“Os árbitros não ganham o jogo” digital

A Europa reconhece a economia digital da China como “uma força global líder“, ao conseguir ter 731 milhões de utilizadorers da Internet (“mais do que a UE e os EUA combinados”), 44% das ligações máquina-a-máquina (M2M) ou o maior mercado de comércio electrónico (mais de 40% das transacções globais) e dos pagamentos digitais.

Mas, num recente ensaio do European Council on Foreign Relations (ECFR), “Europe’s digital sovereignty: From rulemaker to superpower in the age of US-China rivalry“, destaca-se como a pandemia “revelou a importância crítica da tecnologia para a resiliência económica e da saúde, sendo para a Europa “uma questão de importância existencial”.

A tensão entre os EUA e a China são um “incentivo adicional” ao desenvolvimento das capacidades digitais da Europa, sustentado numa maioria de governos democráticos que, como alternativa aos da China e dos EUA, é capaz de “preservar um mercado aberto de serviços digitais e, ao mesmo tempo, proteger os interesses dos cidadãos”.

No entanto, “a UE não pode continuar a depender do seu poder regulamentar mas deve tornar-se uma superpotência tecnológica por direito próprio. Os árbitros não ganham o jogo”.

A mesma posição é defendida por Jeremy Shapiro, director de investigação do ECFR, para quem “as diferenças marcantes entre a abordagem anárquica dos Estados Unidos à regulamentação digital e o modelo de controlo estatal agressivo defendido pela China abre um vasto meio-termo para os actores europeus”.

Perante o papel de árbitro nas disputas entre EUA e China, esta mediação “não é confortável com a ideia de que os europeus têm a sua própria abordagem mas, claro, o uso inteligente da posição também oferece a chance de moldar o resultado. A mediação, no entanto, normalmente não implicaria equidistância entre os EUA e a China”.

Uma outra visão paralela passa pela hipótese da terra fracturada, defendida por vários investigadores no recente artigo “The Fractured-Land Hypothesis“.

Em síntese, escrevem, “os padrões de unificação e fragmentação política têm implicações cruciais para o desenvolvimento económico comparativo”. O modelo da “terra fracturada”, de 1997, “foi responsável pela tendência da China para a unificação política e a prolongada fragmentação política da Europa”.

Pelo desenvolvimento de um modelo com as informações geográficas (características topográficas e localização de terras agrícolas produtivas), eles conseguiram “avaliar quantitativamente os efeitos das ‘terras fracturadas’ na formação do estado na Eurásia”.

Estas duas informações congregadas são “suficientes para explicar a recorrente unificação política da China e a fragmentação política persistente da Europa”. Outros factores podem ser acrescentados à análise, como o impacto das epidemias, mudanças climáticas, migrações, tecnologia agrícola, variações nas capacidade de transporte ou aspectos culturais.

Os desenvolvimentos na criação dos estados pode igualmente passar pela ideia que as populações têm de “comunidade imaginada”, algo que “é difícil de conquistar mas fácil de manter unido” – pelo que, a dificuldade europeia é passar de árbitro a jogador no ambiente digital.

Esta acção deve ser “rápida e determinada” no âmbito das políticas digitais e de inovação para a competitividade futura, segundo os autores do “Digital Riser Report 2020“.

Este estudo demonstra a concorrência com os incumbentes digitais por parte de nações mais dinâmicas nos últimos três anos, de que se salientam a França, Arábia Saudita ou Filipinas. Em sentido contrário, nos líderes apenas Singapura manteve a sua posição, enquanto os EUA e a Suécia perderam terreno.

“Os governos que colocam a transformação digital no topo das suas agendas podem alcançar resultados tangíveis em intervalos de tempo relativamente curtos, e países tradicionalmente menos associados ao digital, como a Arábia Saudita, subiram ao topo do Grupo dos Vinte (G20) em termos de progresso relativo neste campo”, refere o estudo, que destaca ainda como “os países podem tornar-se ‘Digital Risers’ independentemente do tamanho e ainda assim impulsionar a sua posição competitiva relativa. Na região do Leste Asiático e Pacífico, por exemplo, as Filipinas e a Tailândia superaram países vizinhos muito maiores, como a China e a Indonésia, o que sugere que o progresso pode ser alcançado independentemente da base da competitividade digital e do tamanho de um país. Por outro lado , o estudo sugere que os países que são economicamente semelhantes, por exemplo os EUA e a China, a Alemanha e a França ou o Brasil e a Argentina podem diferir significativamente em relação ao estado de ‘Digital Riser’. Isso não significa que o ganho de um é a perda de outro, mas demonstra que os governos devem enfatizar a gestão estratégica das suas políticas nesta área crucial para o futuro”.

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