A especulação sobre o Covid-19: das margens para o centro

O facto de o presidente Donald Trump ter atacado a emissora oficial de radiodifusão estatal dos EUA, Voice of America (VoA), como órgão de propaganda do governo chinês (NPR, 10/4/20) é um testemunho de quão importante é a retórica anti-China para a sua estratégia política em relação à pandemia do Covid-19. Em contexto, a VoA simplesmente não é agressiva o suficiente para promover a narrativa que o governo deseja divulgar. Mas a administração tem outros caminhos.

O charlatanismo trumpista assume algumas formas-chave, uma sendo que o governo chinês é responsável por libertar o vírus como um acto de guerra de germes, e a outra é que o conhecimento científico na resposta à crise é uma fraude liberal, que pode prejudicar desnecessariamente a economia. Não podemos desconsiderá-las como teorias da conspiração lunáticas nas margens. Estas especulações, rumores e mentiras directas têm uma forma de começar nos media partidários e crescer para um nível em que afectam o nosso discurso político e a saúde pública.

Por exemplo, o South China Morning Post (12/4/20) publicou uma teoria divulgada por Bill Gertz, do Washington Times, cujo lema é “Real. Fiável. Notícia.”A sua notícia foi baseada quase inteiramente num especialista em guerra biológica israelita, um Dany Shoham. Ele destacou que o epicentro do surto ficava a apenas 32 quilómetros do Instituto de Virologia de Wuhan, que abriga o único laboratório de biossegurança ao nível P4 da China, a classificação de mais alto nível dos laboratórios que estudam os vírus mais mortais do planeta.

Essa teoria é levada mais longe por Tyler Durden, do blogue de direita Zero Hedge. Ele identificou um investigador da China continental no instituto de Wuhan apenas porque é um “pioneiro da pesquisa global do sistema imunológico de morcegos” e o seu currículo o torna bem qualificado para criar uma arma biológica como o novo coronavírus. O Twitter suspendeu a conta do blogue após a publicação dos detalhes pessoais do cientista.

Num registo menos estranho, a Radio Free Asia, financiada pelo governo dos EUA, retransmitiu uma notícia de 2015 sobre o instituto de Wuhan como o laboratório de pesquisa de vírus mais avançado da China.

Num artigo da revista judaica Tablet (6/4/20), o estudante de engenharia nuclear Khaled Talaat explora a ideia de que o vírus pode ter sido o resultado de bioengenharia. É essencialmente uma especulação, com a negação plausível no final: “é possível que o vírus tenha origem ou evoluído completamente na natureza sem intervenção humana na transmissão”. No entanto, o artigo apresenta a teoria alternativa de que a pandemia não foi, de facto, o resultado de um salto zoonótico, mas algo muito mais sinistro.

É assim estranho porque uma revista de interesses judaicos publicaria tal coisa, considerando que parece estar fora do seu âmbito habitual. Mas, como observa David Shasha, do Center for Sephardic Heritage, dada a política geral pró-Israel da revista, segue-se que a sua linha editorial ecoaria o actual governo. O “artigo reflete o meme de Wuhan”, disse ele, apontando para a teoria na Internet de que um laboratório de Wuhan é responsável pelo vírus. “É uma confluência muito curiosa que aponta para conluio”.

A Democracy Now! (16/4/20) questionou profundamente a noção de que o vírus poderia ter vindo de um laboratório, com o ecologista Peter Daszak a dizer a Amy Goodman: “Trabalho com esse laboratório há 15 anos… Não havia isolamento viral no laboratório. Não havia vírus cultivados relacionados com o coronavírus 2 do SARS”.

Mas nessa altura já a história tinha chegado à Fox News (14/4/20) e, mais tarde, apareceria na CNN (16/4/20), que informava como “o governo dos Estados Unidos” (o que cobre um vasto espectro) está “a analisar a possibilidade de o novo coronavírus se ter disseminado a partir de um laboratório chinês em vez de um mercado” – uma formulação que permitia à estação de televisão espalhar um boato sem necessidade de apresentar nenhuma prova. A CNN observou que a teoria tinha sido “dinamizada por apoiantes do presidente, incluindo alguns republicanos do congresso”, numa ilustração de como as notícias que começam nas margens podem encontrar advogados políticos e entrar nos media tradicionais.

A Newsweek (29/3/20) já tinha promovido especulações sobre a duplicidade chinesa, reportando observações de cremações em Wuhan que sugeriam como o governo estava a mentir sobre o número de mortes com o Covid-19. (Em Abril, a China aumentou em 50% a contagem de mortes do Covid-19 em Wuhan – segundo a NPR (17/4/20) -, assim como o número de mortos no estado de Nova Iorque aumentou 60% quando casos em falta foram adicionados (BBC, 15/4/20).

De novo, a notícia da Newsweek deu a si mesma uma apólice de seguro: “a matemática baseada nas urnas, suposições e media sociais não são de fiar. Mas oferecem uma estimativa do número real de mortes na cidade e credibilizam o cepticismo defendido por muitos sobre a fiabilidade do registo oficial de mortes do governo chinês pelo Covid-19 em Wuhan”.

Mas, novamente, entrega-se à propaganda, apesar de mencionar a fraqueza das suas próprias provas. O parágrafo seguinte mostra quão facilmente essa especulação pode levar ao fervor anti-China e anticomunista: “o senador republicano Tom Cotton, do Arkansas, citou as entregas de urnas no domingo para acusar a China de deturpar o impacto do vírus. ‘Uma única casa mortuária em Wuhan encomendou supostamente mais urnas em dois dias do que o Partido Comunista Chinês registou de mortes totais em todo o país’, escreveu no Twitter. ‘Tenho a certeza de que está chocado com a evidência das mentiras chinesas'”.

Curiosamente, o serviço de media norte-americano Radio Free Asia (27/3/20) publicou a mesma história dois dias antes. A Radio Free Asia existe para promover narrativas apoiadas pelos EUA na Ásia; ao invés de ver essas teorias como parte da margem partidária, elas devem ser entendidas como penetrando nos media estatais dos EUA, passando pelos media tradicionais até ao Congresso.

E o ângulo anti-China da história da Radio Free Asia não existe por acaso. A 8 de Abril, a sua conta no Twitter partilhou um desenho animado da China usando o Zoom, a plataforma digital de reuniões que se tornou popular para quem trabalha em casa, para espiar nos Estados Unidos. Este tipo de insinuação dos media tem consequências reais para a política externa dos EUA na Ásia e pode irritar ainda mais o fanatismo anti-asiático que está a aumentar nos EUA à medida que a pandemia avança.

A saúde pública também é afectada pela especulação mediática. Charles Bethea, da New Yorker (12/4/20), reportou vários artigos cientificamente duvidosos, publicados pelo órgão de direita Federalist, desafiando conselhos de especialistas sobre o distanciamento social e a necessidade de encerrar empresas.

Bethea disse à FAIR que os chamados “relatórios médicos” em “publicações partidárias têm mais probabilidade de permear os leitores tradicionais durante uma pandemia, porque os leitores estão tão extraordinariamente desesperados” e meios como o Federalist envolvem-se em “manipulação deliberada e no comércio do medo, como sempre, mas num tempo de medo sem precedentes”.

Ele diz que “alguns de nós acreditam nestas notícias-lixo porque representam um tipo de bote salva-vidas afastado do paralisante momento presente”.

Na realidade, um inquérito da Pew descobriu que 30% dos americanos acreditam que o coronavírus foi criado num laboratório (CNN, 13/4/20).

Embora seja tentador ignorar isso como barulho nas margens, o governo escuta claramente os órgãos [de comunicação social] de extrema direita tanto ou mais do que os conservadores convencionais como o Wall Street Journal ou Fox a News e títulos como o The Hill (4/11/20) mostram que ele claramente suporta a ideia de diminuir as restrições e deixar os americanos abertos à exposição viral. E a América de direita leva a sério artigos como esses, pelo que a ideia de mesmo que seja apenas uma minoria de americanos ignorar o distanciamento social demasiado cedo ainda coloca todo o país em risco de ameaça.

Muito parecido com a própria pandemia, esse problema certamente irá piorar antes de melhorar.

* Texto original de Ari Paul, traduzido do original na FAIR (sob licença CC BY-NC-ND 4.0). Foto: Dave Pell.

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