Próximo surto de COVID-19 “antecipado por satélites”

Os dados dos satélites podem ser usados ​​para prever futuros surtos de COVID-19, diz um microbiólogo ambiental.

Embora os satélites estejam em órbita desde a década de 1950, foi há apenas 20 anos que os cientistas começaram a aproveitar os seus dados de observação da Terra para ajudar a saúde pública global.

Em 2007, a NASA confiava em que os seus satélites poderiam “prever e prevenir surtos de doenças infecciosas em todo o mundo”. Os epidemiologistas que lideram no uso da tecnologia espacial, no entanto, dizem que os satélites não poderiam ter antecipado a chegada deste coronavírus.

Mas agora, Rita R. Colwell, professora da Universidade de Maryland, desenvolveu um modelo predictivo para o SARS-CoV-2, o nome científico do vírus que causa a doença pelo coronavírus – COVID-19.

Prevê-se que o SARS-CoV-2 se torne endémico – o que significa que se juntará à rotação dos vírus que afectam as populações humanas – e provavelmente ocorrerá novamente no futuro, dizem os virologistas.

Colwell diz que uma matriz complexa de informação pode ser a resposta para prever quando e onde ocorre o próximo surto de casos de COVID-19.

A investigação inovadora deverá ser publicada na GeoHealth, uma revista da American Geophysical Union.

Colwell diz que a sua equipa aplicou “machine learning” (aprendizagem por máquina) a dados da China, Itália, Espanha e Estados Unidos para extrair correlações com dados recolhidos de satélites, além de temperaturas do ar e parâmetros como a humidade e orvalho.

“Estamos no processo de testar; achamos que podemos prever para regiões específicas quando o risco é maior ”, diz.

Doenças e meio ambiente
No início do século, Colwell identificou as ligações ambientais aos surtos de cólera, uma doença infecciosa bacteriana causada pelo consumo de água ou alimentos contaminados.

Usando dados do Landsat, programa de observação da Terra, os cientistas foram capazes de mostrar correlações directas entre as concentrações de clorofila e as flores de fitoplâncton e a cólera.

“Fomos os primeiros a desenvolver um sistema predictivo de cólera”, diz Colwell, falando dos seus parceiros de investigação.

“Os satélites são realmente uma ferramenta de saúde pública muito valiosa. Com os satélites muito sofisticados actualmente lá em cima, podemos extrair dados de meia dúzia deles – que analisam o movimento das populações, a construção no solo, aos satélites que medem a temperatura da superfície do mar, a altura da superfície do mar e a clorofila.

“Temos agora um mecanismo para a vigilância global e previsão de possíveis epidemias”.

Antecipando o próximo surto de COVID-19
Durante o surto mortal de Ébola em 2015, Farhan M. Asrar, da Universidade de Toronto e da International Space University (França), descobriu que as pessoas estavam cada vez mais a entender os benefícios que o espaço poderia proporcionar à gestão de doenças.

“Os activos espaciais estão actualmente disponíveis e a serem usados ​​para beneficiar a saúde global, incluindo a doença pelo vírus Ébola e outras doenças infecciosas”, co-escreveu Asrar na revista científica The Lancet. “Este benefício pode ser melhorado ainda mais com uma maior cooperação, investimento e parceria entre o sector espacial e as organizações humanitárias e de saúde pública”.

Timothy E. Ford, presidente do Department of Environmental Health Sciences na University of Massachusetts Amherst, diz que embora seja difícil prever surtos de novos vírus que se acredita serem transmitidos através da carne selvagem ou do comércio de animais, “para os agentes patogénicos transmitidos em rotas ambientais ou que têm uma ligação ambiental, os satélites são poderosos”.

“Esperamos ter dados retrospectivos que possam ser ligados às imagens de satélite das principais rotas de transporte para ver como o vírus [SARS-CoV-2] se espalhou. Podemos não ter previsto que isso acontecesse no início, mas podemos mapear como ajudar nesse processo” de recuperação.

Futuro dos satélites e surtos
Embora a tecnologia ainda não consiga prever surtos de doenças desconhecidas, os analistas mantêm um olhar atento ao espaço: “acho que chamaria o que fazemos de epidemiologia computacional”, diz Colwell.

“Os satélites não são tudo mas podem ser uma previsão poderosa de possíveis surtos futuros”, diz Ford. Ele considera que os satélites ajudam na mitigação directa, como a emitir avisos em áreas onde são esperados surtos ou a desviar recursos médicos.

Colwell e a sua equipa criaram um método de filtragem pelo pano do sari, lançado no Bangladesh, para remover grandes quantidades de bactérias de cólera.

Simplesmente por dobrar várias vezes um sari – um longo pedaço de material enrolado no corpo para formar um vestido – cria-se um filtro de água que pode apanhar muitos contaminantes. Isto levou a uma redução de 50% nos casos de cólera, um feito a que Ford chama de “uma incrível história de sucesso”. E em 2018 e 2019, Colwell e os co-investigadores Antar Jutla, professor de engenharia, e Anwar Huq, professor de biologia celular e de genética molecular, fizeram previsões que permitiram às equipas médicas e de mitigação planear antecipadamente os surtos de cólera no Iémen.

A ferramenta de previsão foi capaz de prever com 92% de precisão as áreas geográficas de alto risco para os surtos naquele país.

O uso diário da tecnologia espacial deixou de ser material de ficção científica. “Deixou de ser hipotético: é actual e é útil”, diz Colwell.

* Artigo de Fiona Broom, publicado originalmente em SciDev.Net (CC BY 2.0). Imagens: NASA Goddard Space Flight Center (CC BY 2.0), NASA (The Commons)

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