E depois da pandemia? Previsões erradas

A consultora Deloitte e a Salesforce revelaram potenciais cenários para a economia e a sociedade após a crise gerada pelo COVID-19. A partir de “cinco fundamentais incertezas”, estas implicações para líderes resilientes podem manifestar-se nos próximos três a cinco anos e passam pela “gravidade geral da pandemia e o padrão de progressão da doença, o nível de colaboração dentro e entre países, a resposta do sistema de saúde à crise, as consequências económicas da crise e o nível de coesão social em resposta” à mesma.

Na análise “The world remade by COVID-19: Planning scenarios for resilient leaders“, assume-se que “a crise terminará e a vida voltará ao ‘normal’. Mas e se não for como antes? O que mudou em resultado do que está a acontecer agora”, questionam os autores.

Esta estabeleceu quatro cenários: A Tempestade Passageira (“The Passing Storm”), Boa Empresa (“Good Company”), Nascer do Sol no Leste (“Sunrise in the East”) e Lobos Solitários (“Lone Wolves”).

No primeiro caso, a pandemia é contida por respostas eficazes dos sistemas político e de saúde. O vírus é erradicado mais rapidamente do que se antevia devido a medidas coordenadas globais, cujas competências podem renovar a confiança nas instituições públicas. “A actividade económica recupera no final de 2020”, e “é inicialmente lenta, mas acelera no segundo semestre de 2021, à medida que os consumidores se tornam mais confiantes”, refere o relatório.

O segundo cenário é semelhante ao anterior mas com o envolvimento empresarial. Nestas parcerias público-privadas, “as empresas de media social, plataformas e gigantes tecnológicas ganham um novo prestígio”. A recuperação económica inicia-se no final de 2021, será lenta no início de 2022 para só depois acelerar.

O terceiro é uma aceleração de uma tendência pré-existente à crise, de crescimento económico asiático e principalmente chinês, enquanto blocos económicos como os EUA ou a UE prosseguem a luta contra a pandemia e os seus impactos humanos, social e económicos. A agilidade económica inicia-se no final de 2021 mas ocorrerá principalmente no Oriente.

No último caso, a crise de saúde prossegue de forma ilimitada, “o inimigo invisível está por todo o lado e cresce a paranóia”. As nações assumem posturas proteccionistas, em termos económicos, de maior controlo, nomeadamente contra os estrangeiros, e de tecnovigilância relativamente às movimentações dos seus cidadãos. A recuperação económica ocorrerá a partir de meados de 2022, com variações entre países.

Prever para errar
Há muitos que declaram a impossibilidade de criar cenários pós-pandémicos, com títulos como estes permitem antever: porque é difícil prever com precisão a epidemia do COVID-19?“, é impossível prever em que direcção irá a epidemia“, “o que os futuristas imaginam para o mundo pós-pandemia de coronavírus“, “é impossível prever a duração da pandemia de COVID-19” ou “modelos matemáticos são usados para prever o caminho do Covid-19, mas são bons os dados recebidos?

Um conjunto de outros especialistas aceite fazê-lo, até para ajudar na concepção de decisões políticas, por exemplo. Veja-se “o legado da pandemia: 11 maneiras de mudar a maneira como vivemos“, “a sociedade pós-COVID19: cinco previsões e um risco” ou “suicídio e [stress pós-traumático] aumentam significativamente após Covid-19, prevê estudo“.

Estas previsões não passam disso mesmo, de antevisões sobre o futuro com os dados que temos.

São equivalentes a decretar “o fim da era da ironia” após o 11 de Setembro (editor Graydon Carter, da revista Vanity Fair), ao “fim do excesso” decretado pela revista Time em 2009 ou, também nesse ano, à visão de que a “relutância em gastar pode ser um legado da recessão”, como se escrevia no The New York Times.

Os valores do consumo passaram de 10 biliões de dólares em 2009 para 13.5 biliões no ano passado, quando as dívidas em cartão de crédito atingiram novos máximos.

As contradições são mostradas em “Why Most Post-Pandemic Predictions Will Be Totally Wrong“, num texto que procura demonstrar como é natural e até necessário este tipo de futurologia: “sentimos que as coisas nunca mais serão as mesmas, e as especulações ponderadas sobre o futuro ajudam-nos a lidar com o presente – e, entre outras coisas, a eliminar riscos e oportunidades económicas. Sim, parece que a enorme experiência de trabalho em casa chegou para ficar. Que a educação virtual está a ter o seu momento. Que mesmo as empresas de entrega de refeições, que estavam recentemente em suporte de vida, podem mais uma vez ter futuro”.

Mas é necessário “ter uma coisa em mente sobre estas previsões: a maioria delas estará errada”.

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