10 recomendações para lidar com a desinformação

A desinformação, ou informações falsas, não verificadas, destinadas a enganar, não são novas. Mas a ubiquidade das plataformas digitais significa que ela se pode espalhar mais rapidamente e ir mais longe do que nunca antes.

Para os jornalistas, a desinformação apresenta um desafio único. Embora sejam orientados para a missão de expor irregularidades para responsabilizar o poder, também são um dos alvos mais comuns das campanhas de desinformação. Sem perceber, os jornalistas podem ampliar a desinformação simplesmente fazendo o seu trabalho: noticiando-a. Para minimizar esse risco e aderir à outra missão de ajudar os leitores a entender o mundo em seu redor, os jornalistas devem recorrer às seguintes recomendações ao noticiar sobre a desinformação online.

1. Avalie se um “ponto de inflexão” foi atingido
Sempre que se noticia sobre a desinformação, está-se necessariamente a amplificá-la. Para evitar fornecer oxigénio a conteúdo problemático, faça um teste de “ponto de inflexão” e determine se o conteúdo vai para lá do grupo principal de pessoas que o discutem. Se a desinformação estiver contida numa comunidade online de nicho, como um fórum de mensagens anónimas, o “ponto de inflexão” não foi atingido; noticiar isso, mesmo para o desmascarar, servirá apenas para lhe dar mais visibilidade e legitimidade. Se a desinformação se espalhou para um público mais amplo – talvez por várias plataformas ou tendo um elevado nível de engajamento online -, provavelmente atingiu o “ponto de inflexão” e merece ser noticiado.

2. Falar com os peritos (mas ser também um!)
As tácticas de desinformação estão sempre a evoluir, e os grupos adversários estão constantemente à procura de novas formas de manipular jornalistas. É crucial, portanto, consultar especialistas que estudaram a desinformação e a manipulação de media – especialmente quando se está a ter dificuldades em perceber se algo ultrapassou ou não um “ponto de inflexão”. Mas melhor do que consultar peritos, no entanto, é tornar-se um especialista. Logo após a eleição presidencial francesa de 2017, que esteve repleta de desinformação e revelações direccionadas, a empresa de inteligência de media social Storyful pediu às redacções para designarem um “correspondente 4chan“. O título do cargo nunca funcionou realmente, mas a lógica por trás dele ainda se mantém: a desinformação deve ter o seu próprio ritmo, e as redacções precisam de dedicar recursos e formação a quem é encarregado de se especializar neste cenário em constante mudança.

3. Praticar a amplificação estratégica
Ao noticiar sobre a desinformação, é imperativo avaliar os custos e os benefícios de amplificar uma voz, perspectiva ou incidente específico contra o bem público mais amplo. Sempre que se conta uma história, escolhem-se quais os detalhes a incluir, quais as pessoas a entrevistar e qual o ângulo. Por outras palavras, está-se sempre a amplificar certos elementos de uma história e a deixar outros de fora. A amplificação estratégica pede que se façam as mesmas convocações editoriais ao escrever sobre conteúdo problemático, mas no contexto do que servirá ao bem público, em vez de simplesmente atrair a maioria dos leitores. Os jornalistas têm uma longa história de abordar a cobertura dessa maneira; na década de 1970, por exemplo, muitos jornalistas recusaram-se a cobrir os eventos do Ku Klux Klan, enquanto outros reformularam as histórias para incluir perspectivas das vítimas do grupo de ódio. Actualmente, também se pode praticar a amplificação estratégica colocando em primeiro plano as notícias sobre o impacto da desinformação numa comunidade específica, bem como quais são as informações factuais, em vez do que os fornecedores do conteúdo problemático têm a dizer.

4. Não especule ou inlacione a importância de um exemplo único
Há uma grande diferença entre uma campanha de desinformação coordenada e disseminada e algumas instâncias de conteúdo problemático. Quando se relata o último como se fosse o primeiro caso, corre-se o risco de levar grupos adversários a alvos vulneráveis ​​(por exemplo, uma pessoa, uma política, um evento) e minar a confiança do público nesses assuntos. Da mesma forma, as notícias que especulam ou exageram casos isolados de desinformação de forma desproporcionada podem dar impulso a uma crescente campanha de desinformação e atrair mais maus actores para a causa. Sempre haverá casos isolados de indivíduos a tentarem semear as dúvidas nas instituições fiáveis. Mas nem toda a tentativa é prova de “outro 2016” – ou seja, uma trama cuidadosamente elaborada para enganar grandes faixas da população e minar a nossa democracia [na eleição presidencial]. E, mais importante, nem todas as tentativas são bem-sucedidas. Especular sobre o quão severas ou generalizadas essas ameaças relacionadas com a desinformação podem ser, e depois apontar um único exemplo como evidência, torna mais provável que um único exemplo de desinformação aumente uma campanha legítima no futuro.

5. Evite títulos que repitam desinformação ou a enquadrem como pergunta
Repetir uma mentira nunca a tornará em verdade mas pode fazer as pessoas acreditarem que é. Estudos mostram que quando as manchetes que contêm uma falsidade são repetidas, é mais provável as pessoas acreditarem nelas, mesmo quando são contestadas pelos verificadores de factos [“fact checking”]. Isso porque a familiaridade pode ser, como observam os estudiosos de Yale, Gordon Pennycook, Tyron Cannon e David Rand, “um substituto atraente” da verdade. É também por causa do modo como as nossas memórias funcionam – ou seja, não tão bem em geral. Como disse o psicólogo Roddy Roediger numa entrevista em 2017 à Vox: “quando se vê uma reportagem que repete informações erradas e se tenta corrigi-las, é possível que as pessoas se lembrem das informações erradas, porque é realmente surpreendente e interessante, e não se lembram das correcções”. Isso pressupõe que as pessoas leiam a notícia completa. Um estudo mostrou que, como a maioria das pessoas partilha notícias nos media sociais sem as ler, é ainda mais importante evitar publicar manchetes que contenham desinformação ou apresentá-las como uma pergunta.

6. Verifique
Ao incorporar conteúdo gerado pelo utilizador nas suas notícias, é importante empregar recomendações e truques de verificação, como os descritos na First Draft News. Isso inclui o uso de pistas visuais para identificar onde uma imagem ou um vídeo foi registado e executar testes de manipulação com ferramentas de pesquisa de imagem reversa, como o TinEye, o Google Reverse Image Search e a extensão para browser RevEye Reverse Image Search. Também pode recorrer aos metadados dos media sociais para identificar sinais de alerta que, quando considerados em conjunto, podem indicar manipulação e comportamento não autêntico coordenado. Uma análise aos metadados pode incluir a pesquisa de identificadores noutras plataformas para verificar contas, usar APIs para verificar “geotags” [marcação geolocalizada], examinar a Wayback Machine para ver se os seguidores de uma conta cresceram a uma taxa relativamente normal e verificar os intervalos da colocação de textos para verificar se as contas estão a ter intervalos normais (por exemplo, para dormir) e não estão a serem colocados online em horários quase idênticos. Não existe um método de verificação infalível na era digital. O uso dessas ferramentas juntamente com uma dose saudável de cepticismo pode ajudar a reduzir a probabilidade de que a desinformação encontre caminho nas suas notícias.

7. Não incorporar ou hiperligar para conteúdo problemático, especialmente visual
Enquanto os agentes da desinformação são motivados por diferentes motivações ideológicas, políticas ou financeiras, muitos partilham um objectivo comum: ver as narrativas problemáticas que propagam chegarem aos media profissionais. Incorporar ou fazer hiperligações à desinformação – mesmo que o objetivo seja refutá-la – ajuda os fornecedores desses conteúdos na sua missão. As hiperligações em meios de comunicação profissionais permitem que conteúdo problemático alcance um público mais vasto. Entre o início de 2015 e Setembro de 2017, os tweets da fábrica de “trolls” da Rússia foram incorporados em 32 grandes meios de notícias americanos, segundo um estudo da Universidade de Wisconsin-Madison. Isso incluiu reputadas instituições como o The Washington Post, NPR e The Detroit Free Press, além de conhecidos títulos digitais como o BuzzFeed. Essa cobertura apenas promoveu o objectivo da Rússia de semear caos e confusão entre o eleitorado americano.

8. Evite usar a linguagem dos manipuladores
Os manipuladores dos media usam uma linguagem obscura e confusa para desviar a atenção das suas acções prejudiciais e objectivos. Os supremacistas brancos, por exemplo, alegaram que estão apenas a “trollar” como maneira de se esquivarem à responsabilidade de espalhar o ódio. Outra táctica popular entre grupos adversários é incentivar as pessoas a fazerem buscas de termos estrategicamente obscuros. Isso é chamado de “data void” [“vazio de dados”] e torna-se uma vulnerabilidade quando os manipuladores de media e agentes de desinformação optam por termos de pesquisa relativamente impopulares – como “crimes de preto em branco”, “actores de crise” ou “guerreiro da justiça social” – e criam conteúdo impreciso ou odioso para aparecerem nos motores de busca. Quando se usa a linguagem dos manipuladores, especialmente se ainda não é popular, corre-se o risco de integrar ideias perigosas e enganosas, ao mesmo tempo que se leva leitores curiosos a procurar e, por fim, a encontrar conteúdo problemático.

9. Repensar as desacreditações e a verificação de factos
Como mencionado anteriormente, os agentes de desinformação anseiam por qualquer tipo de cobertura mediática, mesmo que seja um desentendimento. Em 2017, por exemplo, quando manipuladores de extrema direita espalharam boatos sobre o então candidato à presidência da França Emmanuel Macron, o repórter da BuzzFeed Ryan Broderick documentou os utilizadores do 4chan a comemorarem as notícias a desmentirem as informações. Não é que a verificação tradicional de factos seja má; é insuficiente, especialmente para leitores que não confiam nas organizações que realizam essa verificação de factos. Uma maneira de re-imaginar a desmistificação numa era de manipulação sofisticada dos media é escrever sobre as técnicas dos manipuladores – por exemplo, “sockpuppetry“, “squatting” [ocupação em motores de busca] de palavras-chave e outras formas de “source hacking” para levar jornalistas a amplificar a desinformação] – mas não sobre a mensagem deles, como recomendou Jeff Jarvis, professor de jornalismo da City University of New York. Outra é abandonar a abordagem “mito versus facto”, que apresenta desinformação e factos lado a lado. Em vez disso, podem-se aproveitar as lições da “teoria da inoculação”, que procura pela antecipação das motivações por trás de uma campanha de desinformação e depois apresenta os factos. Isso é importante porque um estudo revelou que, com mensagens de “mito versus facto”, as pessoas têm maior probabilidade de se lembrar do mito. Por fim, é uma boa ideia garantir que qualquer desacreditação inclui metadados e outros sinais de SEO [optimização de motores de busca] que garantam que os motores de busca mostrem o seu conteúdo à frente do conteúdo dos manipuladores.

10. Contextualizar
As campanhas de desinformação não acontecem no vazio; elas estão enraizadas na história, cultura e política tanto de autores e de alvos. Quando se toma a decisão de noticiar conteúdo problemático, é importante incluir o contexto sobre os comportamentos e ideologias dos actores adversários que o estão a divulgar, bem como o impacto que essas ideologias têm nas comunidades que procuram prejudicar. Além disso, é crucial incluir detalhes contextuais sobre onde se iniciou a desinformação e como se espalhou. E se o contexto do conteúdo não for suficientemente claro para elaborar notícias fiáveis, é um bom indicador de que o “ponto de inflexão” ainda não foi alcançado.

* Publicado originalmente pela Data & Society, aqui traduzido sob licença Creative Commons Attribution 3.0 Unported. Fotografia: Υonker/Flickr (CC BY-NC-SA 2.0)

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