Governança dos dados numa era algorítmica (e pandémica)

“O que significará a primeira pandemia da era algorítimica para a governança dos dados”? A questão é abordada por Carly Kind, directora do Ada Lovelace Institute, considerando como a analítica de dados, os sistemas algorítmicos e a aprendizagem por máquina (“machine learning”) estão a ser desenvolvidos.

“A disseminação do vírus está a ser dramaticamente alterada pela compreensão de como os dados e a inteligência artificial podem ser usados na saúde pública e na formulação de políticas: desde alertas para as autoridades à existência do vírus contagioso em Wuhan, à sequenciação do código genético do vírus, os dados e a IA estão a informar o desenvolvimento de ferramentas de diagnóstico, projectos de vacina e modelação epidemiológica“, refere.

O rastreamento de contactos em multidões e o registo de sintomas têm igualmente um grande potencial para moldar e orientar as respostas dos governos à epidemia.

No entanto, “debaixo das soluções de alta tecnologia, a resposta ao coronavírus está a expor as falhas no ecossistema de governança dos dados. Está a trazer ao cimo as realidades com duas décadas do que Shoshanna Zuboff denominou de ‘capitalismo da vigilância‘, que deixou as empresas do sector privado na posse de grande parte dos dados do mundo e com os meios para deles extrair valor”.

As empresas tecnológicas lideraram esta acumulação e mercantilização dos dados desenvolvnedo “vastas infra-estruturas digitais que rastreiam, monitorizam e acumulam dados pessoais em escala. Aproveitando o investimento de longo prazo feito nos sistemas públicos de saúde, as empresas de tecnologia foram capazes de alavancar a economia de dados para dominarem o mercado da saúde: Google, Facebook, Apple e Amazon, todas entraram no sector da saúde em anos recentes”.

No âmbito da actual pandemia, o fluxo de dados pessoais também irá ser capturado pelo sector privado, no âmbito de compromissos que desesperados governos tentam estabelecer para usarem ferramentas tecnológicas de que não dispõem.

Existe uma percepção limitada sobre o que significa o acesso monopolista a esses dados pessoais, “incrivelmente valiosos, durante tempos de crise e fora deles”.

Neste caso, colocam-se outras questões: “Quem pagará e beneficiará das inovações orientadas aos dados, como vacinas e ferramentas de diagnóstico? O investimento público produzirá bens públicos? Como podemos construir infra-estruturas de dados que reconheçam o papel dos dados como um bem público? Podemos prever um sistema melhor e mais equitativo de governança de dados que rebalance o poder no ecossistema” dessa governança e trate os dados como um bem comum para benefício público?

Em Janeiro, o Ada Lovelace Institute fez algumas propostas no seu relatório “Rethinking Data“, onde aponta para uma defesa do valor social dos dados, para combater a injustiça nos dados e as assimetrias de poder, promover e capacitar a administração de dados, defender uma infra-estrutura que permita a inovação orientada a objectivos e, por fim, desenvolver direitos e regulação dos dados.

* Foto: Bernard Hermant

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