Privados vigiam a Internet onde os governos falham

A revolução da Internet nos últimos 20 anos abriu incontáveis novas formas para as pessoas comprarem, usarem o banco, amarem – e cometerem crimes. Cada vez que ligamos o computador, abrimos um email, vemos um sítio Web ou fazemos um pagamento online, existem múltiplas novas oportunidades para crimes ocorrerem. De facto, quase metade de todos os crimes contra indivíduos em Inglaterra e Gales envolvem agora ou são facilitados pela Internet.

Estas mudanças tecnológicas dinamizaram um substancial novo sector privado de vigilância que inclui empresas mas também vigilantes online. Esta mudança é comparável à “revolução silenciosa” dos anos 1970s quando o policiamento privado convencional, particularmente o uso de agentes de segurança uniformizados, emergiu numa escala industrial.

Apesar da sua escala, a actividade de policiamento privado online tem sido amplamente ignorada por investigadores e políticos. No entanto, já está a criar algumas questões significativas que necessitam de ser geridas.

Este novo sector de policiamento privado online existe mais obviamente nas numerosas empresas fornecedoras de serviços. Isto inclui conceber, testar e manter sistemas de segurança, responder a ciberataques e moderar conteúdo prejudicial ou ilegal em sites Web.

Mas muitas outras organizações também desenvolveram as suas próprias estruturasa de ciberseguança para melhor se protegerem do crime online. Nas maiores organizações, estas estruturas são geridas pelo que normalmente se denomina de “chief information security officers” (CISO, de responsável de segurança da informação) mas há muitos outros novos papéis como arquitectos de segurança e hackers éticos.

Globalmente, este novo sector assegura cerca de seis milhões de empregos e valerá 248 mil milhões de dólares em 2023. ISto é muito mais do que a indústria tradicional da segurança privada, que se prevê valer 167 mil milhões de dólares em 2025.

Um dos papéis mais interessantes a emergir neste novo sector é o dos moderadores que vigiam o conteúdo publicado na Internet. Eles têm um papel importante em prevenir a publicação de material indesejável, desde pornografia “hardcore” e videogravações de zonas de guerra a linguagem abusiva e inapropriada.

Não houve praticamente nenhuma investigação académica destes importantes operacionais. Mas algumas notícias têm mostrado preocupações sobre o bem-estar destas pessoas, que muitas vezes têm de ver grandes quantidades de angustiantes conteúdos, incluindo imagens. Assim, as suas condições de emprego e capacidades devem ser mais uma prioridade para investigadores e reguladores.

Vigilantes online

A Internet não estimulou apenas novas formas de policiamento privado comercial mas também permitiu a um novo tipo de vigilantismo florescer. Por exemplo, a limitada resposta das agências de autoridade aos inúmeros emails com esquemas (“scam emails”) e falsos sites Web com que lidamos e nos colocam em risco diariamente levou ao crescimento dos “scambaitors”. Estes são indivíduos privados que se tentam envolver com os “scammers” e gastar o seu tempo ou simplesment alertar para os seus esquemas [“scams”].

Um dos problemas do “scambaiting” é a humilhação e racismo muitas vezes envolvido. Por exemplo, alguns “scammers” foram levados a fazer tarefas repetitivas como desenhar mapas de ruas e re-escrever livros, pintarem-se ou posarem nus em posições humilhantes, tudo depois publicitado. Por vezes isto é feito com comentários racistas explícitos ou implícitos, relativos ao facto de muitos dos “scammers” serem africanos negros.

Talvez a área mais controversa do vigilantismo online que emergiu foi a da caça à pedofilia. Grupos organisados de utilizadores da Internet assumem-se como crianças em “chatrooms” online para atrair e expor pedófilos.

As acções destes grupos ajudou claramente a polícia e levou à exposição de pedófilos reais que foram depois acusados e condenados. Em 2018, pelo menos 150 pessoas em Inglaterra e Gales foram acusadas usando provas fornecidas pelos caçadores de pedófilos.

Mas alguns grupos revelaram em público as exposições e confrontos, nalguns casos até em “live-streaming” online. Isto levou a pessoas inocentes serem falsamente e publicamente condenadas, enquanto outros se suicidaram após essa exibição. Também foi revelado que algumas das pessoas a decretar esta “justiça” são elas próprias criminosos condenados – enquanto as forças policiais impedem muitas vezes pessoas com registo criminal de se alistarem.

O rápido crescimento das tentativas tanto comerciais como amadoras de policiar a Internet mostra que há uma procura que não é satisfeita pelo tradicional fornecedor da aplicação da lei, o Estado. Mas os problemas que estão a surgir desta actividade de segurança privada demonstra porque não é suficiente deixar operações tão relevantes ao mercado ou a voluntários.

A primeira “revolução silenciosa” resultou eventualmente em muitas jurisdições a introduzirem regulamentos para melhor controlarem as actividades da segurança privada. Essa nova mudança merece pelo menos mais investigação para determinar se os controlos são adequados. A suspeita é que não são.
The Conversation

* Texto de Mark Button (professor de Segurança e Fraude na Universidade de Portsmouth), publicado originalmente em The Conversation com licença Creative Commons.
* Fotografias: cjmacer/Shutterstock, Gorodenkoff/Shutterstock

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