Jornalismo científico é mais do que nunca necessário

O aparecimento da nova pandemia do coronavírus tornou repentinamente importantes os jornalistas de ciência e de saúde nas redacções.

Quase da noite para o dia, o COVID-19 mostrou aos cientistas, aos responsáveis, às autoridades e até aos próprios media que bons interlocutores são essenciais para falar sobre questões complexas para um grande público.

“O número de jornalistas interessados ​​em ciência aumentou pelo menos 10 vezes, o que levou os media a dar mais ênfase aos artigos científicos”, diz Rodrigo Medellin, investigador do Instituto de Ecologia da Universidade Nacional Autónoma do México.

Numa entrevista ao SciDev.Net, ele acredita que a pandemia teve um impacto positivo nos media e na maneira como eles escrevem artigos científicos e escolhem as suas fontes.

“A única coisa que espero é que não passe, que não seja uma chama gigantesca que dura muito pouco tempo e se apaga imediatamente”, acrescenta.

“Como jornalistas especializados, precisamos de ganhar em legitimidade. O público deve saber que as nossas informações estão correctas; precisamos de ser rigorosos, não necessariamente os primeiros [a publicar uma notícia]”.
Carlos Francisco Fernández, jornalista de saúde, El Tiempo, Colômbia

Aleida Rueda, presidente da Rede Mexicana de Jornalistas de Ciência (RedMPC em espanhol) e colaboradora do SciDev.Net, diz que a pandemia revelou que os países latino-americanos não têm um bom jornalismo que responda a perguntas básicas (devíamos usar máscaras?) e perguntas mais difíceis (porque algumas pessoas têm sintomas e outras não?)

“Nesse cenário, o jornalismo científico é mais necessário do que nunca, mas não tenho a certeza se é mais popular do que antes”, disse ela.

“Os grande media continuam a produzir informações diárias baseadas em opiniões, com orientação política, sem autocrítica, como sempre. A esperança, penso, é que as pessoas achem o jornalismo especializado tão necessário e fundamental que o exijam mais e mais”.

Durante isto, ela vê as informações fornecidas pelos grandes media como outro grande risco para a saúde: a abundância de falsas terapias, a criação de falsas expectativas, a designação de “culpados” e as respostas “absolutas” a questões complexas.

Esta questão foi um dos temas do primeiro fórum virtual de jornalismo científico da América Latina, realizado de 6 a 15 de Maio, para mais de 1.400 jornalistas e comunicadores.

“Como jornalistas especializados, precisamos de ganhar em legitimidade”, referiu Carlos Francisco Fernández, jornalista de saúde no diário colombiano El Tiempo. “O público deve saber que as nossas informações estão correctas; precisamos de ser rigorosos, não necessariamente os primeiros [a publicar uma notícia]”.

“Precisamos de aproveitar esta situação para mostrar a importância que temos”, disse Marcelo Leite, jornalista do jornal Folha de S. Paulo, durante o fórum.

Hoje, o jornalista científico deve lutar não apenas contra as “notícias falsas”, mas também contra a dinâmica imprevisível da nova pandemia.

“Temos que ser particularmente cuidadosos e tentar explicar o quão incerto é isto tudo”, disse no fórum Nora Bär, presidente da Rede Argentina de Jornalismo Científico.

É um enorme desafio para uma especialização jornalística por vezes esquecida.

O jornalismo científico exige uma formação e leitura contínuos, especialmente num ambiente incerto e quando existem literalmente milhares de investigações científicas potencialmente “dignas de interesse”.

Um grande desafio.

* Texto original de Martín de Ambrosio, da SciDev.Net para a América Latina (CC BY 3.0 US). Foto: Fernando Medina Fernández/Cubahora

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