No âmbito destas memórias sobre “Os ‘anos inesquecíveis’ para ter Internet em Portugal“, o testemunho de Miguel Crespo, investigador assistente no CIES-IUL:

A internet é hoje vista como um serviço básico e universal, sempre disponível, em qualquer lugar ou momento, e liberta de qualquer condicionalismo. Mas nem sempre foi assim, e não foi há tanto tempo que aceder à internet era algo excecional e muito complexo.

Na viragem do milénio não havia internet móvel nem wifi. Não havia banda larga, por linha telefónica ou cabo, quando mais fibra! Não se usavam computadores portáteis como substitutos de desktop, quanto mais aparelhos móveis como smartphones ou tablets (que não existiam).

A internet era um caracol preguiçoso a que se podia aceder através de uma linha telefónica ligada a um computador de secretária, uma “torre” de grande dimensão e maior peso. A internet era algo a que nos ligávamos e não a que estávamos (sempre) ligados, e que estava amarrada à nossa secretária.

Mas, mesmo perante esses condicionalismos (que na altura não o pareciam), era possível levar a internet para fora do escritório, e através dela mostrar ao mundo o que estava a acontecer e em direto! Agora chama-se live streaming e é banal em qualquer site, plataforma de distribuição ou rede social. Na altura chamava-se criatividade, persistência e muuuuuita paciência (além de força de braços para carregar os computadores e todo o equipamento “móvel” necessário).

Lembro-me de transmitir para o mundo, via web, corridas de Fórmula Ford a partir do Autódromo do Estoril, peças de teatro infantil no Parque das Nações, festivais culturais no CCB e até o lançamento de um livro de José Saramago, mas muitos mais diretos houve que já se perderam na memória. Estávamos na viragem do milénio, e por isso para a maioria parecia loucura (convém recordar que não havia redes sociais, nem Snapchat ou Youtube, nem Periscope. E mesmo pioneiros do live streaming de vídeo como o Meerkat ou o Qik estavam longe de nascer).

Mas ainda antes de chegar à transmissão havia toda uma logística hoje inimaginável. Primeiro, e com muita antecedência, era preciso garantir que no local da transmissão existia um cabo telefónico que permitisse ligar à internet, o que quase sempre implicava requisitar (e pagar a peso de ouro) à PT a instalação de um cabo, ou dois (para duplicar a velocidade da transmissão) ou, se possível, uma linha RDIS (lembram-se?).

Quando a PT cumpria (o que era raro), só restava carregar computadores peso de chumbo, monitores CRT aparentados de bigorna (na forma e no peso), teclados, ratos, microfones, câmaras de vídeo analógicas de dimensão mastodôntica, quilos de cabos diversos e sabe-se lá mais o quê. O suficiente para encher um monovolume e garantir uma bela dor de costas no dia seguinte.

No local da transmissão, já depois de se ter criado um inevitável novelo de cabos, vinham os infindáveis testes e o liga-desliga até garantir que tecnologias tão novas e tão instáveis funcionavam. Para no fim ter de confiar num qualquer deus da tecnologia e dos audazes para que nada falhasse e o agora chamado live streaming levasse um qualquer acontecimento a todo o mundo, de forma livre, global e gratuita. Visto de 2018, parece tão ridículo e arcaico como uma nau dos navegadores portugueses ao lado de um qualquer avião a jato.

Mas esse tempo existiu. Um tempo em que não bastava tirar o smartphone do bolso, apontar e transmitir para o mundo. Em que não era natural e instintivo, mas sim um desafio, uma aposta e um processo deliberado, só possível com a pontinha de loucura que orientava a equipa com quem desbravei os mares desconhecidos da internet.