Como a Google está a “comprar” os media

A Google aumentou o financiamento a projectos da comunicação social quando antecipou potenciais problemas. Na Europa, fê-lo a partir de 2015, quando a União Europeia alertou para a possibilidade de a multar em termos de práticas anti-concorrência e por violação de direito de autor. Na América do Norte, ocorreu algo semelhante desde 2017, quando a empresa foi acusada das suas plataformas serem usadas para interferência russa nas eleições do presidente Trump e pela revelação do número de despedimentos de jornalistas.

Estes dados podem ser extrapolados a partir do relatório “Google’s Media Takeover“, revelado pela Campaign for Accountability (CfA) no âmbito do seu Google Transparency Project.

Os cálculos da CfA apontam que a empresa terá doado cerca de 568 milhões de dólares para 1.327 financiamentos a 1.157 projectos de organizações de media em todo o mundo, incluindo Portugal.

Segundo o relatório, o Center for Investigative Reporting, com 26 financiamentos, o European Journalism Centre (25) e o Investigative Reporters and Editors (23) foram quem mais recebeu da Google, com o Foro de Periodismo Argentino, o Poynter Institute e o ProPublica na quarta posição a terem cada um 11 projectos.

Apesar da alegação de se tratar de financiamento “altruísta”, a Google parece perseguir objectivos políticos com o dinheiro entregue perante “ameaças legais e regulatórias” que ocorreram “primeiro na Europa e, mais recentemente, nos EUA”.

“A Google destruiu o modelo de negócio da indústria da comunicação social ao assumir a publicidade online e agregar o conteúdos dos editores”, explica Daniel Stevens, director executivo da CfA. A organização recorda como a empresa financiou iniciativas para desenvolver “bots” e inteligência artificial para substituir jornalistas.

Agora, “está a capitalizar” esta estratégia ainda mais ao “comprar” as organizações para o que “aparenta ser uma campanha de influência altamente coordenada para afastar a regulação governamental e dissuadir o criticismo sério das [suas] práticas empresariais”.

Para Stevens, esta estratégia da Google “é uma séria ameaça ao jornalismo livre e independente”, quando os media se têm de apoiar neste tipo de financiamento. “Os editores e os jornalistas podem hesitar antes de publicarem notícias críticas sobre a empresa”, diz.

“Estas pessoas deviam estar a ser investigadas pelos jornais locais” e os media não deviam depender da Google, considerou Emily Bell, antiga editora do The Guardian e directora do Tow Center for Digital Journalism. “Isso é um problema iminente para nós como jornalistas, porque podemos muito facilmente ficar viciados no dinheiro”.

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