Visão estratégica para o digital (actualizado)

O documento “Visão Estratégica para o plano de recuperação económica e social de Portugal 2020-2030”, do consultor do governo António Costa Silva, agrega num capítulo “A Qualificação da População, a Aceleração da Transição Digital, as Infraestruturas Digitais, a Ciência e Tecnologia”. Transcreve-se na íntegra o que diz este capítulo:

Portugal tem um défice de qualificação da sua população, principalmente de um vasto segmento da população ativa, que é um dos problemas estruturais mais persistentes do país e que condiciona significativamente os níveis de produtividade e crescimento económico e a capacidade de inovação e adaptação à mudança. Neste sentido, é importante, no âmbito do Plano de Recuperação, reforçar o investimento na Estratégia Portugal 2030 e continuar a apostar na melhoria das qualificações da população portuguesa, na linha do que está referido no ponto 5.5 deste documento [dedicado às “Qualificações”].

A transição digital é um dos instrumentos essenciais da estratégia de desenvolvimento do país, em linha com as orientações do Pacto Ecológico Europeu e com os investimentos da União Europeia no período de programação 2021-2027. O país tem feito um esforço para a adoção de tecnologias digitais nos processos produtivos e nos modelos organizacionais, mas é preciso fazer muito mais. O atraso no processo de transição digital em muitas empresas e organismos da Administração Pública (AP) tornou-se evidente com a crise da Covid-19 em domínios como os da desmaterialização dos processos, organização do teletrabalho ou competências de uso das tecnologias digitais, sobretudo em contextos novos e fora das atividades rotineiras. As novas tecnologias digitais, como os sistemas de inteligência artificial, a tecnologia 5G, a computação em nuvem e de proximidade e a Internet das coisas, constituem-se, no seu conjunto, como um dos principais alicerces da transição energética da economia, em particular dos setores industriais estratégicos para Portugal e do seu tecido empresarial. Como tal, a transição digital deve ser assumida como catalisador da transformação industrial em curso. Um elemento propulsor desta transformação é o alargamento da fibra ótica para cobrir todo o país, o que é muito importante para não termos um país a várias velocidades, ao mesmo tempo que reforça a coesão territorial e a integração do interior na economia nacional e global, promovendo plataformas digitais para vender produtos, bens e serviços online. O outro elemento propulsor, e estratégico para o futuro, é a utilização da nova geração de tecnologias móveis, a rede 5G, para alavancar a conectividade do país, inserindo-o nas redes globais, potenciando o know-how e experiência existentes nas empresas tecnológicas portuguesas, construindo uma plataforma competitiva que providencie soluções para gerir as cidades inteligentes, para lançar e dinamizar a internet das coisas, para potenciar o Big Data e para desenvolver o ecossistema de inovação pondo-o ao serviço da transformação da economia. A par disso, importa também criar condições favoráveis ao setor público para prestar melhor serviço e, consequentemente, uma melhor qualidade de vida ao cidadão. Para tanto, urge incentivar a adoção, por parte das empresas e do Estado de ferramentas e instrumentos mais modernos que contribuam para a criação de mais e melhor emprego, bem como incentivar a aposta em novos modelos de produção que incorporem as tecnologias associadas à digitalização.

O Plano de Recuperação Económica deve contemplar também um grande projeto nacional para completar as infraestruturas tecnológicas e de gestão, nomeadamente das escolas, universidades e centros tecnológicos e de investigação.

A crise sanitária mostrou a flexibilidade e capacidade de organização e adaptação que o sistema tecnológico nacional tem, incluindo as Universidades, Centros de Investigação e algumas empresas, para responder ao desafio. É importante o país reforçar e consolidar todas as infraestruturas tecnológicas e digitais, aumentar o poder das redes, e reforçar as tecnologias de informação e comunicação e as competências de gestão. A crise sanitária mostrou ainda a capacidade de resposta do sistema científico português e o valor da aposta feita ao longo dos anos. Os centros tecnológicos nas áreas das ciências da saúde, da investigação médica e biológica, mas também nas áreas da Engenharia e Tecnologia, das Ciências e das Tecnologias Digitais Aplicadas, revelaram uma resposta marcante. É crucial o Plano de Recuperação continuar a apostar no reforço das Instituições de Ensino Superior e do Sistema Científico português, consolidando a sua capacidade de resposta a problemas novos, identificando e desenvolvendo as competências para o futuro, continuando o investimento na capacidade para a produção e difusão do conhecimento, no reforço da formação de investigadores e em mecanismos de estímulo ao trabalho colaborativo e multidisciplinar. Áreas importantes como a Ciência de Dados, Estatística, Ciências da Computação e da Programação, bem como todos as competências nas áreas das Engenharias, que são cruciais para o futuro, devem ser estimuladas.

Face a tudo isto e também a algumas fragilidades que o sistema de ensino e de investigação nacional ainda tem, é importante o Plano de Recuperação Económica considerar os seguintes investimentos:
A Transição Digital
Extensão da fibra ótica a todo o país
O alargamento da fibra ótica para cobrir todo o país é um fator crucial para a transição digital e ecológica, para o aumento da competitividade do tecido empresarial, para a coesão territorial e para o ecossistema da inovação e investigação. Este é um projeto estruturante para o futuro de Portugal.

Um plano de investimento para a literacia digital no sistema educativo
A integração transversal das tecnologias nas diferentes áreas curriculares dos ensinos básico, secundário, universitário, e de ensino profissional, visando a melhoria contínua da qualidade das aprendizagens e a inovação e desenvolvimento do sistema educativo, dotando os cidadãos das competências digitais necessárias à sua plena realização pessoal e profissional, bem como a igualdade de oportunidades no acesso a equipamentos e recursos educativos digitais de qualidade e o investimento nas competências digitais dos docentes, e formadores. Devem ainda dotar-se estas instituições de recursos informáticos, reforçando as ligações à rede tanto para alunos como para professores e dotando o sistema escolar de uma infraestrutura digital adequada. O apetrechamento tecnológico das escolas e das famílias (equipamentos, ligações e conteúdos) e a capacitação de professores e formadores são decisivos para o futuro. O programa de requalificação de recursos humanos em tecnologias digitais deve ser alargado a todos os setores e envolver todos os níveis de ensino.

Um plano de investimento na AP
Um plano de investimento na AP com o objetivo de acelerar o processo de transição digital, permitindo a todos os organismos públicos o reforço das suas competências no uso das tecnologias digitais e na flexibilização e simplificação dos processos de trabalho. O papel dos organismos públicos e da AP é essencial para a implementação do Plano de Recuperação Económica e a simplificação e eficiência dos processos. A digitalização da AP pode ter um impacto forte na implementação de todas as medidas. Promover a modernização dos sistemas informáticos da AP (hardware e software), integrando todas as plataformas, em termos da sua interoperabilidade e portabilidade, no sentido de aumentar a eficácia e rapidez de todas as intervenções. Reforçar o programa de qualificação da AP (incluindo a restruturação e reativação do INA), ligado ao rejuvenescimento dos seus quadros e à capacidade de atrair jovens talentos para a aceleração do processo de digitalização, integrando as tecnologias da Inteligência Artificial, Ciência dos Dados e Máquinas que aprendem, para processar a informação e melhorar a gestão dos processos, a compreensão das realidades complexas e suportar a tomada de decisão. Tudo isto deve ser feito no contexto da implementação de um sistema de planeamento estratégico e de prospetiva, que tenha também em conta a necessidade de antecipar e gerir os riscos. O processo de digitalização deve incluir também a gestão do património do Estado e a rede diplomática e consular portuguesa no mundo.

Um plano de investimento no tecido empresarial
– Um plano de investimento direcionado para as empresas com o objetivo de recuperar o atraso existente em alguns setores em relação ao processo de transição digital, permitindo o seu acesso a meios tecnológicos digitais que promovam a modernização dos processos de trabalho e de produção, desmaterializem os workflows, cubram os défices de competência no uso de tecnologias digitais e adaptem as empresas à organização do teletrabalho e à flexibilização das suas cadeias de funcionamento. A capacidade de as empresas nacionais digitalizarem os seus processos e produtos pode ter uma importância maior não só na resposta à crise, mas também na competitividade futura da economia. O aumento das competências digitais e a qualificação dos recursos humanos das empresas, combinado com o Plano Nacional de Literacia de Adultos, é crucial porque trabalhadores com mais competências significa empresas mais competitivas.

– Um plano de investimento para acelerar a transição digital das empresas apoiando a concretização da Indústria 4.0 e facilitando o acesso aos meios digitais e a aquisição de equipamentos e de competências para a digitalização dos processos de trabalho e dos produtos, permitindo às PME ultrapassarem os défices de competência no uso de tecnologias digitais. Este plano pode ter um impacto grande na melhoria de competitividade do tecido empresarial português.

Uma aposta na ciência e tecnologia
Um plano de investimento nas Universidades, Politécnicos, Centros de Investigação e Centros Tecnológicos
Para cobrir fragilidades que ainda existem na capacidade do sistema científico em termos de disponibilidade de meios tecnológicos e do acesso ao uso das tecnologias de informação e comunicação e reforçar o apoio à formação de investigadores. Todas as iniciativas em curso, como a Iniciativa Nacional de Competências Digitais, a Rede de Escolas Superiores de Sistemas Digitais, os Centros Colaborativos de Formação, a Rede de Escolas de Pós-Graduação de âmbito empresarial, devem ser reforçadas e potenciadas com um novo ciclo de investimento e desenvolvimento.

Programa de capacitação dos centros tecnológicos e de investigação aplicada
Financiamento de equipamentos tecnológicos, instalações, estruturas de mediação empresarial, envolvendo investimento e recursos altamente qualificados e visando a difusão tecnológica, a valorização acelerada de conhecimento, a vigilância tecnológica e de mercado, a preponderância da I&D colaborativa de aplicação industrial, de melhoria da produtividade e da organização industrial. Revisão do enquadramento legislativo associado e centralização no IAPMEI do seu acompanhamento. As iniciativas em curso, como o Roteiro de Infraestruturas Científicas 2020, a Rede de Laboratórios Associados, com o reforço das carreiras científicas, a Rede de Laboratórios Colaborativos, com reforço do emprego científico, o Projeto Investigar+, com o apoio a novos projetosde I&D e o Projeto PERIN (Portugal in Europe Research and Innovation) bem como as parcerias Go Portugal, com o MIT, Carnegie Mellon e Universidade de Austin, devem ser revisitados para incrementar a sua atividade, tendo em conta o impacto muito positivo no sistema universitário e científico português. É imperioso incrementar a ligação de todo este sistema com o tecido empresarial, para se materializarem projetos de alto valor acrescentado em áreas tecnológicas promissoras e que vão formatar o futuro. O projeto para a Rede Ibérica de Computação Avançada e Supercomputação Verde é também muito importante para o país, tendo em conta o seu pioneirismo na ligação da supercomputação à sustentabilidade energética, com a aposta nas energias renováveis. O papel do Centro de Computação Avançada da Universidade do Minho deve ser reforçado, porque é um elemento crucial para a sustentabilidade deste projeto.

Programa Portugal como Centro Europeu de Engenharia
É vital Portugal reforçar o seu papel como Centro Europeu de Engenharia, tendo em conta que a revolução tecnológica em curso e a reindustrialização do país necessitam de mão de obra qualificada e em particular de engenheiros, não só de software ou eletrotecnia, mas engenheiros mecânicos, civis, químicos, mineiros, físicos tecnológicos, aeroespaciais e outros. Esta componente é vital para a transformação da economia e recomenda-se fortemente a criação de kits pedagógicos ilustrativos das profissões mais necessárias para atrair estudantes do ensino secundário.

No âmbito do capítulo sobre “Cultura, Serviços, Turismo e Comércio”, inscreve-se ainda um Programa para a Cultura, Criatividade e Inovação, onde consta que “as áreas criativas, como a animação, design de som, de imagem, de produto, conteúdos para jogos, arte digital e o desenvolvimento das tecnologias associadas ao digital (realidade aumentada, realidade virtual, inteligência artificial) são as áreas de atividade com significativas taxas de crescimento económico a nível global e que continuarão a crescer no futuro. Neste contexto, devem ser promovidas as seguintes iniciativas:
– Criação de um fundo público para a criatividade digital, para investir em projetos inovadores que associem arte e tecnologia;

– Instalação de incubadoras para a criatividade e arte digital, com ligação às universidades e aos centros tecnológicos, para apoiar e promover projetos que incorporem tecnologia nos processos de criação artística.

– Criação de um programa nacional de investigação e desenvolvimento para fileiras altamente especializadas na área da cultura (conservação e restauro, talha dourada, frescos, têxteis, pintura, cerâmica e vidros, azulejaria, entre outras), através de bolsas de doutoramento/especialização e de emprego científico para museus e monumentos nacionais;

– Criação de um Laboratório em Rede (a partir dos já existentes em Portugal) para a investigação dedicada à valorização do património cultural, com especial ênfase na integração de metodologias das ciências físicas e dos materiais em abordagens interdisciplinares.

– Criação de um programa para financiamento de digitalização de conteúdos e obras artísticas (cinema, obras de arte) e de desenvolvimento de ferramentas tecnológicas para o património cultural (3D, realidade virtual), numa articulação entre instituições culturais (cinemateca, arquivo nacional sonoro, museus e monumentos) empresas tecnológicas e Centros Tecnológicos e de Investigação.

[act.: o documento foi actualizado, estando a última versão disponível aqui]

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