Não chegam a 200 os profissionais de inteligência artificial (IA) registados em Portugal.

Usando apenas dados do LinkedIn, de apresentações em conferências e outros relatórios (tendo como base a língua inglesa), o estudo “Global AI Talent Report 2018” sofre dessa metodologia mas, dado que o fez para todos os países analisados, dá uma ideia global do sector (com a excepção da Ásia e de África).

Segundo os autores, há uma escassez de licenciados nesta área. Só os EUA têm 10 mil empregos por preencher, quando uma agência como a CIA tem quase 140 projectos “directamente relacionados” com a IA.

Por outro lado, os académicos estão a ser recrutados pela indústria, com efeitos a longo prazo, dado que as empresas desejam resultados comerciais mais rápidos, como salienta Gary Marcus, ex-responsável da IA na Uber.

Em paralelo, há uma falta de diversidade étnica e de género no sector, o que tem impacto nos resultados que chegam ao mercado.

O número de patentes sobre IA não tem parado de aumentar e, entre 2010 e 2015, cresceu seis por cento ao ano, segundo o “Science, Technology and Industry Scoreboard 2017” da OCDE. “Em 2015, foram registadas em todo o mundo 18 mil invenções de IA, 62% das quais no Japão, Coreia do Sul e Estados Unidos”.

Quanto à Europa, se o Reino Unido encomendou uma análise para o crescimento industrial da IA, e apesar do alerta do Comité Económico e Social Europeu para a necessidade da adopção de políticas para o desenvolvimento e uso da IA, o problema tende a piorar com o Regulamento Geral de Protecção de Dados. Como se explica na antecipação a uma conferência que vai decorrer no final de Março em Bruxelas, essa regulação inclui medidas que “vão impedir o desenvolvimento e uso da IA na Europa“.

Os sistemas actuais de IA estão muito focados na indústria tecnológica mas outros sectores estão a olhar com interesse para o seu potencial.

O seu desenvolvimento requer uma atenção mais generalizada dos cursos das ciências da computação, até porque se antevê uma IA mais “acessível” para todos.

A razão parece simples: “a IA é melhor a escolher respostas. Os humanos são melhores a escolher perguntas“.

E as questões não têm faltado, nomeadamente sobre a ética neste domínio, bem como as preocupações sociais e até políticas.

Perante a “ameaça existencial” da IA, a visão “pessimista” sobre a mesma, o seu “reduzido impacto” ou a falta de um “alarme de incêndio” para antever problemas, alguns investigadores contrapõem a possibilidade das inteligências artificiais se poderem “auto-regular“, perante a temida regulação que pode surgir de entidades governamentais.

Desde algoritmos que podem criar filmes a partir de pequenos pedaços de texto à IA que pode melhorar o sistema de “peer review” e ajudar a evitar o lixo pseudocientífico, dos agentes de software que “conversam” com humanos à neuroevolução artificial, a sua evolução passa igualmente por ensinar estes sistemas sobre o mundo real, nem que seja usando técnicas de luta de sumo.

A IA oferece oportunidades como o conhecimento do cérebro, estudo das emoções, pode ter impactos nas teorias e decisões económicas, no turismo rural ou até antecipar como os diplomas parlamentares serão ou não aprovados.

Assim, como não analisar o seu impacto quando a IA chega à Administração Pública? Em Portugal, no âmbito do INCoDe.2030, já decorre “um concurso de projetos que pretende apoiar o desenvolvimento de parcerias entre a administração pública e as instituições de I&D para que, em conjunto, construam novas formas de tratar os dados públicos para a produção de conhecimento relevante para a sociedade, recorrendo a técnicas avançadas de inteligência artificial e ciência dos dados”.

Noutros países, procuram-se estabelecer princípios para o uso da IA no governo e no sector público – como este “Code of Standards for Public Sector Algorithmic Decision Making” – ou para a comunidade científica e de cibersegurança, como nestas “Guidelines for Artificial Intelligence Containment“.

E o futuro? É ler “An Anthropic Argument against the Future Existence of Superintelligent Artificial Intelligence“, onde se defende como se deve olhar para lá da IA actual e antecipar uma “IA superinteligente” que nos pode eliminar ou permitir olhar o universo.

De qualquer das formas, ainda serão precisos os agora escassos investigadores em IA.