Evento anti-vacinas em Portugal deve ser censurado?

David Icke, um profissional das teorias da conspiração e anti-vacinas, tem marcado um evento para Lisboa, no sábado de 23 de Outubro de 2021.

Segundo o plano de vacinação de Portugal, o evento deverá ocorrer após o apogeu da vacinação contra o Covid-19 mas pouco antes da época sazonal da gripe.

Com dois livros traduzidos e editados em Portugal, Icke passará pelo país num tour europeu de lançamento de um novo livro, para ser ouvido por quem estiver disposto a pagar cerca de 50 euros.

Quase com 70 anos, Icke promove várias teorias da conspiração, nomeadamente sobre a pandemia do coronavírus e a suposta ligação às antenas 5G.

Este ex-futebolista inglês e ex-apresentador de televisão antecipou o fim do mundo para 1997 mas sobreviveu para contar o seu falhanço. Foi porta-voz do Green Party mas isso não o impediu de desacreditar posteriormente as alterações climáticas ou de afirmar que os membros da família real britânica são reptilianos – o que levou o regulador dos media a investigá-lo.

Foi acusado de anti-semita e de negacionista do Holocausto, o que levou a sua antiga editora a deixar de lhe publicar os livros.

Em Maio, o seu canal no YouTube e a página no Facebook foram encerrados – esta última pela publicação de “desinformação de saúde que podia causar danos físicos“. O Twitter fez o mesmo em Novembro passado.

Estas decisões, visando as campanhas de desinformação orquestradas por muitos oportunistas, levantam normalmente algumas questões sobre a censura em sociedades democráticas.

“Num mundo onde a media social é cada vez mais onde a maioria obtém muita das informações e onde se valoriza a liberdade de expressão como pedra angular da democracia, o que pode ser feito para combater a desinformação perigosa”, questionam responsáveis do World Economic Forum (WEF).

“Censurar os anti-vacinas apenas reduz a confiança e encoraja as teorias da conspiração” é o título de um artigo de John Macdonald, responsável pelos assuntos governamentais no Adam Smith Institute.

Ele defende a necessidade de uma “discussão baseada na razão, persuasão e incentivos para ultrapassar a hesitação perante as vacinas”, pelo que a censura é usada por quem é incapaz de defender os seus argumentos. As medidas de saúde pública funcionam num “clima de confiança, respeito e cooperação”, nem sempre disponíveis nas actuais democracias.

“Controlar a expressão online servirá apenas para solidificar ainda mais aqueles que se opõem à vacinação”, alega Macdonald, e “também enviará a mensagem de que o Governo não confia nas pessoas para ter uma conversa sensata sobre vacinação”.

Na realidade, muita da desinformação “está entre os nossos amigos e familiares. Portanto, temos que encontrar estratégias para, antes de tudo, reconhecê-la. E, em segundo lugar, como cidadãos activos, assim como usamos máscaras para proteger os outros, precisamos de ser bons cidadãos, o vector activo a ripostar nas nossas vidas diárias”, aponta o jornalista Mark Little.

Além de se promover a literacia mediática, “as plataformas de media social devem garantir que estão a trabalhar para o bem da democracia, e não contra ela”, salientando que “não há uma solução fácil. O modelo de negócio das plataformas, infelizmente, incentiva a disseminação desse tipo de informação ultrajante. Mas isso tem de mudar”.

Para quem possa considerar que se trata de um alerta exagerado, no final de Novembro e antecipando a vacinação anti-coronavírus, a Inglaterra renovou uma unidade de élite de “guerrilha da informação” do exército inglês, usada antes nas operações militares contra os talibãs da al-Qaeda.

O objectivo é monitorizar os conteúdos sobre o Covid-19 e perceber se o público britânico está a ser visado por campanhas de desinformação, incluindo sobre as vacinas, por “estados hostis”.

A medida pode parecer exagerada mas não no panorama actual. Em Novembro, as autoridades de saúde OMS e CDC (dos Estados Unidos) divulgaram um relatório a mostrar que “as mortes causadas pelo sarampo aumentaram quase 50% desde 2016” – e isto “apesar de haver uma vacina altamente eficaz”.

Os principais países com surtos generalizados entre crianças foram a Geórgia, República Centro-Africana, República Democrática do Congo, Casaquistão, Madagascar, Macedónia do Norte, Samoa, Tonga e Ucrânia.

Alguns deles constam da lista dos principais países onde os cidadãos mais desconfiam da segurança das vacinas, com a Ucrânia a liderar esse mapa.

Mas “o que é assustador agora é que os nossos profissionais essenciais de saúde pública foram re-orientados do diagnóstico, teste e notificação de casos suspeitos de sarampo para a Covid-19”, disse Robb Linkins, epidemiologista do CDC. “Com o sarampo, tem de se ser implacável”.

Foto: Kayla Velasquez/Unsplash

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