Media detidos por ricos são rápidos a informar que os impostos sobre a riqueza são uma má ideia

A pandemia do coronavírus aumentou muito a desigualdade da riqueza nos Estados Unidos, uma questão fundamental na próxima eleição presidencial. As sondagens parecem actualmente boas para os democratas, muitos dos quais têm murmurado – ou até mesmo exigido – um novo imposto sobre as fortunas. Inquéritos recentes mostram que a ideia é esmagadoramente popular entre o eleitorado, com votantes em 11 estados mais de três vezes propensos a apoiar do que a se opor a um candidato que incentiva um imposto sobre os bens dos ricos.

Os super-ricos da América (que viram as suas fortunas aumentarem em mais 930 mil milhões de dólares desde o início da pandemia) estão a ficar nervosos. Recentemente, a CNBC revelou que as famílias ricas estão a tentar desesperadamente mudar a propriedade dos seus activos – passando-os para os seus ricos filhos – antes do final do ano, para o caso de reformas tributárias radicais de Biden que lhes poderia causar a perda de milhões de dólares.

E a media corporativa – cujos donos são predominantemente da classe que teria de pagar um imposto sobre a fortuna – está a voltar a esfriar a ideia, após alinhar com os candidatos que promoveram mais entusiasticamente a tributação dos ricos durante as primárias democratas neste ano.

Primeiro assalto
As primárias colocaram a noção de um imposto sobre a riqueza na mesa política, com vários candidatos de elevado perfil, incluindo Bernie Sanders e Elizabeth Warren, a proporem-no. Embora a ideia fosse popular entre o público (sondagens mostram que era fortemente apoiada, até mesmo com metade dos eleitores republicanos a apoiá-la), ela não era popular entre os especialistas da media corporativa, que a rejeitaram como “má”, “imprudente” (CNN) ou ideia “terrível” (Washington Examiner), “má para os trabalhadores” (Reason) e um “pesadelo administrativo” (Time).Time: Elizabeth Warren’s Wealth Tax on the Super-Rich Is the Wrong Solution to the Right Problem

Um artigo de opinião da CNN advertiu que seria simplesmente “errado” alegar que um imposto sobre a fortuna é uma solução séria, com base em “encantamentos de vudu” e, em vez disso, sugeriu um corte de impostos para resolver as desigualdades. A Fox News foi ainda mais longe, atacando a ideia como uma “fantasia” equivocada, antes de apresentar o seu próprio sonho de qualquer imposto sobre a fortuna ser considerado inconstitucional (o que, para ser justo, o actual Supremo Tribunal pode muito bem fazer – particularmente com a captação de Amy Coney Barrett).

Mas pelo menos o grupo de especialistas intercambiáveis ​​e especialistas em aluguer de ideias fingiu acreditar que a desigualdade é um problema real que desejam consertar. Antes da grande crise de 2008, a media corporativa era fã da desigualdade, sendo a linha padrão que não havia nada com que se preocupar, ou até que era algo bom para a sociedade (Extra!).

A imprensa deu agora um passo à frente, alegando que quer realmente resolver a questão da desigualdade, mas abordá-la directamente pela redistribuição não funcionará. Assim, um artigo da CNN argumentou: “O aumento da desigualdade do rendimentos é de facto um problema para o crescimento económico. Mas tributar a riqueza pode agravar o problema, não resolvê-lo”. Os autores, dois funcionários do Illinois Policy Institute (direita) afirmaram que confiscar activos aos “melhores proprietários de capital do mundo” sufocaria a inovação e inevitavelmente prejudicaria os trabalhadores.

Tem havido uma quantidade limitada de cobertura positiva de qualquer potencial imposto sobre fortunas. O New York Times, por exemplo, afirmou que uma avaliação única da solidariedade da Covid-19 sobre os ricos “ajudaria a provar que estamos todos juntos nisto”. Mas isso foi uma ruptura com a negatividade normal que afirmava que seria muito difícil de implementar (NYT) ou simplesmente inconstitucional e desonesto (NYT).

Segundo assalto
Joe Biden não está a propor nenhum imposto específico sobre as fortunas. O ex-vice-presidente até começou a sua campanha garantindo explicitamente aos doadores ricos que “nada mudaria fundamentalmente” na sua presidência. “Eu preciso muito de vocês”, disse-lhes. No entanto, mesmo com a derrota de Sanders e de Warren, os ricos da América estão preocupados que um presidente Biden seja influenciado por forças progressistas no seu partido.

Em resultado disso, o conceito voltou a ser um ponto de discussão para os media nas últimas semanas. E, como da última vez, o tom é extremamente hostil. Assim, um imposto sobre a fortuna simplesmente “não funcionará” (Daily Telegraph), cria “falsas expectativas” (Toronto Sun) ou pode custar mais para administrar do que receber (Spectator). “Um imposto sobre a fortuna não é uma solução para a desigualdade de rendimento”, insiste a Forbes, uma revista mais conhecida pela sua glorificação de bilionários, alegando que é uma “política dirigida por despeito” contra os ricos que, de alguma forma, “coloca todos – ricos e pobres – numa situação pior”.CNBC: Biden defines $400,000 a year as ‘wealthy’: Here’s what that buys in a big city

A CNBC é capaz de ter tido a linha de ataque mais cerebral da galáxia. Os planos de Biden categorizam qualquer pessoa no topo dos 1,8% de rendimento (ganhando mais de 400 mil dólares anualmente) como “rica”. Mas essas pobres almas que ganham apenas 400 mil dólares por ano “não estão exactamente a viver bem”, insistiu a CNBC, encontrando “especialistas” dispostos a afirmar que esse tipo de rendimento anual apenas proporcionava um “estilo de vida relativamente de classe média” em grande parte do país. Porque apenas podiam ter recursos para gozar três “modestas” férias em família por ano.

A CNBC também conversou recentemente com o CEO do JP Morgan, Jamie Dimon, repetindo sem crítica a sua linha de que qualquer imposto sobre a fortuna seria “extremamente complicado” e “quase impossível”, numa entrevista que foi recolhida e divulgada nos media (por exemplo, The Hill; New York Post; MSN; Forbes). Uau, quem diria que um banqueiro de investimento bilionário se oporia a um imposto sobre a riqueza! Mesmo com um aumento de impostos modesto como o de Warren, Dimon poderia perder dezenas de milhões de dólares anualmente. No entanto, esse enorme e imperdível conflito de interesses nem sequer foi apresentado como um problema nos artigos, muito menos visto como uma razão para rejeitar a sua opinião. Em vez disso, foi apresentado como um especialista neutro a tecer críticas legítimas, ao invés de um actor tendencioso com uma grande quantidade de interesse no jogo. Da mesma forma que relatar que os bilionários não gostam do socialismo é tratado como notícia de primeira página (FAIR.org), os super-ricos serem contra os impostos sobre a fortuna aparentemente também merece destaque.

No final das contas, um imposto sobre a fortuna tão modesto quanto alguns democratas estão a propor afectaria poucos preciosos americanos, mas ainda geraria biliões de dólares vindos das receitas de pessoas que têm aumentado as suas fortunas durante a pandemia. O facto de grande parte dos media estar tão totalmente contra a ideia sugere quais os interesses que ela realmente serve.

* Texto original e imagem republicados da FAIR (CC BY-NC-ND 3.0).

[A ler também “‘Please tax us’: 83 millionaires demand higher taxes to fund coronavirus aid“: Mais de 80 milionários pediram aos governos em todo o mundo que tributem mais os super-ricos para ajudar a financiar a recuperação económica e social da crise do coronavírus. Numa carta aberta, o grupo autodenominado “Millionaires for Humanity”, disse que devia ser mais tributado “imediatamente, substancialmente, permanentemente”. Segundo eles, o financiamento da reconstrução pós-coronavírus requer “impostos permanentemente mais altos para as pessoas mais ricas deste planeta, para pessoas como nós”.]

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