COVID-19: está-se a lidar com falhas nos dados

Como os dados disponíveis na pandemia de coronavírus são irregulares e incompletos, eles precisam de ser abordados com cautela e com uma consciência do que podem – e não podem – dizer-nos sobre o vírus mortal.

Um dos principais problemas da pandemia do COVID-19 é a velocidade do contágio. Isso torna o tratamento de pessoas infectadas muito mais difícil de gerir, mas também prejudica gravemente a nossa capacidade de ter uma imagem actualizada, completa e fiável da situação na Europa e no resto do mundo.

As informações nas quais confiamos são aproximadas e geralmente erram por precaução (por exemplo, o número de pessoas infectadas ou as mortes causadas pela pandemia). É importante estar ciente dessas limitações e abordar os dados com cautela, mesmo se eles são o melhor que temos, dadas as actuais circunstâncias. De todos os dados oficiais sobre a situação global, os produzidos pelo Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC, de European Centre for Disease Prevention and Control) são considerados os mais fiáveis. No entanto, estudos novos e mais precisos surgem todos os dias, fornecendo dados adicionais para ajudar a entender a pandemia e o seu curso de desenvolvimento.

Quantos infectados há realmente?
Não se sabe. O que se sabe é o número de infecções confirmadas – indivíduos com resultado positivo para o vírus – e estimativas altamente aproximadas do total de infecções.

O teste do vírus envolve a recolha de uma amostra de saliva ou de muco, que é analisada em busca de traços do código genético do vírus. O número de pessoas testadas varia muito de país para país: dependendo, acima de tudo, de como um país está bem equipado para realizar testes em larga escala (geralmente não são os kits que faltam, mas o pessoal e os laboratórios necessários para analisar grandes quantidades de zaragatoas). Nalguns países, as autoridades decidem concentrar-se nas pessoas que já apresentam sintomas associados ao COVID-19, ou mesmo apenas naquelas que já estão hospitalizadas.

Sabemos, no entanto, que muitos dos que contraíram o vírus não apresentam nenhum sintoma ou só começam a apresentar sintomas muitos dias após serem infectados.

A percentagem de pessoas infectadas contabilizadas varia muito de país para país. Isso dificulta a comparação do desenvolvimento da pandemia em diferentes tempos e locais. Por exemplo, a Itália realizou cerca de 3.500 testes para cada milhão de habitantes, em comparação com 6.100 na Coreia do Sul e 600 em Espanha. De acordo com uma estimativa do Centre for the Mathematical Modelling of Infectious Diseases, no London School of Hygiene & Tropical Medicine, a Itália e a Espanha podem ter registado apenas 5% das pessoas realmente infectadas.

Quantas pessoas já morreram realmente?
Isso também é desconhecido, mesmo que o número de mortes possa ser estimado com mais precisão do que os casos de infecção.

O que sabemos é o número de mortes atribuídas ao COVID-19 (infelizmente, os critérios de atribuição ainda não estão normalizados a nível internacional). No entanto, não se pode ter certeza de que todas as mortes causadas pelo coronavírus foram registadas: nas áreas mais atingidas da Itália, as indicações sugerem que os testes não são realizados em todas as vítimas (muitas das que morrem em casa ou em lares de idosos, por exemplo). Além disso, regimes autoritários como a China e o Irão podem ter interesse em publicar dados incompletos para minimizar a gravidade do problema – assim, o número de mortes causadas pela pandemia pode muito bem ser maior do que o sugerido pelas estatísticas oficiais.

Quão mortal é o COVID-19?
Também não há certezas. O risco relativo de uma doença pode ser medido pela taxa da mortalidade de casos – o número de mortes em proporção dos infectados – ou a taxa da mortalidade, que mede o número de mortes em proporção da população. Uma taxa de mortalidade de 4% indica que, para cada 100 pessoas infectadas, a doença causa uma média de quatro mortes.

As estimativas disponíveis da taxa de mortalidade de casos do COVID-19 variam muito de acordo com o contexto. Por um lado, essas variações podem de facto estarem ligadas a factores locais: por exemplo, é provável que a doença tenha maior impacto em regiões ou em países onde a população é mais velha ou mais propensa a doenças respiratórias, como o norte da Itália, altamente poluído.

Em alternativa, essas variações podem ser apenas aparentes e causadas por diferenças na maneira como os dados são recolhidos. A taxa de mortalidade de casos compara dois números – mortes e infecções – mas, como se viu, esses números são frequentemente registados de maneira diferente e geralmente têm lacunas significativas.

De qualquer forma, a taxa de mortalidade de casos do COVID-19 é uma ordem de magnitude maior que a de doenças virais mais mundanas, como a gripe sazonal. Esta última causa geralmente a morte a menos de 0,1% das pessoas infectadas, durante muitos meses, enquanto se estima que o COVID-19 cause uma percentagem de mortes pelo menos 20 ou 30 vezes maior, em apenas algumas semanas.

Duas técnicas úteis para comparar dados
Além das lacunas e da disparidade na recolha de dados, as comparações entre regiões e países afectados pelo coronavírus são complicadas porque o contágio não começou em todos os locais em simultâneo. Comparar a província de Hubei na China – onde a infecção começou há cerca de um mês – com um país onde o contágio se iniciou agora não seria particularmente instrutivo. Para comparar esses contextos, devem-se começar com o dia em que o surto foi registado em cada área e comparar os desenvolvimentos a partir daí. Por exemplo, 15 dias após o vírus chegar a Itália, foram registadas cerca de 800 mortes no país, enquanto em Espanha, 15 dias após a detecção do vírus, foram registadas 2.000 mortes.

Outra forma de comparar desenvolvimentos em países com diferentes métodos de recolha de dados é comparar as taxas de contágio em cada país – por exemplo, medir o número de dias que levou para o número de mortes confirmadas duplicar. Na Alemanha, o número duplicou a cada dois dias e na Itália a cada cinco dias. Na Coreia do Sul, levou 13 dias para o número de mortes confirmadas duplicar, indicando que o contágio diminuiu consideravelmente.

* Texto originalmente publicado por OBC Transeuropa/European Data Journalism Network, com licença CC BY-SA 4.0. Fotografia: Younghart/Flickr – CC BY-SA 2.0

[act.:Epidemiological data from the COVID-19 outbreak, real-time case information: The generation of detailed, real-time, and robust data for emerging disease outbreaks is important and can help to generate robust evidence that will support and inform public health decision making.

Why comparing coronavirus outbreaks in different countries can be misleading — and even dangerous: For people who are comparing the data and attempting to divine how different countries’ epidemics stack up against each other, experts have a warning: nations have different reporting standards, different approaches to testing, and different approaches to tracing cases, all of which makes such comparisons dangerously misleading.

]

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