Os perigos da desinformação e de negligenciar as minorias linguísticas numa pandemia

A rápida mutação da pandemia do coronavírus significa que os governos e as autoridades de saúde precisam de agir rapidamente. Porém, o aconselhamento médico – e os pedidos de ajuda – está a ser dificultado pelas barreiras linguísticas e a desinformação online. Melhorar a comunicação para as comunidades vulneráveis, em particular, tornou-se uma corrida contra o tempo.

A pandemia levou a cerca de metade da população receber ordens governamentais para ficar em casa. O uso dos media sociais disparou. O uso do serviço de mensagens do Facebook aumentou mais de 50% nos países mais atingidos. O uso diário do Twitter cresceu 23%.

Mas todo este aumento de tráfego pode ser prejudicial. De acordo com um relatório da OCDE de 2018, um acesso mais amplo à Internet exacerbou a informação errada (“misinformation”). O relatório constatou que a desinformação desvaloriza as informações de especialistas e pode ter um impacto “devastador” na ordem pública, à medida que os governos lutam para corrigir rumores.

“Acho que um dos problemas com os media sociais é que é totalmente descontrolada durante uma crise”, refere Harith Alani, do Knowledge Media Institute da Open University (Reino Unido).

A incerteza em torno do coronavírus significa que as pessoas podem ser vítimas da desinformação online, diz. “A desinformação tende a ser construída em torno dessas lacunas no nosso conhecimento ou a partir de certas emoções e medos”. E “as pessoas começam a diminuir a barreira daquilo em que normalmente acreditariam”.

Alani descobriu que algumas das histórias falsas sobre o coronavírus incluem o alho fresco como cura, os mosquitos serem transmissores da doença, o vírus a morrer acima dos 25 graus de temperaturas ou ser uma arma biológica fabricada pelo homem.

“A maioria das pessoas não entende que os vírus estão sempre a evoluir e podem espalhar-se rapidamente da forma como são, e preferem uma explicação mais fácil, como se fossem criados pelo homem”, refere.

Ele adverte que nem todas as informações falsas são facilmente refutadas. “O perigo é que, se as pessoas acreditarem nelas, provavelmente não tomarão outras precauções eficazes”.

Resposta
Alani e a sua equipa estão a recolher histórias falsas sobre o coronavírus como parte de um convite de emergência de 47,5 milhões de euros da Comissão Europeia para conter a pandemia. A equipa trabalha num projecto chamado HERoS, que analisa como certas cidades e países da Ásia e da Europa estão a lidar com a pandemia quando se trata de comunicar com o público.

O projecto quer perceber como a resposta e a governança da crise podem ser melhoradas.

A sua equipa usa algoritmos automáticos para procurar nos media sociais conteúdo relacionado com o coronavírus e compará-lo com fontes fiáveis factuais, como a Organização Mundial da Saúde.

O projecto visa permitir aos decisores políticos e investigadores ver mais rapidamente como a desinformação é partilhada à medida que a pandemia se espalha. Também está a analisar como diferentes governos tentam combater as informações erradas relacionadas com o coronavírus, como a campanha relançada no Reino Unido “Don’t Feed the Beast” e a sua respectiva “task force“. Alani espera que o projecto forneça mais evidências sobre a eficácia de tais políticas para interromper a desinformação.

As ferramentas algorítmicas vêm do trabalho que Alani está a fazer como parceiro no projecto Co-Inform e foram concebidas para ajudar cidadãos, jornalistas e decisores políticos a combater a desinformação. A pandemia, diz ele, mostra a necessidade de aumentar a “literacia da informação” das pessoas.

O projecto trabalha com instituições sem fins lucrativos de verificação de factos como a organização FactCheckNI na Irlanda do Norte. O algoritmo da Co-Inform pode detectar desinformação online e explicar rapidamente porque são essas informações enganosas ou incorrectas.

O projecto lançou uma primeira aplicação Web chamada de MisinfoMe, que permite às pessoas pesquisarem as informações erradas que podem estar vinculadas a uma conta do Twitter. Também está a desenvolver um “plug-in” de browser que alertará as pessoas de que um site ou hiperligação vem de uma fonte não fiável.

No projecto anterior COMRADES, a equipa de Alani também treinou algoritmos para detectarem automaticamente o que as pessoas pedem nos media sociais durante as crises. Um parceiro do projecto, uma equipa da Universidade de Sheffield, desenvolveu um algoritmo para verificar a veracidade dos rumores de textos nos media sociais numa situação de crise. Os algoritmos, disponíveis no site do projecto, atraíram várias agências de ajuda para terem versões personalizadas, refere.

Diferentes línguas
Embora os algoritmos do COMRADES sejam multilingues, eles podem ser impedidos se as comunicações oficiais dos países negligenciarem os residentes que falam um idioma não oficial. “O que se vê durante a crise é que o conteúdo ou as mensagens são provenientes de pessoas em muitas línguas diferentes, mesmo dentro do mesmo país”, nota Alani.

Sharon O’Brien, professora de Estudos de Tradução da Dublin City University (Irlanda), diz que, globalmente, poucas políticas de crise reconhecem que a comunicação precisa de estar em mais do que os idiomas oficiais para alcançar rapidamente a população multicultural e multilingue num país.

“A comunicação oportuna e precisa também significa num idioma que pode ser entendido pelas minorias dentro de um país”, considera.

Ela e a equipa do projecto INTERACT [que inclui a portuguesa Unbabel] analisaram como os países se comunicam com comunidades vulneráveis ​​cultural e linguisticamente em tempos de crise. Isso inclui migrantes, refugiados, turistas, comunidades de língua por sinais e pessoas em viagens de negócios. A sua equipa foi consultada por responsáveis em Wuhan no final de Janeiro para garantir que eles seguiam as melhores práticas para estrangeiros na cidade.

Essas práticas incluíam o recrutamento de estudantes de tradução das universidades locais e a ligação com embaixadas para ajudar nas traduções. Vídeos de informação pública foram legendados em vários idiomas.

Na sua opinião, os países europeus não traduziram os conselhos médicos para as minorias linguísticas com suficiente antecedência. “Nós já podíamos ter começado a traduzir as informações básicas do tipo ‘como evitar’ (contrair o coronavírus) e (na Europa) não o estávamos a fazer”.

O significado do aconselhamento oficial também pode perder-se quando é traduzido literalmente. “Com o Covid-19, começamos a ouvir que ‘distanciamento social’ não é um conceito que se traduz facilmente para outras culturas”, disse ela, explicando que o termo anglófono se torna ambíguo entre as culturas de língua não inglesa que regularmente socializam colectivamente.

Se as pessoas não entenderem as mensagens, diz O’Brien, é mais provável que elas contraiam o vírus e o espalhem.

A tradução inadequada coloca muitos em risco no cenário multilingue da Europa. Na Polónia, o governo omitiu o facto de que o teste e o tratamento do coronavírus também eram gratuitos para os estrangeiros nos documentos traduzidos. Os médicos do país pediram ao governo que divulgue essas informações. Uma barreira linguística impediu que um homem do Bangladesh recebesse ajuda após ligar para os serviços de emergência em Madrid, na Espanha. Mais tarde, morreu em casa. Na Alemanha, os activistas criticaram a falta de informações oficiais na língua de sinais alemã.

Acelerar
O projecto de O’Brien analisou as directrizes oficiais de resposta a emergências da Irlanda, Reino Unido, Estados Unidos, Japão e Nova Zelândia para ver quais as políticas multilingues de comunicação de crises que serviam melhor as comunidades de imigrantes e refugiados. Um dos objectivos do projecto era mostrar que políticas aceleram a comunicação entre os socorristas e os que procuram ajuda.

Dos cinco países analisados, O’Brien disse que os Estados Unidos desenvolveram a mais avançada política de tradução de crises. O Department for Homeland Security dos EUA, responsável pelos esforços de socorro em desastres, possui uma lista de intérpretes que podem ser chamados em caso de emergência. “Foi a melhor prática que encontrámos”, afiançou.

Por outro lado, revelou que os mal preparados serviços de saúde na Europa lutam por intérpretes durante uma crise. A abordagem de um país depende da maturidade dos seus lobbies de tradução e regras.

Ela deu o exemplo da Irlanda, cuja falta de política de tradução levou hospitais e advogados a pedirem a familiares, até crianças, para interpretar. Isso acontece ad-hoc e não apenas em tempos de crise, diz. “Imagino que a situação piorou agora que os números (do coronavírus) nos hospitais estão a aumentar”.

Problemas éticos também surgem quando pessoas não treinadas são solicitadas a traduzir. “Como a pessoa contratada está no início, isso coloca um grande stress”, diz O’Brien. “Podem-se ver coisas, ouvir coisas que não se está preparado para ver e ouvir”.

O’Brien observa que as comunidades surdas podem ser uma das mais vulneráveis numa crise, pois a linguagem gestual é frequentemente mencionada apenas na aprovação das directrizes de resposta a emergências – embora observe que o governo irlandês tem um serviço de interpretação de coronavírus para surdos.

Tradução por máquina
As ferramentas de tradução por máquina podem fazer a diferença, segundo O’Brien, e devem ser desenvolvidas para os idiomas locais antes da próxima crise.

O projecto publicou os seus próprios guias em vídeo “Translation 101“, desenvolvidos em conjunto com a Cruz Vermelha da Nova Zelândia, para qualquer comunidade voluntária saber o básico da tradução e da interacção com a tradução automática.

“Estas são para organizações que sabemos que estão a pedir às pessoas que traduzam numa crise, mas essas pessoas não têm formação”, declara O’Brien. Ela espera que os voluntários legendem o conteúdo do curso para as suas próprias comunidades linguísticas.

“Se pudermos chegar a um ponto em que a tradução não é um reflexo tardia mas faz parte do planeamento das crises e parte integrante da política de comunicação de crises, acho que teríamos dado um grande passo em frente”.

* Texto original de Fintan Burke publicado na Horizon, the EU Research and Innovation (CC BY 4.0). Fotografia: Città di Parma/Flickr (CC BY-SA 2.0).

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