O mercado não regulado dos testes à venda online

O Infarmed e a Direcção-geral de Saúde (DGS) já alertaram: não convém usar testes rápidos de anticorpos no caso do coronavírus, nem eles devem ser adquiridos pela Internet. A razão é dramática: podem matar.

Na reportagem “Uncertain Diagnosis: The Murky Global Market for Coronavirus Antibody Tests“, o Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCRP) mostra como um homem de 45 anos do Norte da Macedónia faleceu quando os resultados dos testes deram errados.

Rodzer Zekirovski tinha “todos os sintomas” do COVID-19 mas não conseguia efectuar um teste no hospital estatal. Em alternativa, adquiriu um teste – com a etiqueta de fabricado na Holanda e anunciado como de “elevada qualidade” – para obter resultados em minutos.

O resultado do teste deu negativo. Três dias depois, ele faleceu. Conseguiu finalmente, depois de morto, um teste hospitalar que indicou estar infectado com o vírus SARS-CoV-2.

Nos EUA, o problema é semelhante com as pessoas a terem os sintomas do COVID-19 mas a não conseguirem efectuar os testes para os confirmar. Estes testes analisam se já existiu uma infecção no passado e estão a ser apoiados por clínicas e até pelos governos estatais para dar confiança à população e conseguir a re-abertura da economia. O seu uso não dá garantias de fiabilidade.

Em alternativa a outros testes que podem demorar horas ou dias, estes testes de anticorpos demoram minutos a dar resultados. Mas, como o OCCRP descobriu, é um mercado com “sérios problemas”.

Os testes não são fabricados na Holanda mas, embora vendidos pela empresa local Inzek International Trading sob a marca de Biozek, são uma de três marcas disponíveis na Europa e nos EUA. O que estas fazem é rotular os testes com marcas apelativas para produtos feitos na China pela Hangzhou Alltest Biotech.

A sua fiabilidade foi questionada pelo governo britânico e levou ao cancelamento de um contrato de vários milhões de dólares. Mas eles continuaram a ser usados em países como Espanha, Itália, Indonésia, Rússia e até no Vaticano.

Em Portugal, o Infarmed emitiu a a 4 de Maio passado um alerta sobre estes testes rápidos. Reconhecendo que eles usam “a marcação CE como símbolo de conformidade com a legislação europeia”, alguns “apresentam documentação falsa, documentação técnica incompleta, ou alegações não fundamentadas”.

A instituição avisou também que estes testes “são, em regra, menos fiáveis e sensíveis do que os testes de diagnóstico realizados em laboratório, com equipamentos e reagentes específicos”. O alerta do Infarmed confirmava não ter detectado estes testes falsificados e que eles não devem ser adquiridos pela Internet ou por outra via.

Antes, a 24 de Abril, a DGS falava em sentido contrário dizendo existir “no mercado testes de diagnóstico rápido de SARS-CoV-2, mas a informação sobre o seu desempenho clínico é ainda limitada”. E acrescentava que “os testes indirectos de detecção qualitativa de anticorpos SARS-CoV-2 devem ser utilizados com precaução, uma vez que se desconhece ainda qual o tipo e a duração dos anticorpos que são desenvolvidos no decurso da infecção e não é possível inferir sobre a sua qualidade neutralizante e/ou capacidade de induzir imunidade”.

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