Trabalho remoto: uma revolução que precisa de regras

O teletrabalho foi principalmente uma revolução por acidente, devido à pandemia de Covid-19. Muitas pessoas já descobriram o seu lado positivo e potencial, mas também os seus riscos e limites. No entanto, as más condições de trabalho associadas ao trabalho nómada ou em casa não são inevitáveis.

Antes da palavra confinamento [“lockdown”] entrar no vocabulário europeu este ano, o teletrabalho ainda era um fenómeno pouco comum – sonhado por alguns, temido por outros, e nem mesmo uma opção para a maioria dos empregados na Europa.

Excepto nalguns países de baixa densidade populacional (Islândia, Noruega, Finlândia) e nalguns outros com economias altamente terciárias (como o Reino Unido, Holanda e Luxemburgo), poucos europeus trabalharam desta maneira. Mas em poucos dias, dezenas de milhões tiveram de lidar com o e-mail nas suas salas de estar, participando de videoconferências nos seus quartos e fazendo chmadas telefónicas nas suas cozinhas para escapar a crianças barulhentas.

E agora? De acordo com inquéritos recentes, muitos europeus dizem que querem continuar a teletrabalhar após a pandemia (pelo menos parcialmente) e muitas empresas também estão prontas para permitir isso. No entanto, o trabalho remoto não vai tornar-se universal, até porque nem todas as ocupações são compatíveis com ele. Obviamente, os confinamentos levaram a limites o que se imaginava anteriormente, por isso é possível que os verdadeiros limites do teletrabalho ainda estejam subestimados.

Mas em França, por exemplo, 18,5 milhões dos 27 milhões de empregos do país não se prestam ao teletrabalho, segundo o Observatório Francês de Condições Económicas (OFCE). Além disso, não é certo que os milhões de teletrabalhadores em potencial ainda vão trabalhar remotamente no longo prazo. Em França, um terço dos funcionários disse estar feliz em regressar ao escritório após o confinamento da Primavera.

A importância de uma boa ligação
Em segundo lugar, aqueles que desejam continuar a teletrabalhar vão precisar de um ambiente de trabalho diferente do que tinham durante o confinamento. O primeiro aspecto é puramente técnico: a Europa ainda não está perfeitamente conectada.

O acesso a uma ligação à Internet com qualidade tornou-se um grande problema de produtividade para os países, pois os trabalhadores estão cada vez mais móveis. Além da simples distinção entre quem trabalha no escritório e o faz em casa, muitos funcionários agora são nómadas – seja porque o seu trabalho envolve muitas viagens (vendas e marketing, por exemplo), ou porque alternam entre os escritórios da empresa, a sua casa ou até outros locais (como espaços de coworking).

Mobilidade e os seus riscos
Globalmente, os países com uma alta proporção de teletrabalhadores também são aqueles com a maior proporção de trabalhadores móveis. Além da densidade populacional e da predominância do sector dos serviços, este é provavelmente o produto de uma gestão mais aberta a essas novas formas de trabalho. Assim, os países nórdicos e anglófonos têm trabalhadores muito mais móveis do que os do sul (Itália, Grécia, Portugal, Espanha, etc.).

Este tipo de mobilidade é cada vez mais procurada por alguns colaboradores, nomeadamente por oferecer maior flexibilidade no horário de trabalho. Mas a pesquisa disponível alerta para os riscos associados a esse estilo de vida. Por exemplo, teletrabalhadores e trabalhadores altamente móveis na Europa trabalham significativamente mais horas do que outros.

É certo que esse resultado é parcialmente um efeito da proporcionalidade: o teletrabalho é mais fácil para os gestores, e estes têm horas de trabalho (e salários) mais elevados do que os trabalhadores de uma linha de produção com horários rígidos numa fábrica. No entanto, os trabalhadores móveis são muito mais propensos a trabalhar no seu próprio tempo e a revelar mais stress do que outros.

A necessidade de novas regras
As boas notícias é que as más condições de trabalho associadas ao trabalho nómada ou em casa não são inevitáveis. Ao incluir essas práticas em acordos de negociação colectiva de empresas ou de sectores, a situação pode ser significativamente melhorada. Horas de trabalho, separação da vida privada e profissional, participação na vida da empresa – “quanto mais formalizado o acordo, mais parece ter um papel protector [para o teletrabalhador]”, nota um estudo do INSEE, o instituto nacional de estatística francês.

Em França, representantes laborais e do patronato estão a discutir uma revisão das regras nacionais. Os sindicatos reivindicam uma melhor protecção dos trabalhadores, enquanto os empregadores estão satisfeitos com as regras actuais, que são muito flexíveis. No entanto, o que era possível quando o teletrabalho envolvia apenas alguns gestores voluntários tornou-se menos possível agora que a prática é difundida e às vezes imposta aos funcionários por motivos de saúde. O trabalho remoto foi principalmente uma revolução por acidente, por causa da pandemia. Agora, está na hora de lhe fornecer um quadro de referência mais sustentável.

* Texto e gráficos publicados pela Alternatives Economiques/EDJNet. Reproduzido sob licença CC BY 4.0. Foto: Yurii Yarema/Shutterstock.

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