Como o COVID-19 ameaça o jornalismo independente

Notícias credíveis e verificadas nunca foram tão valiosas. De facto, para pessoas de todo o mundo, uma história que fornece informações verdadeiras sobre o COVID-19 pode salvar vidas.

Desde que a pandemia ocorreu numa escala global, no início de 2020, os sites de notícias sofreram um aumento sem precedentes nas visitas. Muitos sites de notícias assumiram conscientemente um papel pró-activo na protecção do público, combatendo a desinformação sobre o vírus.

Em paralelo, alguns líderes políticos – desesperados por um bode expiatório para poderem desculpar, em muitos casos, os seus próprios fracassos em responder adequadamente à pandemia – atacaram jornalistas que relatam com sinceridade sobre a disseminação do COVID-19, acusando-os cinicamente de revelar histórias destinadas apenas a marcar pontos políticos.

O número de leitores nos sites de notícias aumentou, mas as receitas diminuíram?
Sim. Essa contradição ficou ilustrada no primeiro relatório trimestral do New York Times para 2020. O jornal registou um aumento sem precedentes de 10% no total de assinaturas e uma duplicação do tráfego do site. No entanto, o relatório do Times alertou para uma queda de 55% na receita de publicidade no segundo trimestre de 2020, reflectindo o impacto de encerramentos relacionados com a pandemia nas empresas de consumo que impulsionam as vendas de publicidade, bem como as ansiedades económicas sobre o futuro.

As editoras mais pequenas e independentes em todo o mundo também estão a ter mais público. Por exemplo, o site de notícias independente 7iber, na Jordânia (beneficiário da Open Society Foundations), registou um aumento de 85% nas visualizações de páginas entre meados de Março a Abril. Grande parte desse tráfego foi dirigida a artigos como um recentemente produzido sobre a ciência dos ventiladores, dizem os editores.

Como está isto a afectar os jornalistas?
Apesar do aumento no consumo de notícias, os meios de comunicação estão a fechar – e a despedir a taxas sem precedentes.

Nos Estados Unidos, por exemplo, o New York Times contabilizou 36 mil despedidos em todo o sector apenas em Abril de 2020. Desde então, o Instituto Poynter registou mais de 200 anúncios de encerramentos e despedimentos em empresas de media de todo o país, de pequenos jornais e estações de rádio a editores grandes e bem estabelecidos que publicam dezenas de publicações. Outros países foram afectados da mesma forma: a Austrália perdeu mais de cem jornais regionais de uma só vez em Maio, deixando grandes áreas do país em risco de se tornar um “deserto de notícias”.

Daily Maverick

As pressões financeiras podem agravar os desafios já enfrentados pelos media no Sul Global, tornando-os vulneráveis ​​a ofertas de financiamento de interesses estatais e comerciais que procuram minar a cobertura noticiosa independente. Para sobreviver neste ambiente, as organizações de notícias precisam de encontrar maneiras inovadoras de gerarem receitas. Em muitos casos, isso significa recorrer directamente ao público para obterem apoio – através de “crowdfunding” [financiamento colectivo], assinaturas e programas para membros.

Estão os ataques aos media independentes a aumentar?
Sim. Alguns líderes usaram o estado de emergência ligado à pandemia para imporem restrições nas liberdades de imprensa que vão além do que a crise da saúde pública exige, de acordo com o Committee to Protect Journalists (beneficiário de apoio da Open Society).

Em dezenas de países, a polícia deteve e prendeu jornalistas – frequentemente pelo suposto crime de espalharem “notícias falsas”. Além disso, jornalistas relatam ter de enfrentar ataques físicos de forças de segurança do governo. O assédio, as prisões e os ataques parecem ter sido concebidos para reprimir notícias críticas e para intimidar qualquer repórter que considere noticiar uma história que retrate a resposta do governo ao vírus de forma negativa.

Eis alguns exemplos do tipo de intimidação que os repórteres enfrentam pela sua cobertura da pandemia em todo o mundo:
– Na África do Sul, a polícia espancou o repórterPaul Nthoba e mais tarde acusou-o de violar o 2002 Disaster Management Act, após ele fotografar as forças de segurança aplicando agressivamente o confinamento do COVID-19.

– Em Mianmar, as autoridades sentenciaram recentemente o editor de notícias Zaw Ye Htet a dois anos de prisão por causa da cobertura do COVID-19 no seu jornal. Ele foi acusado de espalhar informações que poderiam “causar alarme ou medo ao público”.

– No Nepal, após a introdução pelo governo das medidas de contenção do COVID-19 em Março, pelo menos quatro jornalistas foram detidos pelo governo – enquanto outros foram espancados – pela sua cobertura da pandemia.

– No Ruanda, um jornalista da Ishema TV foi detido e acusado de violar a política de confinamento do COVID-19.

– Na Malásia, a jornalista Wan Noor Hayati Wan Alias ​​enfrenta uma sentença de seis anos – alegadamente por causar pânico público – por causa de uma notícia que escreveu criticando a decisão do governo de permitir que um navio de cruzeiros com turistas chineses pudesse atracar e desembarcar na cidade costeira de Penang.

Como os media independentes ajudam a combater a pandemia?
Em todo o mundo – e perante grandes ameaças – os media independente têm desempenhado um papel crucial na comunicação de factos sobre o COVID-19 que ajudam a impedir a propagação do vírus e fornecem informações cruciais sobre o que se deve fazer quando se está infectado.

Eles estão a ajudar a combater o que os líderes da ONU apontam como uma “desinfodemia” perigosa que prejudica os conselhos de especialistas e alimenta a pandemia. As plataformas de media social, em particular, foram preenchidas com um ataque de desinformação que se espalhou tão rápido quanto o próprio vírus.

Agência Mural

Esta desinformação pode ser especialmente mortal em países com pouco acesso a informações credíveis e fiáveis. No Irão, por exemplo, o médico legista nacional revelou que, em pouco mais de um mês, 728 iranianos morreram por beber metanol, equivocados pela crença de que isso lhe daria imunidade perante o vírus.

A procura por informações fiáveis sobre o COVID-19 está a direccionar o público para as fontes fiáveis ​​dos media. Por sua vez, muitas dessas organizações estão a aproveitar a chance de envolver esses novos leitores e criar lealdades duradouras:
– Na Sérvia, a KRIK, uma organização de media independente (financiada pela Open Society), colocou como prioridade desmontar a desinformação do COVID-19 e lançou o blogue Raskrikavanje. O blogue foi a secção mais visitada do site em Março e Abril, no meio de um grande aumento no tráfego.

– No Brasil, a Agência Mural (outra beneficiária da Open Society), trabalhou com uma rede de 70 correspondentes locais para documentar a pandemia nalguns dos bairros mais pobres e marginalizados de São Paulo. Além disso, a Mural é responsável pelo Em Quarentena, um podcast popular e diário em WhatsApp de 8 minutos.

– Na África do Sul, o Daily Maverick, apoiado por leitores, criou um painel para compilar dados relacionados com o COVID-19 por província, usando fontes credenciadas para exibir de forma visual e clara a situação.

* Texto original publicado pela Open Society Foundations (CC BY-NC-ND 3.0). Foto: James McNellis (CC BY 2.0).

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.