No âmbito destas memórias sobre “Os ‘anos inesquecíveis’ para ter Internet em Portugal“, o testemunho do ex-jornalista António Eduardo Marques:

Tal como todos os jornalistas que entraram na profissão antes do final do século XX, a minha experiência foi marcada por uma tecnologia desde há muito esquecida: o telex. Nos jornais, além das fontes próprias de cada jornalista, o telex (ou, mais precisamente, a informação das agências veiculada através de telex) era a forma de aceder à informação.

A minha primeira experiência de acesso à Internet deu-se mais de 10 anos após ter entrado no jornalismo: em 1994 no Público, durante uma entrevista com o então deputado do PS, José Magalhães, ele revelou que era possível, através do PUUG (o grupo de utilizadores portugueses de Unix), conseguir-se aceder à Net.

Daí até o jornal ter uma ligação via modem foi um passo. O acesso era feito apenas por uma interface de texto mas funcionava. Mais do que a Web (ainda a despontar), as principais fontes de informação eram os servidores FTP e os “newsgroups” temáticos (o que hoje chamaríamos de fóruns).

Mas apesar de o Público (e todos os outros jornais…) durante muito tempo ainda continuarem a ter uma “sala de telexes”, onde se alinhavam os diferentes terminais das agências, a mudança de paradigma estava lançada: a partir desse momento, e muito mais rapidamente do que qualquer um de nós poderia na altura supor, os jornalistas deixaram simplesmente de ter de ficar “à espera do telex” e passaram a dispor de uma poderosa ferramenta que lhes permitia irem à procura da informação, especialmente quando esta tinha origem fora do país.

Mais do que qualquer outra, essa foi a maior mudança que a Internet trouxe: podermos ser mais ativos na busca da informação. Hoje, o desafio é sobretudo o de saber distinguir as boas das más fontes online. Mas, para dizer a verdade, esse é e será sempre o desafio do jornalista, com ou sem Internet.