Os Estados Unidos e as finanças da pandemia

Na pandemia, os Estados Unidos e as suas instituições adoptaram medidas que tiveram impacto no fornecimento de liquidez ao sistema internacional. Na América Latina, especificamente, elas passaram pelo FMI, mas também por acordos com o banco central dos EUA (Fed). A distribuição dos lucros bancários no primeiro trimestre de 2020 e um boom no mercado de acções mostram a estreita relação Fed-indústria financeira.

Desde o final de Janeiro, as bolsas mundiais apresentaram uma queda generalizada como efeito das medidas para encerrar a produção e os serviços no mundo. Em 23 de Março, o dia em que as bolsas caíram a nível mundial, o Fed anunciou medidas para uma recuperação económica que mudou a trajectória das bolsas. A intervenção ocorreu através de vários canais:

– O Main Street Program, de 600 mil milhões de dólares, concebido para ajudar no fluxo de crédito às pequenas e médias empresas que enfrentam interrupções no fluxo de caixa.

– 500 mil milhões para compra de títulos corporativos (“corporate bonds”) no mercado primário e concessão de empréstimos a empresas qualificadas.

– 250 mil milhões para a compra de títulos corporativos no mercado secundário, compra títulos individualmente e fundos negociados em bolsa (ETFs), um instrumento do mercado de acções que agrupa activos e replica o seu comportamento agregado.

– 100 mil milhões para aumento da disponibilidade de financiamento de letras de câmbio e notas promissórias de curto prazo, para empresas e outros.

– 100 mil milhões para compra de activos garantidos de crédito ao consumidor, por exemplo empréstimos para automóveis, para estudantes e outros.

– 500 mil milhões na compra de dívida de curto prazo dos governos estaduais e locais.

A taxa máxima de desemprego de 14,7% (22 milhões de desempregados) e de 42 milhões de solicitações de assistência de desemprego nos EUA em Abril reduziu-se para 13,3% em Junho, mas com 45 milhões de solicitações. O crédito rotativo caiu 64% no primeiro trimestre, e a empresa Visa registou em Maio uma queda de 21% no volume de uso de cartão de crédito e um aumento de 12% nos cartões de débito. Houve um aumento nos empréstimos sobre hipotecas, empréstimos vencidos para estudantes, cartões de crédito e no sector produtivo empresarial.

Nos EUA, a distribuição de dividendos por acção duplicou em relação ao lucro por acção no sector bancário. (Mais Informações). Aconteceu no contexto da falência de empresas de retalho e hotéis (J.C. Penney e Neiman Marcus); algumas cadeias de restaurantes (Chuck E. Cheese, Food First), aluguer de carros (Hertz Rent a Car) e perdas de investimentos (Renault, Ford, Delta Airlines, Bombardier, Boeing, American Airlines, para citar os mais importantes). Nestas condições, as bolsas de valores, pelo contrário, mostraram uma forte recuperação, e a Nasdaq atingiu novos picos. As empresas Zoom, Amazon, Google, Apple, Microsoft, Tesla, Netflix e Facebook estão entre as empresas de maior prestígio que beneficiaram.

Com o resto do mundo, o Fed continuou no seu papel de fornecedor de liquidez internacional, como banco central global, através de linhas “swap” de 60 mil milhões de dólares com a Austrália, Brasil, Coreia do Sul, México, Singapura e Suécia, e 30 mil milhões de dólares para a Dinamarca, Noruega e Nova Zelândia. Também lançou um programa de recompra, aberto aos bancos centrais com conta no Fed, para fornecer dólares de curto prazo sem a necessidade de vender títulos do Tesouro dos EUA, com o acordo de recompra de activos.

O FMI concedeu empréstimos rápidos ao Haiti (112 milhões de dólares), Santa Lúcia (29 milhões de dólares), Granada (22 milhões de dólares) e Dominica (14 milhões de dólares). Em comparação, os favorecidos foram a República Dominicana (650 milhões de dólares), Equador (643 milhões de dólares), Panamá (515 milhões de dólares), Costa Rica (508 milhões de dólares), El Salvador (389 milhões de dólares), Bolívia (327 milhões de dólares) e Paraguai (274 milhões de dólares). Outros grandes países, como México, Peru, Chile e Colômbia, tiveram linhas de crédito flexíveis para 61 mil milhões de dólares, 11 mil milhões, 23.930 milhões e 11 mil milhões de dólares, respectivamente.

A intervenção do Fed e dos bancos centrais marca as imperfeições do mercado, assimetrias e falta de livre concorrência. Todos são contrários aos defensores do mercado perfeito. A distribuição do dobro dos dividendos que as empresas auferiram no primeiro trimestre por acção é uma contradição em termos que reflecte a financeirização, o poder do capital financeiro e o dólar. O aumento da liquidez do Fed e do banco central permitiu que as bolsas recuperassem sem recuperação da produção e com elevados níveis de desemprego, baixos níveis de consumo e destruição da produção, numa contradição que leva ao aumento da desigualdade existente.

* Texto original publicado pelo Observatorio Económico Latinoamericano. Foto: DhanaVanthan (CC BY-NC 2.0).

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