A desinformação sobre os tratamentos com medicamentos para a Covid-19 tem padrões regionais mas há alguns que se repetem em diferentes países, notando-se um “fluxo de desinformação através das fronteiras [que] provavelmente se deve a factores culturais, geográficos e políticos”.

Brasil e Índia são duas nações com modelos diferentes, onde as tendências para a desinformação “parecem estar isoladas das de outros países”. No caso do Brasil, “os casos da cloroquina e da ivermectina são particularmente preocupantes” porque, apesar de terem surgido como “especulações científicas” para a cura da Covid-19, eles “persistem no debate público brasileiro, mesmo após investigação científica que não sustenta” essa tese. E é uma “tendência [que] não foi seguida noutros países”.

Os dados constam do relatório “Scientific [Self] Isolation“, que identifica padrões internacionais de desinformação usando as bases de verificação de factos” de dezenas de países, nomeadamente da CoronaVirusFacts Alliance/International Fact-Checking Network (com o subconjunto português e espanhol do Latam Chequea).

Nas conclusões, aponta-se como “a politização da ciência é uma grave ameaça para a ciência, que é o meio eficaz e fiável de desenvolver soluções para a pandemia. A compreensão científica é construída e mantida por meio do seu próprio conjunto de métodos e espaços de construção de consenso”.

No caso do Brasil, por exemplo, “a produção científica está a ficar associada a valores políticos, económicos e religiosos e que o método científico está a ser adulterado por forças externas. Embora pareça sensato que as provas sejam discutidas na tomada de decisão, a esfera pública digital está sujeita a uma grande quantidade de informações concorrentes sobre o que significa consenso científico. As redes de especialistas não conseguem irrigar a sociedade com informação, pois as narrativas de desinformação – às vezes promovidas pelo poder público – ocupam esses espaços e competem pelos mesmos públicos”.

Para os autores do documento, “o ambiente digital tornou-se uma arena central para disputas políticas em todo o mundo e, como tal, tem sido objecto de várias campanhas de desinformação. Informações falsas ou enganosas povoaram as discussões online e circularam por diferentes países. A desinformação é um fenómeno global e regional; enquanto algumas afirmações falsas viajam pela Internet, outras estão directamente relacionadas com crenças regionais e narrativas políticas”.