Erros do Excel: governo do Reino Unido tem uma longa lista de histórias de terror com as folhas de cálculo

Quando o primeiro-ministro do Reino Unido, Boris Johnson, disse pela primeira vez que o país desenvolveria um sistema “mundialmente poderoso” de 13,2 milhões de euros para testar e rastrear casos de Covid-19, poucas pessoas provavelmente imaginaram que seria baseado num programa genérico de folha de cálculo de 132 euros. No entanto, a notícia de que os detalhes de 16 mil casos de teste positivos foram perdidos devido a um erro cometido no Microsoft Excel revelou que esse foi exactamente o caso.

Talvez não se deva ficar tão surpreendido. As folhas de cálculo estão omnipresentes. Elas podem ser encontrados em operações críticas em praticamente todos os sectores. São ambientes de programação altamente adaptáveis que podem ser aplicados a muitas tarefas diferentes.

Elas também são muito fáceis de usar indevidamente ou para cometer erros. Em resultado disso, muitos têm as suas próprias histórias de terror com as folhas de cálculo. E o governo do Reino Unido, em particular, tem uma longa história de erros embaraçosos.

Em 2012, o Departamento de Transporte foi forçado a uma retracção embaraçosa e cara quando percebeu que o seu modelo financeiro baseado em folhas de cálculo para conceder o licenciamento ferroviário da costa oeste continha suposições erradas e foi comunicado de forma inconsistente às empresas licitantes. O Departamento teve que retirar e re-apresentar o contrato de dez anos de quase 100 mil milhões de euros, devolvendo 54 milhões aos quatro licitantes. O episódio inteiro deve ter custado ao contribuinte mais de 330 milhões de euros.

Em 1999, a empresa estatal British Nuclear Fuels Limited admitiu que alguns dos seus funcionários falsificaram dados de segurança durante três anos sobre combustível que estava exportando, copiando e colando resmas de dados em folhas de cálculo. Os clientes pararam imediatamente de negociar com a BNFL e insistiram que o governo do Reino Unido retomasse as remessas defeituosas do combustível nuclear e pagasse uma compensação.

Embora este tenha sido um acto deliberado e não um erro de software, as folhas de cálculo não deveriam ser a ferramenta de escolha neste cenário, porque estão sujeitas a manipulação e erro. Deveria existir um sistema sob medida para este importante processo crítico de segurança.

Talvez o problema com folhas de cálculo mais significativo tenha ocorrido em 2010, quando o então chanceler George Osborne baseou a sua justificação para uma década de austeridade pública nas conclusões de um artigo de investigação, “Growth in a Time of Debt“. O artigo, publicado pelos professores de economia da Universidade de Harvard, Carmen Reinhardt e Kenneth Rogoff, garantia que a economia de um país encolherá quando a sua dívida exceder os 90% do PIB.

Mas essa análise tinha falhas. A folha de cálculo usada para os números omitiu algumas linhas de dados relevantes do cálculo. Na verdade, os dados mostraram que um excesso de 90% da dívida em relação ao PIB ainda resultavam num crescimento económico positivo. E assim o argumento para a austeridade também tinha falhas.

Ainda assim, em resultado desse argumento, o Reino Unido sofreu cortes significativos no bem-estar e nos serviços públicos, incluindo saúde e assistência social. Em 2017, um artigo do British Medical Journal atribuiu 120 mil mortes a mais devido a esses cortes.

Testes insuficientes
O problema subjacente às folhas de cálculo é como é fácil usá-las sem aplicar um escrutínio, supervisão e validação adequados. Elas podem incluir muitos algoritmos personalizados complexos, mas normalmente não são desenvolvidos por engenheiros de software formados para criar software fiável.

Em vez disso, mostram os dados, muitas vezes são desenvolvidas sem suficiente planeamento, qualquer processo de controlo ou teste. Isso resulta em problemas ocultos de integridade de dados que, dadas as circunstâncias certas, podem repentinamente causar uma catástrofe.

Essa falta de testes parece ter sido exactamente o problema com a folha de cálculo usada pelo sistema de teste e rastreamento, que perdeu 16 mil entradas quando um ficheiro foi importado para uma versão mais antiga do software que só podia calcular menos dados. É claro que a importação de dados não foi testada adequadamente e um “bug” passou despercebido, o que provavelmente acabou por causar uma falha catastrófica do sistema em operação. Se a importação de dados tivesse sido testada, ela teria sido notada e corrigida.

A menos que queiramos repetir os mesmos erros com as folhas de cálculo, o governo precisa de levar este software mais a sério. Ele precisa de aplicar os mesmos controlos de engenharia que aplicaria se estivesse a desenvolver numa linguagem formal e evitar o uso inadequado de folhas de cálculo.

Esta não é a primeira vez que o uso indevido de folhas de cálculo do governo está relacionado com decisões de vida ou de morte. E a menos que as coisas mudem, provavelmente não será a última.

* Texto original publicado pela The Conversation. Reproduzido sob licença CC BY 4.0. Foto: Mike (CC BY-NC-ND 2.0) e Zoltán Till (CC BY-SA 2.0).

[act.: Meet the Excel warriors saving the world from spreadsheet disaster: Research suggests more than 90 per cent of spreadsheets have errors, and half of spreadsheet models used in large businesses have “material defects”. Given some 750 million people use Excel globally, there are plenty of errors needing attention. One prominent researcher calls spreadsheets the dark matter of corporate IT. And that’s why people like Lyford-Smith have become defenders of the spreadsheet, mitigating the risks by fixing everyone else’s mistakes.

They’re an organised bunch, which is perhaps no surprise for spreadsheet specialists. The European Spreadsheet Risks Interest Group (EUSpRig) runs an annual conference to gather research (cancelled this year in favour of a webinar series), and collates best practice, training materials, and horror stories on its website — and there’s also a Yahoo Groups mailing list, where members offer tips and tricks, share links to resources and pick apart press coverage of the contact tracing debacle. In short, they can’t figure out what the real problem was because the reporting is so disjointed and unclear. One popular share was a YouTube clip of a satirical Spreadsheet News Network from Matt Parker of Stand-up Maths — as one member posted, it “made my day”.]

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