Procura-se: notícia positiva

Portugueses, espanhóis, emigrantes, norte-americanos: após semanas de epidemia e, depois, de pandemia, num momento de confinamento e de crise – tradicionalmente de grande consumo noticioso diário -, as pessoas estão à procura de notícias “boas”, positivas. Há razões concretas para essa escolha.

Para Portugal, as “boas notícias” têm sido procuradas no Google Trends desde 8 de Março. Os autores de dois endereços que encontrámos em Portugal têm praticamente a mesma visão sobre um enviesamento nos media tradicionais no nosso país, a penderem para as notícias mais negativas. Esta postura leva a encaminharem-se para fora desses meios.

O Copo Meio Cheio é dinamizado no Facebook pelo antigo jornalista António Eduardo Marques. Trata-se de “uma página onde se partilham notícias positivas sobre o mundo em geral e Portugal em particular, contribuindo para alterar a percepção, errada, de que Portugal é um país pior do que os outros e de que o mundo é um lugar terrível”.

O Fado Positivo é da responsabilidade de Miguel Carvalho, ligado à área económica, que lançou o site em 2009 por estar “porque não estamos condenados a ver sempre o copo meio-vazio, aqui só se destaca o copo meio-cheio”.
(ver entrevistas com os autores mais abaixo)

Espanhóis querem “buenas noticias”
Há poucos dias, o El País intitulava um artigo como “os espanhóis procuram na Internet mais boas notícias do que nunca“. E não era o primeiro a notar o fenómeno.

Em Março, antes de começar a decrescer, a pesquisa por “buenas noticias” no Google Trends atingiu “máximos históricos” desde Janeiro de 2004.

A queda subsequente tem uma explicação para José Ramón Ubieto, psicoanalista e professor da Universitat Oberta de Catalunya. Uma situação de crise tem diferentes fases e a primeira “já foi superada e é a da perplexidade”. O utilizador quer informar-se, saber o que o pode afectar.

A seguinte, que deve estar a ficar para trás, “é a do pico de pânico, de angústia”, como quando se percebe que as mortes pelo coronavírus não são algo apenas na China mas afectam qualquer país. Da informação passa-se ao interesse pelos falecidos, num percurso de “infobesidade”.

Segue-se a fase de luto, onde se procuram as boas notícias – vai tudo correr bem? há soluções? – porque ninguém tem certezas. Por fim, segundo Ubieto, a última fase será a da “reconstrução dos laços interrompidos e da economia”.

Pode pensar-se que a procura destas notícias positivas só ocorre porque existe a Internet mas, em calamidades anteriores, recorria-se “sobretudo a familiares ou amigos”. Neste cenário, é natural o elogio, as palmas, as manifestações de apreço aos “heróis” da saúde ou apreço por outros actores solidários ou doadores.

O problema afecta principalmente os mais velhos, porque os novos “têm outras possibilidades de ócio“, refere Ana Belén Sánchez, do Colegio de Psicología de Castilla y León. Os idosos têm medo “transmitido pelos meios de comunicação, cuja programação é objecto de queixas”.

Em confinamento, a principal “janela para o exterior são os meios de comunicação e, se nos ensinam apenas uma parte da realidade, o nosso cérebro emocionalmente vai sentir que o que se passa no mundo é o coronavirus”, refere o psicólogo Daniel Fernández Moreno e presidente da Asociación para la Intervención Psicológica en Urgencias, Emergencias, Crisis y Desastres (ASINPEC).

Naturalmente, procuram-se meios com notícias positivas – normalmente em versão online – que ocupam os media tradicionais mais focados nos números dos desastres.

Em Espanha, por exemplo, surgiram sites como o Son buenas noticias ou o Cuéntame algo bueno. No Twitter, a partir do Peru e criado em em Março passado, o Noticias Positivas assume só se interessar por “noticias positivas del Perú y del mundo”.

Chorar por boas notícias
O New York Times intitulava um artigo como “as notícias estão a tornar as pessoas ansiosas. Nem acredita no que elas estão a ler em alternativa“.

Nos EUA, a ferramenta Trends para os EUA mostra um crescimento e manutenção do interesse no termo “good news” desde meados de Março.

O jornal falava de contas no Instagram a crescerem desmesuradamente em interessados, como o TanksGoodNews ou o GoodNews_Movement, do The_Happy_Broadcast ou do Some Good News, um canal de vídeos no Youtube dinamizado pelo actor John Krasinski.

A mesma plataforma foi escolhida por Diego Ojeda para o Noticias Positivas en Tiempos Negativos (COVID-19).

O próprio jornal afirma ter tido um interesse notável na sua secção de boas notícias. “Tem sido uma avalanche de pessoas a escrever e a dizer o quanto precisam destas notícias ou que as lêem e choram”, conta Allison Klein, responsável pelo blogue Inspired Life no concorrente The Washington Post. “As pessoas estão constantemente a agradecer por se mostrar algo que não as faz sentir mal”.


Entrevistas
O Fado Positivo tem uma postura clara: “farto do bota-abaixismo. Farto dos maus agoiros, o derrotismo e os fatalismos. Farto do discurso do coitadinho. Farto do discurso político vigente da desgraça iminente, apenas interrompido durante os anitos em que se está no poder. Farto da táctica política do ‘quanto pior, melhor’. Farto duma imprensa que vasculha entre relatórios gigantescos até encontrar uma nota de rodapé com uma má notícia, e que apresenta os dados no modo mais sensacionalista possível. Farto duma opinião pública que considera que qualquer má notícia é 100% objectiva e qualquer boa notícia é uma manipulação do governo. Farto do ‘dantes é que era’, o ‘isto está cada vez pior’ e o ‘só neste país’. Farto dos velhos do Restelo. Este blogue é optimista. Ponto final”.

1) porque razão lançou o seu site de “notícias positivas”?
Por curiosidade profissional leio muitos relatórios estatísticos e ficava espantado pela falta de imparcialidade dos orgãos de comunicação social (OCS). Dados claramente positivos não são muitas vezes noticiados, sendo que há jornalistas que escavam e escavam até encontrar um ângulo negativo quando as notícias são boas. Todos sabemos que a desgraça vende mas os OCS têm a obrigação de tanto publicar os dados maus como os bons – e não o fazem.
O meu blogue foi lançado para divulgar o lado bom que eu não via aparecer nos OCS.

2) o site foi criado antes de ocorrerem as notícias diárias sobre a pandemia do COVID-19. Já nessa altura considerava existirem demasiadas “notícias negativas” nos OCS?
O blogue começou em 2009 e tenho divulgado ininterruptamente as boas notícias que encontro (não as procuro ativamente, diga-se).
Desde 2014 que comecei a apostar mais nas redes sociais (Twitter e Facebook) que na minha página.
Sim, considero que o negativo tem mais destaque que o positivo equivalente.

3) qual dos meios (TV, imprensa, online, etc.) considera optar mais notícias pessimistas?
Há profetas da desgraça nos vários meios, não vejo diferença entre esses canais. Bom, online pela facilidade de abrir algo, há vários pseudo-jornais claramente piores.
O que há são certos OCS que só vivem disto; CMTV e CM são um bom exemplo.

4) a função dos OCS não é dar todo o tipo de notícias, boas ou más, variada?
Exatamente! Não poderia concordar mais. Infelizmente não é o caso. Um excelente exemplo são os dados económicos mensais: num mês em que Portugal esteja no Top3 europeu, isso nem aparece numa notícia secundária. No mês seguinte está no Bottom3, tem destaque de primeira página e abertura de noticiário.

5) o facto de omitir notícias negativas não pode ser visto nos OCS como uma forma de censura?
Num OCS clássico, claramente que sim. Espero que nunca aconteça.
Mas não me chocaria que houvesse algum OCS que, deixando explícito que apenas se foca no positivo, que o fizesse.
O que é uma forma de censura é, sob a capa de imparcialidade, noticiarem apenas um dos lados (seja um ou outro).

O Copo Meio Cheio tenta mudar “a percepção do ‘português médio’, que acha que vive no pior país do mundo, onde tudo é mau e só ‘os outros’ parecem olhar para nós de forma positiva”.

1) porque razão lançou o seu site de “notícias positivas”?
O Copo Meio Cheio foi inspirado por uma conta que sigo no Twitter, chamada Fado Positivo (que tem também uma página no Facebook). A ideia foi criar um contraponto à torrente de notícias negativas que enche as redes sociais, nomeadamente o Facebook. Enquanto as “boas notícias” são muitas vezes apenas “fait-divers”, a quantidade de notícias negativas é substancial. No entanto, por vezes, é apenas uma questão de perspetiva: ou seja, de ver efetivamente a realidade pela vertente do “copo meio cheio”.
Penso que, de uma maneira geral, na sociedade portuguesa – e, sobretudo, na caixa de ressonância que pode ser o Facebook – há uma perceção extremamente distorcida do país: que é pouco democrático (o contrário é verdade), que é pouco seguro (idem), que os nossos estudantes são burros (ibidem), que o nosso SNS não presta… O Copo Meio Cheio dá destaque às notícias que demonstram que estas ideias preconcebidas não correspondem à realidade.

2) o site foi criado antes de ocorrerem as notícias diárias sobre a pandemia do COVID-19. Já nessa altura considerava existirem demasiadas “notícias negativas” nos OCS?
Uma das primeira coisas que aprendi quando cheguei ao jornalismo, nos anos 80, foi que “boas notícias, não são notícia”. É um exagero, claro, mas é assim – e não apenas em Portugal, é assim em todo o mundo. As manchetes raramente são feitas com notícias positivas. No caso português, em particular, há até uma ideia de que se estamos a dar uma notícia positiva – sobretudo com temas de política e/ou economia – é porque estamos a “fazer um frete” ao poder, seja ele de esquerda ou de direita. Os media tendem a colocar-se numa posição de contrapoder – e isso é, em si mesmo, uma boa coisa – mas, no limite, isto acaba por suscitar esta tendência a procurar o negativo em tudo…
Os portugueses adoram dizer, por tudo e por nada, “isto, só neste país”. Mas a torrente de notícias sobre o COVID-19 tem, quanto a mim, uma vantagem surpreendente (uma perspetiva de “Copo meio cheio”, no fundo!) que é o facto de que, pela primeira vez na história, os portugueses terem sido afetados por um acontecimento de consequências gravíssimas ao mesmo tempo do resto do mundo. E, de repente, perceberem várias coisas: que países bem mais ricos e “desenvolvidos” (as aspas são importantes…) do que Portugal têm, afinal, sistemas de saúde que não são melhores do que o nosso; que os portugueses (enquanto povo) não são nenhuns imbecis (ou, pelo menos, não são mais imbecis do que os outros!), que os nossos políticos, no Governo mas, também, na oposição, são bem mais responsáveis do que parecem ser na maioria dos outros países… E por aí fora. Acho que enquanto todos nós, como sociedade, nos lembrarmos disto, não vamos tão depressa dizer “isto, só neste país”.

3) qual dos meios (TV, imprensa, online, etc.) considera optar mais notícias pessimistas?
Não acho que haja diferenças significativas em termos de “tipo” de meio/canal. E depende muito de quem está no poder. Mas, para nos reportarmos aos anos mais recentes, com o governo PS, penso que é absolutamente claro que as notícias mais negativas vêm dos media (de qualquer tipo) conotados com a área política mais à direita. Pior: por vezes, não se limitam a dar más notícias (estão no seu direito!): quando não as têm, também inventam…

4) a função dos OCS não é dar todo o tipo de notícias, boas ou más, variada?
Certamente que sim. Mas o problema é exatamente esse: há um peso excessivo de notícias negativas. E, já agora, pouco variadas… Aliás, basta ver como, ao longo dos anos, se foram reduzindo as páginas dedicadas à cultura ou à ciência e tecnologia, canibalizadas por um crescente número de páginas dedicadas à opinião (uma praga generalizada na imprensa portuguesa, muitas vezes indistinguível, por parte dos leitores, de conteúdo jornalístico) ou ao desporto – neste caso, e de forma esmagadora, apenas futebol.
Além disso, há também uma “editorialização” das más notícias: o mesmo meio até pode dar uma quantidade de notícias “equilibrada” em termos de número; contudo, se uma má notícia faz a manchete do jornal com desenvolvimento nas páginas centrais e as “boas notícias” são breves escondidas no canto inferior direito de uma página par…

5) o facto de omitir notícias negativas não pode ser visto nos OCS como uma forma de censura?
Certamente. Tal como omitir notícias positivas também o é. Como expliquei acima, o problema não é dar “só” boas ou más notícias; é, também (e sobretudo) a forma como elas são destacadas (ou não). No caso do Copo Meio Cheio, limito-me a fazer “posts” com base em notícias dadas pelos principais OCS com presença online. E a verdade é esta: todos os dias, tenho de me esforçar MUITO para encontrar as notícias positivas, mas não porque elas não existam! Elas estão lá, mas, normalmente, sem destaque e “no fundo da página”… O meu objetivo é dar às notícias positivas a visibilidade normalmente guardada apenas para o que é negativo.

* Foto: Wasfi Akab/Flickr (CC BY-NC-ND 2.0)

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.