Profissionais de saúde enfrentam abusos contra a ciência. Isto tem que parar.

Os profissionais de saúde em todo o mundo estão a ser alvo de pessoas que procuram inibir a medicina baseada na ciência. Eles merecem melhor.

Médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde são os heróis reconhecidos da pandemia de Covid-19. Então, por que tantos comentadores online querem aparentemente Anthony Fauci morto?

Fauci, a principal voz médica do governo dos EUA sobre a pandemia e director do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, é agora obrigado a ter segurança pessoal devido a um conjunto de ameaças à sua segurança. As fontes online anónimas dessas ameaças caracterizam-no absurdamente como oponente de Trump e definem as suas recomendações de saúde pública para conter o novo coronavírus como impreciso e reflexo de uma agenda politizada agenda. Estas alegações provocaram uma série de injúrias biliosas online contra Fauci, com “hashtags” como #FauciFraud e #FireFauci.

As difamações, ameaças e desinformação online contra um funcionário da saúde pública seriam obscenas em qualquer circunstância – e são-no especialmente agora, à luz das prudentes medidas e precauções baseadas em ciência com que Fauci tem defendido a mitigação da propagação do coronavírus. Mas estas calúnias também sublinham como os profissionais de saúde se tornaram alvos de pessoas – oficiais e não oficiais, nos EUA e em todo o mundo – que procuram inibir e minar a medicina sólida e baseada em provas que salva vidas e alivia o sofrimento.

A primeira destas ameaças foi vista na perseguição do governo chinês aos denunciantes médicos no epicentro original da pandemia na cidade de Wuhan. Incluem Li Wenliang, cujo aviso público a 30 de Dezembro de 2019 sobre a severidade e contagiosidade do novo coronavírus resultou na sua detenção policial, ameaçando-o em silêncio.

Outro denunciante de Wuhan actualmente ameaçada é Ai Fen. Ela revelou publicamente há duas semanas que funcionários do governo a tinham silenciado e a outros médicos, impedindo-os de revelar publicamente a gravidade do surto. Ai desapareceu e presume-se que tenha sido detida pelas autoridades. Revelações recentes de que o governo chinês tem deliberadamente deturpado a gravidade do surto e o número de mortes na China perpetuam um ambiente em que os médicos chineses continuarão a ter de escolher entre honrar a sua ética profissional e arriscarem-se a represálias oficiais por o fazerem.

As ameaças dos governos contra os trabalhadores da saúde, apelando a abordagens médicas sólidas e baseadas na ciência para enfrentar a pandemia, não se limitam aos autores chineses. O presidente Jair Bolsonaro submeteu o seu Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, a um criticismo intimidatório e ameaças de afastamento por questionar a relutância de Bolsonaro em adoptar medidas essenciais para mitigar o surto entre os brasileiros. Bolsonaro procurou minar as medidas de encerramento dos estados brasileiros destinadas a “achatar a curva” da infecção e apelou ao regresso dos brasileiros ao trabalho. Os apelos de Mandetta para que isso iria resultar na perda catastrófica de vidas humanas pelo Covid-19 – algo para que ele já avisara -, iria “colapsar” o sistema de saúde do país até ao final de Abril – levou Bolsonaro a afirmar: “Alguns irão morrer. Sinto muito. Isso é a vida”.

Outros líderes estatais estão a demonstrar desprezo pela perícia e pela vida dos profissionais de saúde, ignorando os seus apelos a uma resposta mais robusta do Estado à escassez mundial de equipamento médico de protecção individual (EPI), como as máscaras N95. Um exemplo flagrante desse desrespeito calunioso veio na semana passada do presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte, que denominou os trabalhadores de saúde contratados e que até morreram de Covid-19 no cumprimento do dever “sortudos” porque “morreram pelo país”.

Tantas reacções politizadas e anti-científicas contra os profissionais de saúde que procuram conter uma ameaça mortal à saúde pública têm implicações perturbadoras e de grande alcance – e estão por toda a parte. Mesmo nos EUA, têm surgido notícias de que o pessoal hospitalar está ameaçado de despedimento se falar publicamente da falta de recursos – máscaras, luvas e até testes para si próprio e para as suas crescentes listas de doentes. E não se trata apenas de ameaças: como a Bloomberg relatou na semana passada, isso já começou. “Os hospitais estão a amordaçar enfermeiros e outros profissionais de saúde numa tentativa de preservar a sua imagem”, disse Ruth Schubert, porta-voz da Washington State Nurses Association. “É ultrajante”.

Este é um momento em que precisamos que os nossos profissionais de saúde estejam plenamente envolvidos no seu trabalho e que os seus receios e preocupações sejam tidos na maior consideração. As condições abordadas por Fauci e os denunciantes dos cuidados de saúde na China, bem como o rol de preocupações dos profissionais de saúde nas Filipinas e no Brasil, podem ter um efeito arrepiante pernicioso nos profissionais de saúde a quem se confia para assegurarem as melhores práticas de saúde pública na abordagem da pandemia.

Temos de estar com os médicos, enfermeiros, especialistas em saúde pública e outros que estão a liderar os esforços para enfrentar a pandemia. E isso exige que a ciência médica, as melhores práticas de saúde pública – e os profissionais de saúde que as implementam – sejam apoiados, não ameaçados ou silenciados.

* Artigo de opinião de Phelim Kine (responsável da Physicians for Human Rights, organização norte-americana sem fins lucrativos que utiliza a medicina e a ciência para documentar e defender contra atrocidades em massa e violações dos direitos humanos a nível global), originalmente publicado na Undark. Fotos de Anthony Fauci por NIAID/CC BY 2.0 e Phelim Kine da PHR.

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