Quando o teletrabalho pede ajuda aos robôs

O “burn out” humano está mais elevado que antes da pandemia, nomeadamente em Silicon Valley, “com quase 70% a apontarem cansaço” superior por trabalharem em casa (eram 61% de inquiridos em Fevereiro passado). Uma outra nota é que, com o Covid-19, os sintomas depressivos aumentaram e a satisfação pela vida diminuiu. Potencialmente relacionado com a disponibilidade para trabalhar em casa, os “indivíduos com educação superior experimentaram um maior aumento nos sintomas depressivos e uma maior diminuição na satisfação com a vida do que antes  ou durante o Covid-19 em comparação com aqueles com menor escolaridade”, notou o estudo “Socioeconomic status and well-being during COVID-19: A resource-based examination.

Apesar dos ganhos na produtividade – e também nas deslocações entre casa e local de trabalho-, os funcionários queixam-se agora de novos tipos de stress, como “mais horas de trabalho, menor balanço entre trabalho e vida pessoal e fadiga do video-chat“. E ainda o pagamento de despesas em ambiente doméstico que antes decorriam de estar nas empresas.

A solução passa pela automação, segundo um estudo da Oracle e da Workplace Intelligence, onde se expressa que “82% das pessoas acredita que os robôs podem suportar a sua saúde mental melhor do que os humanos”.

A relação entre humanos e robôs também se está a alterar, segundo o estudo da Oracle e da Workplace Intelligence, com 68% das pessoas a revelarem preferir falar com um robô sobre o stress e a ansiedade no trabalho do que com a sua chefia humana. 80% não se importava mesmo de os ter como especialistas de aconselhamento ou de terapia.

Esse tipo de salvação pode estar próxima. Perante a pandemia, o futuro do trabalho sofreu alterações e antecipa-se que a automação deve substituir 85 milhões de empregos a nível mundial nos próximos cinco anos, embora criando 97 milhões de outras funções, segundo o “The Future of Jobs Report 2020“.

A pressão que estas alterações devem impor perante o mercado laboral não são pequenas e, pelo contrário, é crítica a sua discussão atempada. Começa por os robôs (e os sistemas de inteligência artificial) não pagarem impostos, uma situação analisada recentemente também por economistas portugueses, num texto que “conclui que é ideal tributar robôs a curto prazo, mas não a longo prazo, a fim de proteger os trabalhadores com rotinas actuais que não podem adquirir capacidades não-rotineiras, enquanto os incentiva a adquirir essas capacidades no futuro”.

Esse cenário também passa por uma maior cooperação homem-máquina. “Na área das equipas homem-máquina, muitas vezes pensamos sobre a tecnologia – por exemplo, como a monitorizamos, entendemos e nos certificamos de que está a funcionar bem. Mas o trabalho em equipa é uma via de sentido duplo, e essas considerações não acontecem dos dois lados. O que estamos a fazer é olhar para o outro lado, onde a máquina está a monitorizar e a melhorar o outro lado – o humano”, nota Michael Pietrucha, especialista do MIT Lincoln Laboratory.

Mas o que se pode dizer desta entre-ajuda quando os robôs alegadamente ameaçam o mercado de trabalho humano?

Um novo estudo detectou “um impacto muito real” nesta tendência, embora longe de uma ampla disseminação dos robôs, e que o seu impacto “pode desempenhar um papel notável no agravamento da desigualdade do rendimento”.

“Encontramos efeitos negativos sobre o emprego bastante importantes”, diz o economista do MIT, Daron Acemoglu, mas o impacto dessa tendência pode ser exagerado. Segundo os dados, entre 1990 e 2007, “um robô adicional por 1.000 trabalhadores reduziu a proporção nacional de emprego para a população em cerca de 0,2%”. Assim, cada robô adicionado no sector da fabricação “substituiu cerca de 3,3 trabalhadores a nível nacional, em média”.

Perante esta aparente valia para as empresas, porque não estão mais robôs no mercado do trabalho?

“Colocar com sucesso a robótica na produção é uma tarefa complexa, e a maioria das empresas não está equipada para implementar e beneficiar desses sistemas avançados. Conforme estudamos como as organizações e os trabalhadores da linha de frente se estão a adaptar à robótica capacitada pela IA de próxima geração no trabalho manual nos EUA, descobrimos que uma adaptação bem-sucedida é rara. Isso é lógico. A história e décadas de pesquisa dizem-nos que, quando surge uma forma qualitativamente nova de automação – qualquer coisa, desde teares accionados por cartão perfurado até correções de chamadas automatizadas – as organizações gastam muito mais tempo e dinheiro do que se podia esperar em encontrar usos produtivos para essa tecnologia”.

Na robótica doméstica, o fracasso comercial tem outras razões, explica Joe Jones, um dos inventores do robô-aspirador Roomba. Eles têm de conseguir executar uma tarefa valiosa, fazê-la atempadamente e por um custo competitivo.

Segundo Jones, “os robôs demoram a aparecer porque cada um requer uma rara confluência de mercado, tarefa, tecnologia e inovação”, mas com os avanços tecnológicos “mais tipos de robôs cruzarão o limiar da viabilidade económica”.

O mesmo pode antever-se na automação industrial. Mas há um problema premente a resolver: os robôs são maus contadores de anedotas. E não se é fã de trabalhar com uma máquina que não sabe contar piadas ou entendê-las…

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