EUA: revistas de ciência (e de surf…) apoiam Biden

Pela primeira vez, revistas científicas – algumas centenárias – declararam o seu apoio a um candidato presidencial nos EUA. Joe Biden foi o escolhido. Porquê? E será que esta prática de jornais apoiarem candidatos a eleições é prejudicial para a confiança nos media?

A 1 de Outubro, a revista Scientific American declarou em editorial o seu apoio a Biden como candidato presidencial. A revista foi clara: “nunca apoiámos um candidato presidencial nos nossos 175 anos de história – até agora“. Entre as razões estavam a postura de Trump em recusar as provas e a ciência. “É altura de tirar Trump e eleger Biden, que tem um histórico de acompanhar os dados e ser guiado pela ciência”.

Esta posição teve, menos de uma semana depois, um texto de opinião semelhante no BMJ, assinado por dois democratas votantes de Biden, com o título “Líderes populistas como Trump, Bolsonaro, [Narendra] Modi e [Boris] Johnson olham para os cientistas como seus oponentes”. Esta opinião era partilhada noutros meios: “A hostilidade de Trump contra a ciência manifesta-se não apenas na negação dos factos pelo governo e supressão das vozes dos cientistas sobre o clima, Covid-19 e outras questões de vida e morte. Nas suas palavras e actos, ele rejeita até mesmo o ideal da ciência como uma procura pela verdade. O presidente acredita que pode fazer a realidade conformar-se aos seus desejos apenas por os expressar”.

A 8 de Outubro, o New England Journal of Medicine (NEJM) recordou o “espantoso” falhanço na resposta à pandemia e alertou para a necessidade de uma alteração política presidencial. “Esta crise produziu um teste à liderança” e “os nossos líderes falharam esse teste. Pegaram numa crise e transformaram-na numa tragédia”, afirma o editorial com o título “Morrer num Vazio de Liderança“.

Apesar das críticas à política científica de Trump, a publicação não aponta qualquer candidato como sua escolha. Nos seus 208 anos, a revista científica apenas escreveu quatro editoriais e nunca sobre política, explicou o seu director à CNN. Três foram publicados em 2014 sobre contracepção, o falecimento de um ex-director do NEJM e a investigação em saúde, e um quarto sobre o aborto, no ano passado.

A revista Science recordava o seu passado recente no tema da pandemia, quando as suas palavras “não poderiam ser mais destrutivas. Quando os cientistas tentaram dizer-lhe que estava a chegar uma crise, ele afirmou que era um ‘novo esquema [contra si]’. Sobre o número extraordinário de vidas perdidas, disse: ‘é o que é’. O seu plano para vencer o vírus é simplesmente que ‘como um milagre, ele desaparecerá’. A sua estratégia de comunicação é a de que ‘eu sempre quis minimizar’. E quanto ao seu papel como líder de um país em crise, diz: ‘Não, eu não assumo nenhuma responsabilidade’” – excepto na justificação de merecer o crédito pelo desenvolvimento das vacinas.

“Agora que o próprio Trump foi diagnosticado com Covid-19, ele está a ver em primeira mão os benefícios da ciência que há muito mina. O cocktail experimental de anticorpos que tomou é fruto de um esforço gigantesco de cientistas que lutam arduamente para entender a proteína viral do pico e as características dos anticorpos neutralizantes mais potentes. Esse esforço assenta sobre os ombros de décadas de investigação fundamental em imunologia e biologia estrutural, ciência que Trump insultou e desvalorizou ao cortar fundos para os National Institutes of Health em todos os orçamentos que apresentou, mas ainda mais com as suas palavras”.

Esta desvalorização da ciência ocorreu de forma insidiosa nos Centers for Disease Control and Prevention (CDC) durante a pandemia do Covid-19.

A 14 de Outubro, foi a vez da Nature explicar porque apoiava Biden para presidente: “Não podemos ficar parados e deixar a ciência ser prejudicada. A confiança de Joe Biden na verdade, prova, ciência e democracia fazem dele a única escolha nas eleições dos EUA”.

A iniciativa não é nova. Em Outubro de 2012, devido “ao apoio a questões da ciência e ambientais”, a Nature recomendou o voto em Barack Obama e os democratas contra o republicano Mitt Romney.

A revista recorda como não “escondeu o seu desapontamento” quando se soube da eleição de Trump há quatro anos e se enganou relativamente ao potencial da democracia nos EUA. No mesmo sentido, declara agora como a ciência e a política estão interligadas, afirmando a necessidade de publicar mais textos (também de investigação) sobre política. “A ideia de que os cientistas competentes são apolíticos é falsa e custa vidas”, escreve noutro texto.

Apenas melhor do que a alternativa

Mas o que se pode esperar de Joe Biden na ciência, inovação e tecnologia perante Trump?

Segundo a Nature, o foco estará na actual pandemia, nas alterações climáticas (e ambientais), na exploração espacial ou na colaboração científica internacional, prosseguindo as linhas de orientação de Trump na segurança nacional, inteligência artificial e ciência quântica.

Uma outra linha política de apoio à investigação deverá ocorrer no âmbito oncológico. Ao declarar o seu apoio a Biden – algo nunca feito nos 20 anos da revista -, a The Lancet Oncology apontou como “ele é o único candidato a ver a importância da saúde como um direito humano que valoriza a sociedade, e não mais uma oportunidade de negócios para enriquecer uma pequena minoria”. A constatação deriva de Biden ter perdido um filho em 2015 com cancro no cérebro.

Fora da ciência, Biden foi também escolhido por revistas como a Rolling Stone por “oferecer soluções progressistas a cada um dos grandes problemas que o país enfrenta”. E até a Surfer apelou aos surfistas para votarem Joe Biden e Kamala Harris, por serem “os candidatos que melhor representam os nossos interesses de surfistas”. Mas “são eles os candidatos mais perfeitos, nem-se-poderia-sonhar-com-alguém-melhor-mesmo-se-se-tentasse nestas questões? Somos os primeiros a dizer que não. Mas eles são muito melhores do que a alternativa”.

A tradição é mais bem aceite nos meios generalistas. A vinculação de um meio de comunicação social a um candidato ocorre há muitos anos. Por exemplo, o New York Times fê-lo pela primeira vez em 1860.

Imprensa: 170 anos a mediar votos

O apoio dos jornais era significativo “quando o número de leitores era elevado e a competição entre os jornais era grande”, escreveu o The Hill. “Na década de 1850, Abraham Lincoln comprou literalmente um jornal alemão para angariar votos e apoios. (Lincoln comprou o Illinois Staats-Anzeiger, exigindo que apoiasse o Partido Republicano na eleição de 1860).

Em Janeiro passado, o mesmo NYT assegurava que a apoio a candidatos por “jornais pode ajudar a educar os eleitores sobre os candidatos nacionais e locais e levar a decisões mais bem informadas nas urnas”.

No entanto, se o resultado era claro, o processo “era tipicamente opaco”, tentando explicar “quem são as pessoas por detrás dessa decisão e como chegaram a ela”. O Los Angeles Times fez o mesmo mas o processo de escolha ocorreu este ano por reunião virtual, à qual os assinantes do jornal tiveram acesso.

Sob o título “Elect Joe Biden. Reject Donald Trump“, o USA Today recordou como há quatro anos acabou com a tradição que imperava desde 1982 e tomou partido na eleição, recomendando aos seus leitores para não votarem em Trump mas não apoiando Clinton. Este ano, de forma unânime, o seu Editorial Board aprovou o suporte a Biden, “que oferece a uma nação abalada um porto de calma e competência”.

A prática está a ser questionada pelos receios deste tipo de opção minar ainda mais a confiança dos leitores nos meios de comunicação social, como defendeu Chris Day, editor do The Daily Advance, ou o MLive.

Para o The Hill, “o risco de alienar os consumidores de notícias é muito alto num momento em que a informação está fragmentada. (…) Manter os media fora da política e no negócio da cobertura noticiosa pode colocar-nos de volta ao caminho certo para criar confiança no jornalismo”.

A recomendação baseia-se também no resultado final dessa escolha, que pode dar a entender que o político apoiado mas perdedor terá um conjunto de meios mediáticos a agir contra as suas medidas. “Entre os 100 maiores jornais da América, apenas alguns – incluindo o The Las Vegas Review-Journal e o Florida Times-Union em Jacksonville – apoiaram Trump. A candidata democrata Hillary Clinton recebeu apoios de 57 redacções de jornais em todo o país, incluindo jornais que normalmente apoiavam os republicanos, como o Dallas Morning News, o Arizona Republic e o San Diego Union-Tribune. Quatro jornais na última eleição tomaram a atitude incomum de aconselhar explicitamente os leitores a votarem contra Trump, mesmo que sem recomendarem Clinton. A ‘ignorância imprudente de Trump é mais informada pelas perturbadoras teorias de conspiração da Internet do que por evidências, sabedoria ou razão’, escreveu o Milwaukee Journal Sentinel, acrescentando que Clinton ‘sofre de um sentido inflacionado de direitos e uma merecida falta de confiança’. Mas, concluiu o jornal: ‘Primeiro objectivo: Rejeitar Trump’”.

Em resumo, a potencial influência que os media possam exercer relativamente aos candidatos a votações é diminuta – e o mesmo sucede com as redes sociais.

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