O efeito mortal da desinformação televisiva

A desinformação durante uma pandemia como esta do COVID-19 pode ter efeitos mortais, especialmente quando é transmitida em programas de grande audiência na televisão.

Exemplo recente disso mesmo foi a declaração do presidente Trump de que desinfectantes como a lixívia podiam curar o coronavírus. Do aumento de telefonemas para o Poison Control Center de Nova Iorque (Trump afirmou desconhecer a razão para o sucedido…) às mensagens falsas e adulteradas sobre esta “medicação” na Nigéria foi um pequeno passo.

Antes, um outro caso levara a estabelecer uma relação entre um seu tweet e levou um casal a ingerir um produto de limpeza para aquários à base de cloroquina. Apesar de neste caso se ter apontado que Trump detinha um “pequeno” e “distante” investimento numa farmacêutica interessada no medicamento, uma investigação jornalística dá a entender que foram elementos da sua equipa quem terá pressionado a adopção da cloroquina para justificar as anteriores posições do presidente. Assim, não se entende a razão do “Dr. Trump” propor tantas destas curas mas sabe-se que a sua “banha da cobra pode matar“.

E mata mesmo para quem vê um dos programas nocturnos mais vistos na televisão por cabo nos EUA.

Em “Misinformation During a Pandemic“, investigadores analisaram os programas Hannity e Tucker Carlson Tonight, ambos da Fox News, nomeadamente na aproximação que fizeram ao COVID-19.

Enquanto o primeiro desvalorizou o coronavírus, o programa de Tucker Carlson alertou os espectadores para a séria ameaça desde o início de Fevereiro. Esta posição levou a que os telespectadores de Hannity mudassem os seus comportamentos mais tarde do que o programa concorrente em análise ou outros na Fox News.

Desta forma, “documentamos que uma maior exposição a Hannity em relação a Tucker Carlson Tonight aumentou o número total de casos e mortes nos estágios iniciais da pandemia de coronavírus. Além disso, os efeitos nos casos começam a declinar em meados de Março, consistente com a convergência na cobertura do coronavírus entre os dois programas”.

Eles consideram ainda que “a desinformação é um mecanismo importante condutor dos efeitos nos dados” e que o trabalho indica como “o fornecimento de informações erradas nos estágios iniciais de uma pandemia pode ter consequências importantes para os resultados de saúde” na população. No entanto, apenas foram inquiridos 1.045 espectadores com 55 ou mais anos para o seu trabalho no início de Abril.

O efeito na separação das audiências é mensurável por, no início de Janeiro, ambos terem conteúdos e audiências semelhantes, “noticiando de forma conservadora e sendo muito apoiantes da agenda política do presidente Trump”.

Enquanto Carlson alertou para o perigo no início de Fevereiro, o outro programa ignorou inicialmente o tópico e depois insistiu que se tratava de propaganda democrata para atacar o presidente republicano. O tom só se alterou e evoluiu para alertar sobre os perigos da pandemia no início de Março.

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