. https://ec.europa.eu/eurostat/documents/4187653/11571495/Internet+users+who+bought+or+ordered+goods+or+services+for+private+use.png/8648d919-6cfb-f79e-5ab7-477e06e4091d?t=1613122902828

Vestuário na linha da frente
No entanto, a maior parte das perdas de empregos concentra-se em vários sectores específicos. Em França, as lojas de roupa e calçado pagaram o preço mais alto, com 64.571 empregos perdidos na última década. O exemplo mais citado das livrarias é menos expressivo, devido ao menor número de funcionários, ou seja, 2.876 empregos perdidos no período considerado.

Infographic: Most popular online purchases

Um dos pontos mais interessantes deste estudo é também mostrar que nem todos os retalhistas são afectados da mesma forma.

Quanto menor a empresa, mais vulnerável ela é. Aquelas com mais de 250 funcionários tiveram um impacto geral positivo sobre o emprego ao longo do tempo, com cerca de 16 mil empregos criados, em comparação com os 121 mil perdidos entre pequenos comerciantes com menos de 20 funcionários.

“Por outras palavras, um emprego criado no retalho não-alimentar numa grande empresa por meio do comércio electrónico destruiu cerca de seis empregos em empresas menores”, concluem os dois economistas.

A destruição de empregos permanece num volume muito moderado, os 114 mil empregos no caso francês representam uma variação de apenas 0,2% dos retalhistas, mas essa tendência subjacente ressoa em muitos centros urbanos do país e continua a favorecer as grandes empresas.

* Artigo de Justin Delépine, publicado na Alternatives Economiques/EDJNet (CC BY 4.0). Fotos: Stephen Woods, Scottish Government (CC BY 2.0).