Intervenção focada em tendências sobre duas questões colocadas pela Plataforma de Associações da Sociedade Civil (PASC) num debate ocorrido no passado dia 14 de Dezembro:
a) Será que vivemos numa sociedade comandada por algoritmos?
b) Qual o futuro do jornalismo?

1) Desinformação? Não se vai resolver a curto prazo, excepto por modelo chinês (milhares de censores). Estou mais preocupado com:
a) a União Europeia quer filtros automáticos para prevenir a colocação online de conteúdos (artº 13º da proposta de directiva do direito de autor na sociedade digital, que também entrou na proposta da directiva anti-terrorismo).

É um enorme erro social e anuncia forma de pré-censura que não funciona (Net Nanny, SurfWatch ou CyberPatrol provaram ser falíveis nos anos 90 e actualmente a inteligência artificial continua a falhar: a tecnologia não está pronta e “falsos positivos” são elevados);

b) os “fake videos”, com enorme dificuldade em detectar falsificação;

c) hologramas: artistas falecidos re-aparecem em palco. Começou com Tupac Shakur em 2012:

Actualmente Billie Holiday ou Maria Callas cantam diariamente. Em 2019, Abba, Amy Winehouse ou Frank Zappa terão este tipo de experiências em público.

A tecnologia está amadurecida e tem impactos sociais, com que a sociedade terá de lidar: no Japão, um homem casou com a versão holográfica da cantora virtual Hatsune Miku e quer ser reconhecido como uma nova “minoria sexual”.

Há também uma importância política: no ano passado, na campanha para as eleições presidenciais em França, o candidato Jean-Luc Mélenchon esteve em simultâneo em sete palcos.

Duas questões:
– pode o candidato usar um discurso segmentado politicamente para cada local onde se apresenta em holograma, adaptando-o aos agricultores num local ou aos mineiros noutro?
– como vão os jornalistas validar qual o discurso oficial do candidato?

2) hacking de sites de notícias e ataques a jornalistas: um dos primeiros casos remonta a 2001 e serviu para demonstrar a possibilidade de adulteração de notícias na CNN. Mas outros casos recentes revelam a possibilidade de negação de acesso ao serviço (DDoS), impedindo os utilizadores de a eles acederem, ou a instalação de malware nos sites noticiosos, levando os utilizadores para sites graficamente semelhantes mas com outro tipo de notícias…
a) O que têm os media de interessante para serem informaticamente assaltados?
– bases de dados pessoais de assinantes (ex.: em Outubro passado, um ficheiro de 175 mil assinantes do L’Équipe foi acedido ilegalmente)
– registo de fontes que interessam a governos (NYTimes em Xangai)
– motivações políticas: agência nacional do Qatar com notícias adulteradas pró-Israel e Irão
– motivações económicas: obter informação antes da concorrência.

b) campanhas pessoais contra jornalistas: Glen Greenwald teve a sua homossexualidade divulgada logo após as notícias no caso Snowden.

Resultado? Poluição para desacreditar jornalistas e meios noticiosos sérios, numa corrida entre verdades e falsidades, com consequências a nível comercial, aumentando a crise nos media e consequente diminuição do número de jornalistas.

c) Acresce um ecossistema do jornalismo ameaçado pela automação. Em 2016, o Washington Post teve 850 artigos escritos de forma automática, dos quais cerca de 500 sobre as eleições norte-americanas. Em 2017, um em cada cinco artigos de economia foi gerado de forma automática, assim como a automatização se banalizou nas notícias desportivas.

São temas de fácil automação mas pode-se evoluir para outros patamares:

3) no geral, a ética não entende a inteligência artificial (IA) e a IA não percebe de ética. Resultado? “Estamos a confiar alguns dos problemas mais profundos da história da experiência humana a um grupo de jovens que nunca resolveram um problema nas suas vidas“, dizia Vivienne Ming, tecnóloga e neurocientista teórica.

“Os nossos algoritmos não têm noção de sentimento político”, afirmou o presidente da Google, Sundar Pichai. “É importante demonstrar que os nossos produtos funcionam sem qualquer enviesamento”.

Mas este viés existe: no Japão, um robô concorreu em Abril passado às eleições municipais num distrito de Tóquio. Conseguiu mais de 4.000 votos. Dois lemas da campanha eram “IA pode mudar a cidade” e “IA contra a corrupção”.

Quem definiu estes “sentimentos políticos”? Foram os programadores. E para onde nos pode levar todo este tecnopopulismo quando a democracia atravessa uma crise de identidade?

4) São as sociedades democráticas que têm de responder, não usando o exemplo de Palma de Maiorca, onde um juiz de instrução ordenou a apreensão de telemóveis e computadores de jornalistas, por violação do segredo de justiça. Uma jornalista não pôde sequer falar com os serviços jurídicos do jornal…

Como se escrevia em editorial no NYTimes, “mesmo George Orwell pode não ter previsto que alguns dos assaltos sem escrúpulos à liberdade de imprensa seriam um dia perpetrados por governos democraticamente eleitos“.

Também por isso, precisamos de uma democracia antecipatória, com instituições capazes de antever a mudança para serem mais resilientes, explica Ann Mettler, do European Political Strategy Centre: