As alterações climáticas e as “fake news” representam a maior ameaça à saúde humana nos próximos 25 anos, de acordo com uma investigação feita profissionais de saúde em todo o mundo.

O estudo global revelou que a esmagadora maioria (98%) dos profissionais de saúde quer uma maior cooperação para enfrentar os desafios de saúde criados pela crise climática.

A crise climática está ligada ao aumento da migração devido à globalização e 72% dos entrevistados disseram que isso levou a uma maior resistência aos medicamentos.

O estudo, realizado pela Royal Society of Tropical Medicine and Hygiene (RSTMH) do Reino Unido, entrevistou médicos, investigadores e outros profissionais de saúde em 79 países.

O relatório resultante, publicado a 17 de Setembro, constatou que a desinformação do paciente e o aumento da visão anticientífica exacerbam as ameaças à prestação de serviços de saúde, especialmente em países de fracos recursos financeiros.

Um total de 91% dos entrevistados disse que governos e organizações sanitárias não estão a fazer o suficiente para se prepararem para o impacto das alterações climáticas na saúde. Um valor semelhante – 92% – disse que esse desafio foi associado às pressões impostas aos profissionais de saúde pelas notícias falsas, que, segundo eles, criaram desconfiança no conhecimento e na prova científica.

Tamar Ghosh, directora-executiva da RSTMH, diz que essas tendências podem ser combatidas com um melhor treino em comunicação para investigadores e profissionais de saúde, especialmente nos países mais pobres, onde pessoas com menos acesso à tecnologia podem não ter o conhecimento digital para distinguir entre notícias fiáveis e falsas.

“Os países de fracos ou médios recursos financeiros precisam de combater essa ameaça, pois o ponto crucial da era da ‘pós-verdade’ digital é que coloca o ónus de verificar as notícias no leitor, que pode ser uma pessoa sem tempo, energia ou recursos para o fazer”, disse ela à SciDev.Net.

Anit Mukherjee, do Center for Global Development em Washington, DC, acredita que governos, ONGs e organizações internacionais de saúde necessitam de melhorar o uso dos mesmos canais de informação em que os pacientes confiam, incluindo os media sociais.

“Deixou de ser um sinal ao lado da estrada”, disse. “Alguém em quem as pessoas confiam precisa de chegar e usar os mesmos canais de informação e divulgação e bombardeá-las com informação fiável, que pode substituir a informação errada”.

Apesar das preocupações com as notícias falsas, os mais de 600 participantes no estudo sentiram-se optimistas em relação à tecnologia, com 95% dos homens e 83% das mulheres acreditando que a tecnologia providenciará uma melhor assistência médica global.

No entanto, cerca de 68% dos profissionais de saúde disseram que a tecnologia aumentou a divisão na assistência médica entre países ricos e pobres, porque causa a fuga de cérebros. Cerca de três em cada quatro médicos africanos e dois em três asiáticos disseram-se preocupados com a ida de médicos locais para países mais ricos, em comparação com apenas metade dos colegas na Europa.

“A tecnologia é inevitável e deve ser usada”, disse Mukherjee. “Mas só funcionará quando se tiver mecanismos de saúde básicos adequados e conceber a tecnologia para apoiar isso”.

Os entrevistados foram questionados sobre os três principais desafios específicos à saúde que esperam enfrentar nos próximos 25 anos. As doenças não transmissíveis, como diabetes e cancro, foram identificadas como o maior problema, seguidas por estirpes virais e parasitas resistentes a medicamentos, e doenças infecciosas emergentes, como o Ébola.

Muitos entrevistados mostraram-se confiantes de que doenças como a poliomielite, dracunculíase e tracoma cegante podem ser erradicadas no próximo quarto de século.

Talvez surpreendentemente, os profissionais de saúde nos territórios mais afetados pelas mudanças e conflitos climáticos foram os que se mostraram mais optimistas em enfrentar esses desafios. Cerca de 63% dos médicos africanos disseram sentir-se optimistas em geral relativamente ao futuro da saúde, em comparação com apenas 42% dos que trabalham na Europa.

A RSTMH apresentou cinco recomendações para a saúde global com base nas conclusões do relatório: combater a crise climática, mais colaboração nas doenças não transmissíveis, combater as desigualdades na saúde, priorizar a qualidade de vida relativamente a prolongar a vida, e garantir que os profissionais de saúde têm acesso à mais recente tecnologia.

Para alcançar este último objectivo, os sectores público e privado devem trabalhar em parceria na investigação e inovação, disse Ghosh. Para garantir que as novas tecnologias beneficiam realmente os profissionais de saúde, as empresas devem “trabalhar em colaboração com os profissionais de saúde desde o início, em vez de vê-las como uma audiência final para o uso da tecnologia”, acrescentou.

* Autoria: Inga Vesper
* Texto originalmente publicado em SciDev.Net.
* Imagem: Relatório “What does the next 25 years hold for global health?” (RSTMH)