“Momento Kodak” temperado a hidroxicloroquina?

Conhecida pelos seus sucessos no sector da venda de filme para fotografia, a administração da Kodak adoptou uma postura de “miopia” que a levou a dizer ao seu engenheiro Steve Sasson, o inventor da primeira câmara digital em 1975, que “é fotografia sem filme, pelo que a reacção da administração foi: ‘porreiro – mas não fale a ninguém sobre isto’“.

Esta semana, não houve segredos e muito se falou da Kodak anunciar o lançamento de uma nova divisão dedicada ao mercado famacêutico. Não é a primeira vez que a empresa se aventura neste sector mas a questão é porquê, agora?

Em comunicado, a empresa explica que a futura Kodak Pharmaceuticals “produzirá componentes farmacêuticos críticos que foram identificados como essenciais, mas que caíram numa escassez crónica nacional”.

Se o discurso já parece alinhado com o da presidência Trump, mais fica quando se sabe que, quando estiver operacional, esta divisão “terá capacidade no Eastman Business Park para produzir até 25% dos ingredientes farmacêuticos activos usados em medicamentos não biológicos, não antibacterianos e genéricos, ao mesmo tempo que suporta 360 empregos directos e uns adicionais 1.200 indirectos”. Alegadamente, a empresa estará a posicionar-se para produzir no país ingredientes para um dos medicamentos favoritos de Trump, a hidroxicloroquina.

O facto de não ser efectivo no tratamento de pacientes com a Covid-19, como vários estudos já demonstraram e a Organização Mundial de Saúde confirmou, não impediu a empresa de alinhar com a visão do presidente norte-americano (entre outros). Trump anunciou o acordo no valor de 765 milhões de dólares, ao abrigo do Defense Production Act, no que descreveu como “um dos negócios mais importantes na história das indústrias farmacêuticas dos EUA“.

E além do que virá a ganhar com o negócio, o que recebeu desde já a empresa?

As acções bolsistas da empresa valorizaram-se e chegaram a atingir os 53 dólares por acção. Como explica a Popular Information, “se detinha 100 mil acções da Kodak na segunda-feira de manhã, elas valiam 210 mil dólares. Às 10h da quarta-feira, essas mesmas acções valiam 5,3 milhões de dólares”.

No entanto, essa valorização ocorreu antes do anúncio do negócio, de tal forma que o CEO da empresa, Jim Continenza, declarou não a saber explicar. [act.: UPDATE: Kodak executives’ surreptitious profiteering]

Após o acordo, a Kodak valorizou 1,900% em dois dias e Continenza revelou que os ingredientes farmacêuticos podem vir a valer “entre 30 a 40%” do negócio.

Na realidade, não é a primeira vez que a empresa se aventura na indústria farmacêutica. Em 1988, o Washington Post revelou como a empresa tinha uma “biblioteca” de quase 500 mil componentes orgânicos – uma “colecção especial, que os especialistas dizem ser uma das maiores do mundo, terá ajudado na decisão do gigante da fotografia de investir 5,1 mil milhões de dólares na aquisição da Sterling Drug”.

Segundo este diário, os responsáveis da empresa “sempre acreditaram” que os químicos que usavam no negócio da fotografia, por exemplo, “tinham também potencial comercial como [produtos] farmacêuticos”.

[act.: Kodak Spent Big Money Lobbying Trump Before Scoring $765 Million COVID Deal: The company won a $765 million contract after putting $870,000 into D.C. influence peddling—a sum it had never spent before.]

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