Motivações para lutar contra as notícias falsas

As pessoas precisam de entender as motivações por trás das campanhas de desinformação e das notícias falsas para as poder combater, refere a física Julia Tagüeña, da Universidade Nacional Autónoma do México, numa mesa redonda da SciDev.Net.

“Isso não acontece por acaso, há um propósito por trás disso”, disse Tagüeña na mesa redonda, convocada para investigar formas de lidar com a infodemia do COVID-19.

Uma infodemia é definida como uma superabundância de informações – algumas precisas e outras não – que ocorre durante uma epidemia, dificultando ao público encontrar fontes e orientações fiáveis.

O evento reuniu cerca de 50 decisores, investigadores e jornalistas para discutir formas de lidar com a infodemia.
Tania Valbuena, vice-presidente da Associação Colombiana de Jornalismo Científico, disse: “o nosso trabalho como jornalistas científicos é tornar [o COVID-19] compreensível para o público, é um desafio muito difícil agora”.

Saiful Islam, do programa de infecções emergentes do instituto internacional de pesquisa em saúde icddr,b, no Bangladesh, falou sobre as questões levantadas no seu artigo “COVID-19–Related Infodemic and Its Impact on Public Health: A Global Social Media Analysis“, publicado no American Journal of Hygiene and Tropical Medicine.

Segundo ele, houve ondas de desinformação desde o surto do COVID-19 em dezembro. “No último mês, observámos uma nova onda de desinformação relacionada com as vacinas para o COVID-19”, diz.

“A desinformação era altamente prevalente no início, houve uma queda talvez em Maio, Junho, Julho, mas agora vemos desinformação relacionada com a vacina que está a circular nas plataformas online”.

O artigo descobriu que rumores e informações erradas sobre o COVID-19 representavam um grande risco para a saúde pública, mas até agora houve esforços limitados para medir as consequências da infodemia, incluindo os impactos psicológicos.

“O impacto é enorme e o problema é que ninguém recolhe sistematicamente as informações sobre o impacto”, diz Islam. “Há um enorme impacto psicológico dessa desinformação.”

Os resultados nalguns casos foram catastróficos, descobriu a equipa de Islam. Pelo menos 800 pessoas morreram após seguirem o mau conselho de beber álcool altamente concentrado para matar o novo coronavírus. Quase 6.000 pessoas foram hospitalizadas, enquanto 60 pessoas ficaram cegas após beber álcool metílico, normalmente usado como combustível e anticongelante.

Fontes de notícias
Desenvolver uma literacia em torno de fontes de saúde e de notícias entre os estudantes pode ser uma forma eficaz de garantir que sejam partilhadas informações precisas, diz Islam.

Mas os jornalistas também precisam de ser melhor formados em ciência, diz Mohamad Alawneh, gestor da ONG sem fins lucrativos North Star, da Jordânia, e coordenador de projectos da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Os cientistas deveriam estar melhor integrados nos processos do jornalismo, diz.

“A maioria dos jornalistas procura as notícias mais rápidas e mais vistas, não verificam as suas fontes de informação e estão a trabalhar para ganhar popularidade”, diz Alawneh.

Outros disseram que os jornalistas não tinham culpa, pois não pretendiam enganar as pessoas e dependiam de informações científicas em constante mudança vindas de organizações internacionais e de governos.

“No Brasil, os jornalistas têm trabalhado muito para combater as notícias falsas”, disse Vinícius Durval Dorne, da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Uberlândia.

Políticos, agências públicas e media devem esforçar-se para criar uma arena pública onde opiniões divergentes, mas baseadas em provas, sejam bem-vindas, diz o consultor de comunicação científica Olle Bergman.

“O público deve ser ensinado que ciência é um processo em que diferentes grupos de investigação oferecem diferentes explicações e recomendações”, disse.

* Texto original de Fiona Broom, republicado da SciDev.Net (CC BY 2.0 UK). Foto: Christoph Scholz (CC BY-SA 2.0).

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