Do achatamento do coronavirus à medicina da catástrofe (em actualização)

Foi a 10 de Dezembro que se iniciou a pandemia do coronavirus na China, quando um vendedor no mercado de marisco de Wuhan se sentiu doente, com sintomas de gripe. Desde então, instalou-se a confusão, o desconhecimento e as más decisões e informações.

Conferências de imprensa sobre o Covid-19 ou ministros que aparecem regularmente, também a escrever artigos em jornais, não valem de muito porque já não estamos no século XX e a população sabe informar-se online sobre o que lhe interessa. Este retrato foi traçado para o Reino Unido mas é válido para muitos outros países.

A pandemia e a rapidez necessária para tomar decisões revelou a fragilidade de líderes – dos governamentais aos responsáveis de saúde pública e até aos empresários e associações patronais. Num problema mundial, revelou-se a falta de coordenação global, regional – como a União Europeia tão bem demonstrou – e nacional. Isto deixou o terreno propício para a confusão das soluções, misturada com a desinformação tantas vezes sustentada ou permitida por responsáveis da saúde pública.

O exemplo do gráfico do “achatamento” é elucidativo. Ele tem como base um estudo relativo a uma pandemia com mais de um século, e estava relacionado não com a sustentabilidade de qualquer sistema nacional de saúde, como agora se propaga, mas com as diferenças com o afastamento social em duas cidades.


Perante o gráfico original, surgiram variantes como este:

Em geral, o que os caracteriza? A falta de valores nos eixos. Está-se a olhar para um gráfico com dois picos sem perceber a linha temporal, se estamos a falar de 10 semanas ou de um ano. Veja-se agora este “Epidemic Calculator“, com os casos suspeitos, infectados, hospitalizados e mortes. Também por isso é mais elucidativo.

O gráfico usado como “achatamento” actualmente não é uma previsão fiável mas “um número teórico usado para modelar a disseminação do vírus“.

Foi usado inicialmente pelo Centers for Disease Control and Prevention em Fevereiro de 2007 no relatório “Interim Pre-pandemic Planning Guidance: Community Strategy for Pandemic Influenza Mitigation in the United States“, salientando a necessidade de se ter mais recursos humanos numa pandemia.

A The Economist usou-o em final de Fevereiro e a partir daí foi replicado e alterado em diferentes meios.

A comunicação social – também em Portugal – adoptou-o com a linha intermédia a servir de referência para o Serviço Nacional de Saúde mas algo de estranho sucede com a sua maioria: além da falta de números nos eixos ou dos recursos hospitalares ainda omite a possibilidade da ressurgência de casos ao longo dos meses. Uma excepção:

No geral, o gráfico amplamente copiado é uma “desilusão mortal” por outros motivos.

Quando parece estar a defender o sistema público de saúde, não explica a necessidade de aumentar recursos humanos hospitalares, assumindo que um mesmo número se manterá em funções sem cansaço ou quarentenas ou até mortes pelo coronavirus (outra excepção).

Além disso, achatar a curva não depende do indivíduo mas de comportamentos comunitários, de contenção de riscos e de aumento de recursos hospitalares. Os resultados num tal gráfico só existem após as medidas terem tido sucesso, como revela a imagem de 1918.

Informação errada
Pode-se defender que as diferenças visuais não são importantes porque a mensagem gráfica é mais impactante. Mas são os dados subjacentes à sua criação que permitem tomar certas decisões na vida económica dos países. Sem eles, é simples propaganda que os governos adoptam para evitar custos em cenários que não controlam.

Por exemplo, ao antever que a pandemia dura um mês, fará sentido dar a cada norte-americano 1.000 dólares para ajudar as famílias a cumprir as suas obrigações a curto prazo e dinamizar a economia? E o que fazer com este “helicóptero monetário” se as estimativas de duração forem ampliadas sem “achatamento” social?

A informação errónea prossegue em várias decisões. Porque tomam restrições drásticas alguns países e outros também afectados optam por medidas mais ligeiras?

Por vezes, quando a informação não está errada, chega tarde e sem contexto – como sucedeu com a limpeza de telemóveis.

É neste ambiente que triunfa a desinformação validada por omissão por responsáveis sanitários. Por exemplo, a ministra da Saúde disse no sábado passado como a curva ascendente da epidemia deverá aumentar até final de Abril. Não forneceu qualquer fonte para a afirmação e nem os jornalistas a questionaram.

Algo semelhante ocorreu nesse dia com o Expresso, a fazer primeira página com “Governo espera pico do surto em Maio“. O governo não espera mas usa uma “estimativa de pico de contágios com que o Executivo está a trabalhar”, usando um valor “traçado também pelo director-geral da Saúde britânico”.

Quem se der ao trabalho de ler o Plano Nacional de Preparação e Resposta à Doença por novo coronavírus (COVID-19), “o documento de referência nacional no que respeita ao planeamento da resposta a COVID-19”, não encontrará este cenário.

Aliás, o documento segue “as orientações da Organização Mundial da Saúde e do Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças” e como plano específico “será o referencial para a actualização de planos regionais, locais e institucionais no âmbito da COVID-19“, segundo a própria DGS. Assim, estava o Expresso está a mentir?

Falta de orientação
Este tipo de mensagens confusas prossegue com a decisão de confinamento social ou de adiar eventos públicos. Tem uma base individual mas também fortemente colectiva, que pode salvar vidas. Permitir que bares sejam encerrados mas as missas possam prosseguir são exemplos de mensagens confusas transmitidas à população.


Da mesma forma, quando se diz para lavar as mãos, estamos a falar de quantas vezes ao dia? Só quando estão sujas? É igual para crianças e adultos? São perguntas simples com respostas simples. Porque não posso tocar na cara? Lavam-se as mãos para quê? Porque o vírus envolto numa membrana de plasma é morto pelo sabão, etanol (álcool), produtos com certos detergentes e lixívia. Mas quantas vezes ao dia? A questão pode parecer sem importância mas as autoridade de saúde do Luxemburgo criaram um folheto só com essa explicação.

A falta de informação ocorreu também com os responsáveis pela cibersegurança que não forneceram indicações atempadas, perante um cenário de teletrabalho em tão larga escala, antecipado pelo governo “na organização dos serviços públicos, [em que] serão reforçados os serviços digitais”.

E foi ainda mais grave porque, derivado deste cenário de teletrabalho, os responsáveis pelos dados pessoais em Portugal (incluindo sensíveis como os clínicos), nada disseram para alertar as pessoas – e o mesmo sucedeu com a falta de esclarecimento sobre o impacto destas medidas no âmbito do Regulamento Geral para a Protecção dos Dados (RGPD).

Na Irlanda, explicava-se como um trabalhador infectado não devia ser nomeado aos seus colegas, assegurando a confidencialidade que não se alargava às autoridades sanitárias competentes.

No Luxemburgo, a CNPD listou várias recomendações sobre “a recolha de dados pessoais num contexto de crise sanitária”, como a desaconselhar os empregadores de recolherem informação sobre dados clínicos dos funcionários (temperatura corporal, por exemplo).

A Agencia Española de Protección de Datos (AEPD) fez o mesmo na semana passada, explicando que “o RGPD permite o tratamento de dados pessoais de saúde sem consentimento do interessado em situações de interesses público”. Na mesma altura, alertou para as campanhas de phishing usando o COVID-19.

Além das entidades oficiais, os media podem ter uma abordagem diferente às conferências de imprensa oficiais e procurar outros ângulos que sirvam não os políticos mas sejam úteis para os cidadãos. Um exemplo disso foi o guia para conviver com uma pessoa contagiada pelo coronavirus do El País.

No Guia de Boas Práticas para a cobertura informativa de doenças e situações epidémicas, a ERC alerta para os “cuidados redobrados na confirmação da veracidade da informação” nestes casos. Os media têm aqui uma oportunidade de restabelecerem a sua credibilidade na que é, segundo Dean Baquet, director-executivo do The New York Times, a maior história desde o 11 de Setembro.

Concorde-se ou não, é verdade que a fiabilidade dos dados transmitidos ao público numa situação destas é crucial para o seu futuro e obtenção de novos leitores. Tanto mais quando, muitos deles, eliminaram as “paywalls” para as notícias sobre o Covid-19 e o interesse noticioso aumentou.

Em Madrid, o coronavirus fez aumentar o consumo de televisão pelos mais jovens (à procura de entretenimento, principalmente), enquanto os adultos se interessam por informação e notícias sobre o tema.

[act.: Portugueses estão a ver mais 28 minutos de televisão. Todos os canais de informação crescem: consumo televisivo regista um dos valores mais elevados do ano: 5h33m, fasquia que apenas foi ultrapassada na semana 1 do ano. Face à semana anterior os portugueses passaram diariamente cerca de mais 28 minutos em frente ao televisor.]

Entre os exemplos mais radicais, destaca-se o criativo australiano NT que, perante o consumo irracional de papel higiénico, imprimiu um suplemento de oito páginas deste papel.

O triunfo da desinformação
Por outro lado, há um terreno fértil para a desinformação e as fake news. algo a que a DGS não é estranha. Há anos lançou o site “Pensar Nutrição” – Combater a desinformação” para “fazer fact-checking das principais notícias da actualidade em nutrição e alimentação” (fez o mesmo com o Polígrafo para esta pandemia). Acompanhou a desinformação relacionada com o movimento anti-vacinas no seu boletim e é-lhe fácil descobrir a existência do “Myth busters” da Organização Mundial de Saúde.

Mas se a DGS tem lacunas neste âmbito, pior sucedeu com os governos europeus que sabiam como deviam antecipar o expectável surto de mentiras.

Num documento entregue pela ERC em Abril passado ao Parlamento, recorda-se como “a Comissão Europeia adotou como conceito operacional de desinformação toda a informação comprovadamente falsa ou enganadora que é criada, apresentada e divulgada para obter vantagens económicas ou para enganar deliberadamente o público, e que é susceptível de causar um prejuízo público, o qual abrange ameaças aos processos políticos democráticos e aos processos de elaboração de políticas, bem como a bens públicos, tais como a proteção da saúde dos cidadãos”.

Neste caso, Portugal é dos países mais expostos, revelou o recente Eurobarómetro sobre o impacto da digitalização na vida diária, onde 31% dos portugueses inquiridos diz detectar diariamente informação ou notícias falsas e a 12% sucede o mesmo semanalmente. 64% dos inquiridos afirma que são os media quem deve combater este tipo de informação falsa, com 80% a considerar que as autoridades públicas não devem tomar medidas neste sentido.

O responsável pela organização First Draft, que publicou uma brochura sobre como lidar com a desinformação com o Covid-19, explicou no The Guardian como o problema mais imediato era espalhar conselhos de saúde falsos – algo que até podia ser feito com “a melhor das intenções” mas que podia acabar por fazer “mais mal do que bem”. Nesse sentido, a revista Newsweek analisou algumas dessas “notícias” para determinar a sua fiabilidade.

[act.: Russian media ‘spreading Covid-19 disinformation’: An EU monitoring team collected 80 examples of disinformation from Russian sources in nearly two months up to 16 March. Coronavirus was claimed to be a biological weapon deployed by China, the US or the UK. Other conspiracy theories contended the outbreak was caused by migrants or was a pure hoax.

Coronavirus fraudsters add to the anxiety and misery: Disaster fraud has become so common that many U.S. federal agencies were quick to create websites to address coronavirus-related scams, complete with tips and sharable graphics for users to link to on social media.

EU auditors probe bloc’s disinformation fight amid COVID-19 concerns: “Any attempt to maliciously and intentionally undermine and manipulate public opinion can represent a serious threat to the Union itself,” a statement from Baudilio Tomé Muguruza, the ECA Member leading the audit, read. “EU citizens must know whether the EU Action Plan against disinformation is effective.”]

E no futuro, vai piorar antes de melhorar?
Para se perceber o que vai acontecer no futuro com o Covid-19, é melhor questionar os investigadores, não os políticos com uma agenda própria. Por exemplo, que político poderá afirmar em público como os idosos com mais de 80 anos vão ser deixados a morrer, por questões logísticas? Mas é exactamente isso que se pode passar em países e foi antecipado em Itália.

O College of Anesthesia, Analgesia, Resuscitation and Intensive Care (SIAARTI) recomendou aos médicos e enfermeiros que, quando circunstâncias tão extraordinárias se degradam, eles enfrentam “escolhas morais” semelhantes às necessárias em tempo de guerra.

Esta “medicina da catástrofe” visa alocar de forma utilitária “os limitados recursos sanitários”. Como? “O critério de alocação necessita de garantir que os pacientes com mais chances de sucesso terapêutico tenham acesso aos cuidados intensivos”.

Os médicos responsáveis por estas propostas consideram que “poderá ser necessário estabelecer um limite etário para acesso” a esses cuidados. O limite parece ser os 80 ou mais anos, mas também os que estejam numa situação clínica fragilizada, segundo um documento da protecção civil da região de Piemonte. Quem vive ou morre “é decidido pela idade e pelas condições de saúde [do paciente]. É como se faz na guerra”.

Este uso generalizado de termos bélicos para lidar com uma pandemia serve para atenuar as decisões sociais e morais necessárias se a doença prosseguir. É um cenário pessimista que nem todos acompanham.

Um grupo de cientistas comportamentais escreveu ao governo britânico a alertar para os perigos que parecem levar o governo “a acreditar que parar a disseminação da doença é impossível” e que a solução é atenuar essa disseminação. É possível “fazer melhor do que isto”, garantem, como sucedeu na China e na Coreia do Sul e está a suceder noutros países.

Além destes médicos, também uma consultora acredita numa vasta gama de possibilidades e que os decisores políticos “não devem assumir o pior“.

Isto pode suceder por razões egoístas, quando muitos políticos estão infectados. Com esse potencial maior empenho na luta contra o coronavirus, “é razoável esperar disrupções nos serviços públicos e governos que ainda não antecipámos”, diz Lindsay Wiley, especialista na área legislativa e ética na American University. Tal como uma disrupção familiar, quando se detecta que o número de divórcios está a aumentar na China derivado do confinamento obrigatório a que os casais estiveram sujeitos. Será que aconteceu com outras pandemias na história?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.