Guerra da China contra o “apunhalamento” pelo Big Data

A China tem um relacionamento diferente com os seus monopólios tecnológicos do que os EUA, graças a uma combinação de propriedade estatal, investimento estatal, cruzamentos entre membros do Partido [Comunista Chinês] e veteranos do ELP [Exército de Libertação Popular] com os cargos de direcção e liderança na Big Tech chinesa.

Ambos os países usam as suas firmas de Big Tech para desenvolver o “soft power” (e capacidades de vigilância) em todo o mundo, é claro, e a indústria de tecnologia dos EUA certamente faz parte do complexo militar-industrial dos EUA, mas essa relação é mais tácita do que explícita.

Mas aberto ou tácito, explícito ou não falado, o poder monopolista prejudica o público e – eventualmente – desafia o poder do estado, que cria coligações entre o público e os seus governos para lutar contra a concentração corporativa e domínio.

Em Novembro, a Administração Estatal para a Supervisão do Mercado publicou um rascunho de “New Anti-Monopoly Guidelines for the Platform Economy” (“Novas Directrizes Antimonopólio para a Economia de Plataforma”, em mandarim), propondo restrições ambiciosas ao poder monopolista da tecnologia na China.

A peça central destas regulamentações são as proibições de “Big Data Backstabbing” [“apunhalamento” pelo Big Data] – o uso da vigilância digital para dinamicamente definir o preço de bens, de acordo com o palpite do comerciante de quanto o cliente está disposto a pagar.

Embora seja difícil saber se se está a ser “apunhalado”, é uma questão de fé entre os internautas chineses que isso está a acontecer: 88% acredita que isso ocorre e 57% que já foram vítimas disso.

O “backstabbing” é considerado uma espécie de recompensa anti-fidelidade em que os clientes existentes pagam preços mais altos; os memes populares para isso são [em mandarim]:
“Utilizadores antigos são tratados pior do que cães”
“São as pessoas que te conhecem melhor que mais te magoam”

A discriminação de preços é um dos assuntos que revelam as falhas na economia: os economistas (especialmente o culto neoclássico dominante) consideram a discriminação de preços “óptima” e argumentam que as economias com ampla discriminação de preços são melhores na alocação de recursos.

Mas as pessoas odeiam a discriminação de preços. Pense na aversão universal que temos pelo sistema opaco e sempre em mudança pelo qual as companhias aéreas tarifam os lugares (a [companhia aérea] AA está tão desesperada que oferece um pacote com o “preço sempre mais baixo” para passageiros que pagam antecipadamente 5.000 dólares/ano de viagem).

A discriminação de preços é tão ampla e automaticamente vista como injusta – apesar das alegações dos economistas sobre a “optimização” – que as empresas têm que esconder a sua discriminação de preços e mentir sobre ela ou usar eufemismos para a descrever, o que faz com que tudo pareça ainda mais sombrio.

É um tema perfeito para reunir o apoio popular no mundo vacilante do esforço anti-monopólio, de modo que os estados que defendem o seu poder das corporações podem garantir um grande grupo de compradores irritados a apoiar o seu jogo.

O artigo 17 das novas regras chinesas propostas estabelece os factores que podem levar a uma conclusão de “tratamento discriminatório” numa transacção, dando aos reguladores margem para punir a mineração de dados para determinar o poder de compra ou o histórico do comprador, a sua actividade online ou preferências.

Curiosamente, não é um requisito firme: a regra permite que os reguladores considerem a discriminação com base na mineração de dados, mas não os exige quando investiga acusações de fraude.

A regra também cria alguns “portos seguros” amplamente definidos para as plataformas, como oferecer promoções para atrair novos clientes e, de acordo com a análise da Sixth Tone por Shen Weiwei, permite que as empresas usem históricos de crédito para praticar a discriminação de preços – uma grande lacuna.

Shen sugere que a imprecisão das regras é uma característica, não um “bug”, permitindo aos reguladores praticarem a tolerância quando se trata de condutas que não consideram odiosas, e reprimir selectivamente aqueles que julgam ser os piores infractores.

* Texto original de Cory Doctorow, publicado na Pluralistic e usado sob licença CC BY 4.0. Foto: David Boté Estrada (CC BY-SA 2.0)

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