A Internet tem espaço suficiente para todos os dispositivos

Parece que a cada cinco anos surge a notícia de que o céu digital está a cair. Em 2010 e 2015, espalharam-se rumores de que a Internet iria ficar sem endereços IP. Em Agosto de 2019, o regulador dos domínios da Internet na Europa previu que os 1,91 milhões de endereços restantes da região provavelmente se iriam esgotar antes de 2020. [Isso sucedeu em Novembro passado.]

Qualquer computador e smartphone deve ter um endereço IP para aceder à Internet. IP abrevia Internet Protocol (Protocolo da Internet) e, como um código postal, deve ser suficientemente único para garantir que todos os dispositivos conectados possam enviar e receber dados precisos entre si. É assim que o dispositivo que está a usar é capaz de visualizar este artigo.

Mas quando os endereços IP foram antecipados na década de 1980, pensou-se que ter endereços digitais com 32 números garantiria uma variedade suficiente para haver um endereço diferente para cada dispositivo electrónico na Terra. Uma sequência de números com 32 dígitos fornece dois ao poder de 32 combinações, permitindo um endereço de Internet diferente para 4,2 mil milhões de dispositivos.

À época, isso era mais do que suficiente, pois eram poucas as pessoas que sabiam da Internet. Mas em 2019, algumas residências podem ter até 20 endereços IP – um para cada dispositivo electrónico. Isso inclui consolas de jogos, smartphones, lâmpadas inteligentes, alto-falantes inteligentes, computadores, televisões inteligentes e muito mais. Esses endereços IP estão a ser usados ​​na Europa a uma taxa de 11 a cada minuto.

Como a Internet se continua a expandir
Então, porque parece não haver problemas com tudo isto? Os endereços da Internet que estão a acabar são os endereços da “versão 4”. O seu uso aumentou significativamente quando a Internet se popularizou junto de utilizadores comuns a partir de meados dos anos 90 em diante. Mas os especialistas reconheceram há mais de 15 anos ser necessário um melhor sistema de endereçamento. O mais novo que temos é a versão 6. Como dissemos, os endereços da versão 4 têm 32 dígitos. A versão 6 tem 128. Isso dá dois ao poder de 128 combinações, ou 340.282.366.920.938.463.463.374.607.431.768.211.455 endereços. Isso equivale a 340 undeciliões [ou “undecillion“] de potenciais endereços – um número magnificamente grande.

Os dispositivos electrónicos usam cada vez mais os novos endereços da versão 6, mas ainda existem muitos dispositivos, servidores da Web e tecnologias de comunicação na Internet, como “routers” domésticos, que usam a versão antiga 4. Levará muito tempo substituí-los, especialmente considerando o número de dispositivos que já usam a Internet.

Então, serão necessários endereços IP cada vez mais longos para acompanhar a expansão da Internet em novos dispositivos? Não necessariamente. A nova tecnologia pode redireccionar o tráfego da Internet de 16 milhões de dispositivos usando um único endereço IP. Provavelmente, o seu “router” doméstico e o seu fornecedor de comunicações móveis já o estão a fazer.

Essa foi a principal razão para não ser necessário entrar em pânico quando as autoridades da Internet anunciaram que os endereços se estavam a acabar. Graças ao desenvolvimento tecnológico, um único endereço pode agora suportar outros 16 milhões, enquanto cada um deles pode ser dividido noutros 16 milhões, e assim sucessivamente.

Isto recorda-nos quantos dispositivos estão provavelmente a usar a Internet em qualquer momento. Qualquer endereço IP, qualquer “router” doméstico poderia, se tivesse poder de processamento suficiente, suportar milhões de dispositivos – permitindo que tudo possa ser ligado à Internet.

* Texto original de Andrew Smith, da The Open University, republicado da The Conversation, com licença Creative Commons. Imagem de Clem Onojeghuo/Unsplash.
The Conversation

Houve um IPv5… mais ou menos
No final dos anos 60, a Advanced Research Projects Agency (ARPA) do US Department of Defense iniciou um projecto para ligar computadores em todo o país. O objectivo inicial era criar um sistema em rede de todos os computadores financiados pelo ARPA no país.

Como essa foi a primeira vez que uma rede dessa escala foi montada, também se estava a criar a tecnologia e o hardware à medida que se avançava. Uma das primeiras coisas em que se trabalhou foi num protocolo para a Internet denominado de Transmission Control Protocol (TCP). Esse protocolo “entrega de forma fiável, ordenada e verificada por erro um fluxo de octetos (bytes) entre aplicações em execução em ‘hosts’ que comunicam através de uma rede IP”. Basicamente, garantia-se que os dados chegassem onde precisavam de ir em segurança.

Originalmente, o TCP foi concebido para funcionar “ao nível de ‘host’, e com um protocolo ‘end-to-end’ e outro de empacotamento e roteamento”. No entanto, percebeu-se ser preciso dividir o protocolo para torná-lo mais gerível. Foi decidido que o IP trataria do empacotamento e do roteamento.

Nessa altura, o TCP já tinha passado por três versões, pelo que o novo protocolo ficou conhecido como IPv4.

Arpa Internet

O nascimento do IPv5

O IPv5 iniciou-se com um nome diferente: Internet Stream Protocol (ou ST). Foi criado para experimentar o streaming de voz e vídeo pela Apple, NeXT e Sun Microsystems.

Este novo protocolo era capaz de “transferir pacotes de dados em frequências específicas, mantendo a comunicação”.

Então, o que aconteceu com o IPv5?

O IPv5 nunca foi aceite como protocolo oficial da Internet. Isso ocorreu principalmente devido à limitação de 32 bits.

O IPv5 usava o mesmo sistema de endereçamento que o IPv4. Cada endereço era composto de quatro conjuntos de números entre 0 e 255. Isso limitava o número de endereços possíveis a 4,3 mil milhões.

No início dos anos 70, isso poderia parecer mais do que jamais se precisaria. No entanto, o crescimento explosivo da Internet provou que essa ideia estava errada. Em 2011, o mundo ficou oficialmente sem endereços IPv4.

Na década de 1990, iniciou-se um novo projecto para desenvolver a próxima geração de IP (IPng). Isso levou ao IPv6 de 128 bits. Um endereço IPv6 contém uma “série de oito números hexadecimais de 4 caracteres” que podem conter números de 0 a 9 e letras de A a F. Ao contrário do IPv4, o IPv6 tinha triliões de endereços possíveis, portanto a sua escassez não será tão rápida.

Entretanto, o IPv5 lançou as bases para a tecnologia de voz sobre IP que usamos para comunicar. De alguma forma, pode-se dizer que o IPv5 ainda sobrevive.

* Texto original de It’s FOSS, republicado com licença CC BY-SA 4.0. Imagem: ARPA Logical Map (Wikipedia)

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