O crescimento do número de utilizadores da Internet dinamiza o aumento do cibercrime em Portugal. “A questão da dimensão do mercado é muito relevante”, porque “a massificação torna-se propícia a que surjam vírus e malware direccionados para sistemas que têm mais utilizadores”. A análise é de Gabriel Osório de Barros, do Gabinete de Estratégia e Estudos do Ministério da Economia e autor de um relatório sobre o tema.

Osório de Barros nota ainda que são as pessoas com maior nível de ensino as mais expostas aos riscos da cibersegurança, apesar de potencialmente poderem ter uma maior literacia informática.

Entre os 28 países da União Europeia (UE), Portugal ocupa a oitava posição em termos de disseminação de malware, apesar de ter uma das taxas mais elevadas de computadores protegidos com software de segurança.

Os dados constam do estudo A Cibersegurança em Portugal, que Osório de Barros publicou em Agosto e onde constata que, apesar de ter das taxas mais elevadas de protecção informática, Portugal é dos países mais vulneráveis.

A maior percentagem de incidentes ocorre com utilizadores com níveis de ensino superior (quase 37%), seguindo-se de perto 34,6% de pessoas com o nível médio. São estes quem mais utiliza as novas tecnologias, o que ajuda a explicar porque apenas quase 17% com baixo nível de ensino regista problemas.

Várias das percentagens citadas no trabalho são retiradas do estudo bi-anual Digital Economy Outlook 2017, da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), que não revela o universo de inquiridos.

Os dados da OCDE “indicam que ocorrem mais incidentes de segurança digital no caso de pessoas com maiores níveis de ensino por serem aquelas que mais utilizam as TIC [tecnologias de informação e comunicação] e que por isso estão mais expostas a estes riscos”, explica Osório de Barros. Embora a organização não explique porquê, parece “plausível que o resultado esteja mais associado ao tipo de utilização entre os grupos com diferentes graus de escolaridade do que à capacidade (ou incapacidade) para se defenderem de ataques”.

Protegido mas atacado

Segundo um relatório da Microsoft, o Microsoft Security Intelligence Report 2017, Portugal tem “uma taxa de incidência de malware acima da média” da União Europeia, e tem “maior risco e maior incidência de cibercrime”. Isto acontece apesar da “percentagem elevada de computadores com software de segurança activado”: a Finlândia tinha 92,2%, seguida de Portugal (90,3%) e da Dinamarca (90,2%).

Portugal ocupava o nono lugar no espaço europeu relativamente à incidência de malware, segundo o estudo da Microsoft. Mas, no grupo dos 109 países analisados, ficava-se pela 74.ª posição. Os programas troianos (disseminados sem conhecimento do utilizador, muitas vezes por email, e também conhecidos por trojans) são a ameaça mais predominante.

Num outro estudo, o Global Cybersecurity Index 2017 da União Internacional das Telecomunicações, são salientadas áreas críticas da cibersegurança em Portugal: a formação, normas para profissionais, estratégia das organizações, definição de métricas, órgãos de definição de normas, boas práticas, programas de investigação e desenvolvimento, acordos bilaterais ou multilaterais e parcerias público-privadas.

Nesta análise, Portugal ocupa a 56.ª posição e integra um grupo de países ainda a “amadurecer” na cibersegurança. Apenas 21 países surgem como “líderes” neste domínio.

O número de queixas por burlas informáticas também tem alguma dimensão em Portugal (estes casos incluem fraudes como vendas online inexistentes e não apenas ataques informáticos).

No final de Junho do ano passado, a Unidade Nacional de Combate ao Cibercrime e a Criminalidade Tecnológica da Polícia Judiciária revelou que foram registados 9510 casos em 2016, que baixaram para 7326 em 2017 e, no primeiro semestre do ano passado, para 3268 ocorrências. A PJ antecipava que o total de casos poderia chegar aos 9520 em 2018.

Osório de Barros considera que se deve “continuar a apostar na redução do risco (como por exemplo através da prevenção de ataques ou do combate à desigualdade no acesso à Internet) e, simultaneamente, no aproveitamento das oportunidades que resultam da transformação digital”, usando a literacia digital e a dinamização dos comércio e governo electrónicos.

(Texto publicado originalmente no Público, a 9 de Janeiro de 2019)