Até que a tecnologia os separe…

O governo aprovou uma medida anti-Covid-19 que passa por limitar ajuntamentos familiares a um máximo de 50 pessoas. Esta limitação não é transcrita para a proposta de lei com as novas medidas, como a do uso obrigatório de máscara em locais da via pública, remetendo para a legislação anterior em que é a DGS a definir as orientações específicas para eventos de natureza familiar, como casamentos e baptizados.

Um casamento com apenas 50 pessoas pode ser uma fonte de decepção para elementos de duas famílias que vão passar a viver em comum.

Mas há uma forma de contornar este limite, usando uma prática tecnológica cujo primeiro evento data de 1876. Foi neste ano que se realizou o primeiro casamento online, usando o telégrafo, numa prática renovada pela actual pandemia.

Segundo a revista Wired, entre Março e Maio, no pico do confinamento em vários países, realizaram-se mais de 450 mil casamentos Zoom, como ficaram conhecidos por usarem aquela tecnologia de reunião virtual e à distância.

Surgiram novas empresas como a The Reimagined Wedding ou a Wedfuly a agilizar o negócio, oferecendo desde fotógrafos virtuais, DJs e garantindo largura de banda para manter online um milhar de convidados em simultâneo.

Quase 150 anos depois, estas tecnologias repetem o primeiro casamento online – se o telégrafo era a tecnologia mais recente de comunicação à época, agora foi a dinâmica das reuniões de trabalho a impulsionar as tecnologias de encontros virtuais.

O evento original foi recordado por Tom Standage no livro “The Victorian Internet”, salientando como o termo online (em linha) tem origem “na indústria telegráfica – a parte da ‘linha’ referindo-se à linha física do telégrafo”.

O primeiro – ou um dos primeiros documentados desses casamentos online – envolveu William Storey e Clara Choate e foi reportado no jornal “Western Electrician“.

Storey era um operador de telégrafo a cumprir serviço militar em Camp Grant, no Arizona, enquanto a sua noiva Clara Choate vivia a mais de mil quilómetros, em San Diego, na Califórnia. Foi daqui que o padre geriu a cerimónia, após o que Choate viajou para se encontrar com Storey.

O aparecimento de novas tecnologias gerou normalmente um aproveitamento amoroso. Em 1997, ocorreram 20 casamentos virtuais no cenário de Meridian 59, um então recente “Massively Multiplayer Online Role-Playing Game” (MMORPG).

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Antes do casamento, também os encontros potencialmente amorosos estão agora a ocorrer mais em ambientes virtuais ou com apps de encontros. “Os algoritmos, e não amigos e família, são agora o parceiro ideal para pessoas à procura de amor”, como descobriu Michael Rosenfeld da Stanford University.

É mais fácil encontrar um parceiro romântico online do que através de pessoas, refere este sociólogo, num recente estudo para os EUA. Os métodos tradicionais (família, igreja, vizinhança) estão em queda enquanto as relações online representam 39% dos encontros bem sucedidos. Eram 22% em 2009.

“Encontrar uma pessoa importante online substituiu o encontro por meio de amigos. As pessoas confiam cada vez mais na nova tecnologia de namoro, e o estigma de encontros online parece ter acabado”, referiu Rosenfeld em entrevista, que se mostrou surpreendido como os namoros online ultrapassaram a ajuda dos amigos.

Ele nota duas evoluções tecnológicas que marcaram os encontros online. A primeira foi a Web gráfica em 1995, a que se seguiu a disseminação dos smartphones por volta de 2010. Por outro lado, o sucesso das relações não depende de os intervenientes se terem conhecido online.

Mas porque se dão os negócios a todo este trabalho? Segundo a Fixando, uma empresa de contratação de serviços locais, os planeadores de casamentos são os profissionais de serviços mais bem pagos em Portugal.

Um inquérito a 25 mil pessoas de 1.200 actividades, entre Maio e Agosto, revela que “aqueles profissionais auferem em média e por serviço, 11.700 euros”, seguindo-se os profissionais ligados à construção civil (€7.600), tradutores de mandarim (€3.954), arquitectos (€2.600) e especialistas em software para dispositivos móveis (€2.366).

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