O Dilema Social aponta o problema da media social, mas qual é a solução?

O Facebook respondeu ao documentário “The Social Dilemma”, da Netflix, dizendo que “enterra a substância no sensacionalismo”.

O filme entrou para a lista dos mais vistos na Netflix e tem sido popular em todo o mundo. Alguns especialistas de media sugerem que é “o documentário mais importante da actualidade”.

O Dilema Social foca-se em como as grandes empresas de media social manipulam os utilizadores usando algoritmos que estimulam o vício nas suas plataformas. Ele também mostra, com bastante precisão, como as plataformas recolhem dados pessoais para direccionar os utilizadores para os anúncios – e até agora conseguiram escapar a serem regulados.

Mas o que devemos fazer a esse respeito? Embora o filme da Netflix eduque os telespectadores sobre os problemas que as redes sociais apresentam tanto para a nossa privacidade quanto para a acção, não chega a fornecer uma solução tangível.

Uma resposta enganosa
Numa declaração em resposta ao documentário, o Facebook negou a maioria das afirmações feitas por ex-funcionários da própria empresa e outros elementos de grandes empresas tecnológicas entrevistados no filme.

Teve em conta a alegação de que os dados dos utilizadores são recolhidos para vender anúncios e que esses dados (ou as previsões comportamentais extraídas deles) representam o “produto” vendido aos anunciantes.

“O Facebook é uma plataforma de suporte com anúncios, o que significa que a venda de anúncios nos permite oferecer a todos a capacidade de se ligar gratuitamente”, diz o Facebook.

No entanto, isso é um pouco como dizer que a comida de frango é grátis para as galinhas em aviários. Recolher dados dos utilizadores e vendê-los aos anunciantes, mesmo que os dados não sejam “pessoalmente identificáveis”, é inegavelmente o modelo de negócio do Facebook.

O filme não vai suficientemente longe
O Dilema Social recorre por vezes a metáforas simplistas para ilustrar os danos da media social.

Por exemplo, uma personagem fictícia recebe uma “equipa executiva” de pessoas que operam nos bastidores para maximizar a sua interacção com uma plataforma de media social. Isso deveria ser uma metáfora para algoritmos, mas é um pouco assustador nas suas implicações.

O filme usa dramatizações (que não são necessariamente correctas) para explorar como os algoritmos de media social são concebidos para serem viciantes.

Notícias alegam que um grande número de pessoas se desligou ou está a fazer “pausas” nas redes sociais após assistir a O Dilema Social.

Mas apesar de um dos entrevistados, Jaron Lanier, ter um livro chamado “Ten Arguments for Deleting Your Social Media Accounts Right Now”, o documentário não pede isso explicitamente. Nem são dadas quaisquer respostas imediatamente úteis.

O realizador Jeff Orlowski parece enquadrar o design “ético” da plataforma como o antídoto. Embora esta seja uma consideração importante, não é uma resposta completa. E esse enquadramento é uma das várias questões na abordagem do filme.

O design ético considera as consequências morais das escolhas do design numa plataforma. É um design feito com a intenção de “fazer o bem”.

O Dilema Social também se baseia sem crítica em entrevistas com ex-executivos da tecnologia que aparentemente nunca perceberam as consequências de manipular utilizadores para o lucro financeiro. Ele propaga a fantasia de Silicon Valley de que eram apenas génios inocentes a quererem melhorar o mundo (apesar de muitas provas em contrário).

Como sugere a especialista em política tecnológica Maria Farell, esses “irmãos pródigos da tecnologia” aposentados, que agora estão protegidos com segurança das consequências, são apresentados como a autoridade moral. Entretanto, os direitos digitais e os activistas da privacidade que trabalharam décadas para os responsabilizar são em grande parte omitidos.

Mudança comportamental
Dado que o documentário não diz realmente como lutar contra a maré, o que pode o espectador fazer?

Em primeiro lugar, usar O Dilema Social como uma recomendação para se tornar mais consciente de quanto os seus dados são cedidos diariamente – e mudar os seus comportamentos. Uma maneira é alterar as configurações de privacidade dos media sociais para restringir (tanto quanto possível) os dados pessoais que as redes podem obter do utilizador.

Isto exige aceder às “configurações” de cada plataforma social para restringir o público com o qual se partilha conteúdo e o número de terceiros com os quais a plataforma partilha os seus dados comportamentais.

No Facebook, pode-se desligar totalmente as “apps de plataforma”. Isso restringe o acesso por parceiros ou aplicações de terceiros.

Infelizmente, mesmo que se restrinja as configurações de privacidade nas plataformas (particularmente no Facebook), elas ainda podem recolher e usar os dados na “plataforma”. Isso inclui o conteúdo que se lê, faz “like”, clica ou por onde passa o rato [ou o dedo nos ecrãs tácteis].

Depois, pode-se optar por limitar o tempo que se passa nessas plataformas. Isso nem sempre é prático, dada a importância que têm nas nossas vidas. Mas se quiser fazer isso, existem ferramentas dedicadas nalguns sistemas operativos móveis.

O iOS da Apple, por exemplo, implementou ferramentas de “tempo de ecrã” destinadas a minimizar o tempo gasto em aplicações como o Facebook.

Alguns argumentaram, porém, que isso pode piorar as coisas, fazendo o utilizador sentir-se mal consigo próprio, enquanto ainda pode contornar facilmente essa limitação.

Como utilizador, o melhor que se pode fazer é restringir as configurações de privacidade, limitar o tempo que gasto nas plataformas e considerar cuidadosamente se precisa de cada uma delas.

Reforma legislativa
A longo prazo, conter o fluxo de dados pessoais para as plataformas digitais também exigirá mudanças legislativas. Embora a legislação não consiga resolver tudo, pode encorajar mudanças sistémicas.

Na Austrália, por exemplo, precisam de protecções de privacidade de dados mais fortes, de preferência na forma de protecção legislativa geral, como o Regulamento Geral de Protecção de Dados (RGPD) implementado na Europa em 2018.

O RGPD foi concebido para controlar as plataformas de media social e pretende fornecer aos indivíduos mais controlo sobre os seus dados pessoais.

No ano passado, a Comissão de Concorrência e Consumidores da Austrália finalizou o seu Digital Platforms Inquiry investigando uma série de questões relacionadas com as plataformas de tecnologia, incluindo a recolha de dados e a privacidade.

Ela fez uma série de recomendações que, espera-se, resultarão em mudanças legislativas. Elas concentram-se em melhorar e reforçar as definições de “consentimento” para os consumidores, incluindo a compreensão explícita de quando e como os dados estão a ser rastreados online.

Se o que se está a enfrentar é de facto um “dilema social”, vai ser preciso mais do que as palavras de remorso de uns poucos técnicos de Silicon Valley para o resolver.

* Texto original publicado pela The Conversation. Reproduzido sob licença CC BY 4.0. Foto: thesocialdilemma.com.

One thought on “O Dilema Social aponta o problema da media social, mas qual é a solução?

  1. Em realidade, essa “notícia” já era previsível desde tempos outros, quando a informática ainda se encontrava em fraudar.
    Hoje, com os avanços incalculáveis da tecnologia informacional – lato sensu – e seu processo de expansão, não parece haver saída em curto prazo. Haverá que se avaliar minuciosamente dito tema, na prática diuturna global, a fim de se desenhar o verdadeiro cenário criado pelo advento da WWW e suas incontáveis ramificações.
    Noutros termos, “Inês é morta… viva Inês! “

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