QAnon no Capitólio dos EUA: o efeito offline das teorias da conspiração online

Qual é o custo da propaganda, da desinformação e das teorias da conspiração? A democracia e a segurança pública, para citar apenas duas coisas. Os Estados Unidos receberam uma dura lição sobre como a propaganda online e a desinformação têm um impacto offline.

Durante meses, Donald Trump alegou falsamente que a eleição presidencial de Novembro foi uma fraude e foi por isso que não foi reeleito. As palavras do presidente espelharam e alimentaram as teorias conspirativas disseminadas pelos seguidores do movimento QAnon.

Embora os teóricos da conspiração sejam frequentemente considerados “loucos nas redes sociais”, os adeptos do QAnon estavam entre os indivíduos na linha de frente da invasão do Capitólio.

O QAnon é um movimento extremista descentralizado, ideologicamente motivado e violento, enraizado numa teoria da conspiração infundada de que uma cabala global “Deep State” de elites pedófilas satânicas é responsável por todo o mal no mundo. Os adeptos do QAnon também acreditam que esta mesma cabala está a tentar derrubar Trump, que eles vêem como a única esperança do mundo para a derrotar.

A evolução do QAnon
Embora tenha começado como uma série de teorias da conspiração e falsas previsões, nos últimos três anos o QAnon evoluiu para uma ideologia político-religiosa extremista.

Estudo o movimento há mais de dois anos. O QAnon é o que chamo de religião hiper-real. Pega em artefactos culturais populares e integra-os numa estrutura ideológica.

O QAnon tem sido uma ameaça à segurança ao longo dos últimos três anos.

A pandemia Covid-19 desempenhou um papel significativo na popularização do movimento. Dados do Facebook desde o início de 2020 mostram que o número de membros do QAnon cresceu 581% – a maioria dos quais ocorreu após os EUA fecharem as suas fronteiras em Março passado como parte da estratégia de contenção do coronavírus.

Como observou o investigador dos media sociais Alex Kaplan, 2020 foi o ano em que “o QAnon tornou-se um problema nosso”, já que o movimento inicialmente ganhou força ao espalhar teorias de conspiração e desinformação relacionadas com o Covid e foi posteriormente apoiado por 97 candidatos ao Congresso dos EUA que mostraram publicamente apoio ao QAnon.

Respostas da multidão
A essência do QAnon está nas suas tentativas de delinear e explicar o mal. É sobre teodiceia, não evidências seculares. O QAnon oferece aos seus adeptos conforto numa era incerta – e sem precedentes – à medida que o movimento agrupa (“crowdsources”) respostas ao inexplicável.

O QAnon torna-se a narrativa-mestre capaz de explicar de forma simples vários eventos complexos. O resultado é uma cosmovisão caracterizada por uma nítida distinção entre os reinos do bem e do mal que é não-falsificável.

Não importa que provas os jornalistas, académicos e a sociedade civil ofereçam como contra-ataque às reivindicações promovidas pelo movimento, a crença em QAnon como a fonte da verdade é uma questão de fé – especificamente na sua fé em Trump e em “Q,” o anónimo que começou o movimento em 2017 colocando online uma série de teorias loucas sobre o “Deep State”.

[Porque acreditam as pessoas em teorias da conspiração: “A crença em teorias da conspiração acompanha frequentemente a crença em fenómenos paranormais, cepticismo em relação ao conhecimento científico e fraquezas no pensamento analítico. A propensão a acreditar em teorias da conspiração também está associada à religiosidade, particularmente em pessoas para as quais uma cosmovisão religiosa é especialmente importante. Esses traços dificilmente são universais ou exclusivos dos teóricos da conspiração, mas ajudam a criar uma vulnerabilidade à crença“.]

Teorias validadas por Trump
O ano de 2020 também foi quando Trump deu finalmente deu à QAnon o que ela sempre quis: respeito. Como Travis View, um investigador da teoria da conspiração e apresentador do podcast QAnon Anonymous, escreveu recentemente: “Nos últimos meses… Trump reconheceu a comunidade QAnon de uma forma que os seus seguidores só poderiam ter fantasiado quando comecei a acompanhar o crescimento do movimento há dois anos”.

Trump, os advogados Sidney Powell e Lin Wood, e a “estrela em ascensão” Ron Watkins do QAnon têm inflamado activamente os desejos apocalípticos e anti-“establishment” dos QAnon ao promover teorias da conspiração sobre fraude eleitoral.

As dúvidas sobre a validade da eleição têm circulado tanto na extrema direita quanto nos círculos do QAnon. Em Outubro passado, escrevi que, se houvesse atrasos ou outras complicações no resultado final da disputa presidencial, isso provavelmente alimentaria uma crença pré-existente na invalidação das eleições – e promoveria um ambiente caótico que poderia levar à violência.

Esperança por milagres
A invasão do Capitólio dos EUA foi a culminação do que se vem a acumular há semanas: a “esperança” nos círculos do QAnon de que um milagre através do vice-presidente Mike Pence e uma outra bruxaria constitucional anulariam os resultados das eleições.

Em vez disso, os seguidores do QAnon enfrentam agora o fim da presidência Trump – onde eles tinham rédea solta – e o medo do que uma presidência Biden trará.

Já se passou há muito o ponto de perguntar simplesmente: como podem as pessoas acreditar no QAnon quando tantas das suas afirmações vão contra os factos? O ataque ao Capitólio mostrou os perigos reais dos adeptos do QAnon.

A sua ideologia militante e anti-sistema – enraizada num desejo quase apocalíptico de destruir o mundo existente e corrupto e inaugurar uma era de ouro prometida – esteve em plena exibição para todos verem. Quem poderia perder o homem sem camisa e usando um chapéu de pele, conhecido como QAnon Shaman, liderando o ataque à rotunda do Capitólio?

O que vai acontecer agora? O QAnon, com outros actores da extrema-direita, provavelmente continuará a unir-se para alcançar os seus objectivos de insurreição. Isso poderia levar a uma continuação da violência inspirada no QAnon, já que a ideologia do movimento continua a crescer na cultura americana.

* Texto de Marc-André Argentino, publicado pela The Conversation. Reproduzido sob licença (CC BY-ND 4.0). Fotos: marcn (CC BY 2.0), FBI.

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