No âmbito destas memórias sobre “Os ‘anos inesquecíveis’ para ter Internet em Portugal“, o testemunho de Carlos Reis Marques, especialista em inovação e estratégia e doutorando em Sistemas de Informação (Nova IMS):

Algures, na primeira metade dos anos 90, julgo que em Londres, tive o primeiro contacto com algo que se chamava Internet. Foi durante uma reunião inicial de um projeto, com diversos parceiros europeus, na qual uma senhora inglesa sugeriu que nos comunicássemos recorrendo a meios possíveis por via de uma rede americana chamada Internet. Mais ninguém conhecia e, sinceramente, pareceu-nos uma excentricidade de uma professora universitária…

Claro que o volume informativo que começou a inundar-nos, obrigou-me a, mais tarde, perceber a pertinência do esforço feito por aquela senhora em convencer-nos da eficácia e facilidade do processo de comunicação, para além da argumentação de que se constituiria com uma realidade futura incontornável.

Na altura dirigia uma instituição para pessoas com deficiência (CIDEF – Centro de Inovação para Deficientes) e tínhamos ganho um Prémio Nacional de Mérito Científico com o desenvolvimento de um sistema para a teleformação (DELFOS), em 1997. Este sistema, desenvolvido em C++ e VB, corria em Windows 95 e usava um protocolo de Ethernet nas primeiras versões. Tínhamos feito um investimento significativo na aquisição de equipamentos e software para podermos comunicar entre PC’s. Tínhamos alguns formandos que seguiam os módulos de formação em Coimbra e cada dia era um novo desafio.

Mais tarde, em 2001, quando entrei na Academia Global, naquele que foi o maior investimento na altura feito em Portugal para empresas a explorarem o negócio da consultoria de e-Learning – que colapsou na ilusão da bolha da Internet – percebi que, provavelmente, o sistema DELFOS se tivesse acontecido na América teria sido precursor dos primeiros sistemas de e-Learning existentes no mundo. Quando deixei a instituição, em 1999, estávamos a iniciar a migração da solução para a Rede, mas ainda longe de perceber as implicações desse processo.

Tive a oportunidade de poder acompanhar alguns daqueles que foram os desenvolvimentos da Internet em Portugal durante esses anos, tanto no domínio da formação, como nos relacionados com o trabalho, designadamente por via da criação da Associação Portuguesa para o Desenvolvimento do Teletrabalho. Foi uma década da descoberta de um Mundo Novo sem contornos definidos, em que muitos acreditavam, mas muitos mais duvidavam.

Lembro-me das discussões de final de século sobre a emergência de uma nova economia em que, pela primeira vez, empresas sem negócio e com prejuízos sucessivamente acumulados, alcançavam valores em bolsa impensáveis – uma delas chamava-se Amazon. Foi a época do acréscimo de valorização dos trabalhadores do conhecimento, da descoberta de valor dos intangíveis e do capital intelectual, bem como do advento de uma sociedade pós-capitalista, em que figuras como Leif Edvinson, Daniel Goleman e Peter Drucker, entre outros, estiveram muitas vezes presentes nos debates sobre a forma como as pessoas e as empresas deveriam passar a ser geridas.

Em 2000, quando pesquisava na Net informação sobre empresas que já estavam a usar a World Wide Web para anunciar vagas e contratar pessoas, para um artigo que tinha de escrever, deparei-me com uma empresa de que já me tinham dito alguma coisa e que tinha um nome quase inenarrável – Google. Essa empresa anunciava qualquer coisa assim: “se quiser vir trabalhar para uma empresa em que não tem um lugar fixo para trabalhar, onde tem de procurar uma secretária e uma cadeira, mas onde tem café disponível a toda a hora e pode jogar hóquei no parque de estacionamento, envie o seu CV”.

E em 2001 entrei na Academia Global, para uma empresa pioneira no e-business em Portugal, que infelizmente se inebriou pelo canto da sereia… e donde saí em 2003, com a falência de um negócio sobredimensionado e em que a maturidade sobre a especificidade dos processos e o modelo em causa ainda careciam duma experiência inexistente. Esta foi, e era, a realidade de tantas empresas à escala global.

Duas décadas se passaram e claro que a memória destes inesquecíveis anos está bem presente em todos aqueles que conheceram uma realidade substancialmente diferente. Não sei porquê mas tenho a sensação que os “millennials” quando olharem para trás daqui a 20 anos, perceberão o advento da inteligência artificial e dos algoritmos de “machine learning”, bem como a eclosão de robots e a mutação dos meios de transporte, como tantas outras realidades há pouco apenas ficcionadas, acima de tudo como um “continuum”, em vez do “salto quântico” que a Internet trouxe para o quotidiano das pessoas e das organizações.