Na era das “fake news”, pode existir negócio para os media?

“Papel e digital: que modelos de negócio?” e “Fake news: como manipular a Internet” foram os temas escolhidos pela Associação Portuguesa de Imprensa para debater no Dia Nacional de Imprensa, comemorado a 19 de Dezembro. Eis algumas notas sobre esses e muitos outros temas:

1) “Fake news”: se são notícias, não podem ou não devem ser falsas. São desinformação, má informação, propaganda, “decoy news” mas dificilmente serão notícias.

A Comissão Europeia tem a decorrer até 23 de Fevereiro de 2018 uma consulta pública sobre estas questões, onde qualquer cidadão pode participar num inquérito online.

Apesar de pedir contributos para uma “definição de informações falsas e a sua propagação em linha”, a própria Comissão apresenta já uma definição das “fake news” que “consistem na desinformação intencional disseminada através das plataformas sociais online, medias noticiosos televisivos ou imprensa tradicional”.

Outros autores consideram as “fake news” num âmbito mais alargado, incluindo os conteúdos sensacionalistas motivados por intuitos comerciais (publicidade), onde se incluem os criados nas/para as redes sociais, a desinformação suportada por Estados ou partidos políticos e ainda publicações satíricas, como The Onion ou, em Portugal, o Inimigo Público.

Outros categorizam a informação incorrecta (falsa mas sem intenção de criar qualquer prejuízo), desinformação (falsa informação partilhada para causar algum dano) e má informação, quando sucede a partilha pública de informação genuína, normalmente privada.

[No evento, o ministro da Cultura revelou que, “em relação às chamadas Fakenews, para além de aspetos de prevenção que podem passar pelas grandes plataformas da Internet, acreditamos que a melhor maneira de combater as notícias falsas, mais que pela sua supressão, passa sim pela produção de mais notícias verdadeiras, o que implica necessariamente o fortalecimento dos jornais, do jornalismo e dos jornalistas, para além de um maior nível de literacia mediática.

É nesse contexto que se explica a nossa decisão de assinar recentemente um protocolo com o CENJOR direcionado especificamente à formação dos órgãos de comunicação social locais e regionais e à promoção da literacia mediática e é nesse contexto também que se explica o destaque e a importância que demos à LUSA – Agência de Notícias de Portugal”.

Estas declarações foram depois criticadas por Eduardo Dâmaso, director da revista Sábado, por considerar que não é subsidiando uma agência noticiosa que se combatem as “fake news”.

Defendo igualmente esta posição. Aliás, num caso recente em que nove agências noticiosas reclamaram o pagamento pelo uso dos seus conteúdos, a Lusa foi uma das que se manteve à margem da polémica.]

2) Alguns países ou organizações estão a avançar com iniciativas anti-“fake news”
O East StratCom Team, um grupo de comunicação da União Europeia de divulgação das suas políticas e actividades para os países do Leste, vai receber 1,1 milhões de euros anuais até 2020 para contrariar as notícias falsas russas.

A Alemanha aprovou leis para a remoção do discurso de ódio nas redes sociais, podendo multar quem o não faça. Na Irlanda, tenta-se criminalizar o uso de “bots” para quem disseminar informação política falsa.

No Reino Unido, Facebook, YouTube e Twitter estão a ser confrontados pelos políticos perante as “falhas” na remoção de conteúdos “violentos, extremistas e de discurso de ódio político”.

A International Fact-Checking Network está a criar uma base de dados de textos académicos sobre esta matéria. Neste âmbito, há trabalhos para identificar conteúdos credíveis através do Trust Project e estudos como o “Characterizing Political Fake News in Twitter by its Meta-Data” ou testes no Twitter e na Weibo, bem como desafios como o Fake News Challenge, com os três algoritmos vencedores a detectarem mais de 80% de notícias falsas.

Mas quem decide o que é desinformação ou “fake news”? Os grupos de comunicação social, as plataformas online ou os tribunais?

3) Desinformação não é recente
A desinformação usando os media não é recente. Um dos primeiros exemplos foi o “Great Moon Hoax“, quando o The Sun publicou em Nova Iorque vários artigos em 1835 sobre a suposta descoberta de vida na Lua.

A União Soviética usou as fotografias para re-escrever a sua história, nos anos 30 do século passado, generalizando o termo “propaganda“. Na mesma altura, os EUA foram “vítima” do falso ataque de extraterrestres ao país, orquestrado por Orson Welles.

Em 1967, as cheias em Lisboa tiveram um governo a afiançar 467 mortes oficiais que, sabe-se hoje, podem ter chegado às 700.

Um dos casos mais recentes e com maior impacto remonta a 2007, quando a Estónia foi atingida pelo que é considerado o primeiro ataque de ciberguerra entre estados. Foi “manipulação psicológica, executada com desinformação digital específica concebida para fragilizar um país por dentro”, explicava Peter Pomerantsev, autor de “Nothing is True and Everything is Possible”, segundo o qual “a teoria russa da guerra permite derrotar o inimigo sem sequer lhe tocar”. E “a Estónia foi uma experiência inicial dessa teoria“.

4) O que sucedeu na última década? A disseminação das redes sociais
Como fizeram – e falharam, em grande parte – na adopção dos blogues, os meios de comunicação social viram-se usados e ultrapassados por plataformas como o Twitter ou o Facebook.

Perante o fascínio pela partilha de conteúdos – sem retorno financeiro -, a fiabilidade dos media foi questionada ao minuto – mesmo quando o Facebook nem sequer partilha as suas notícias.

Para os utilizadores, as “partilhas e ‘retweets’ desempenham uma função incrivelmente importante, que é menor sobre a sua veracidade. O acto de partilhar é frequentemente sobre sinalizar aos outros que se concorda com o sentimento da mensagem, ou que, mesmo que não concordemos, a reconhecemos como importante e que vale a pena prestar atenção. Queremos sentir-nos ligados aos outros, e essas mini-performances permitem-nos fazer isso”, escrevem os autores do relatório “Information Disorder“, que inclui um conjunto de recomendações para várias entidades sobre o tema mais vasto da actual “desordem da informação”.

Uma dessas medidas passa por “eliminar os incentivos financeiros” pelas empresas tecnológicas e redes de publicidade que lucram com a desinformação. É, muito provavelmente, das mais difíceis de atingir, quando mais de 600 marcas fazem publicidade em sites de “fake news” e quando mesmo pessoas com algum conhecimento não conseguem detectar as “fake news”.

Estas causam desconforto e maior desconfiança nos conteúdos publicados pelos media tradicionais, pelo que alguns investigadores consideram que a inclusão de avisos como “potencialmente falso” ou “em discussão” podem aumentar a confiança dos leitores nas marcas mediáticas.

Isto passa igualmente pela credibilidade dos jornalistas: por exemplo, um jornalista que investe em bitcoins não deve escrever sobre o assunto. Até porque, pelo contrário e devido à completa ausência de transparência, também não há confiança nas redes sociais e nos algoritmos de empresas como o Facebook, ou até na forma como recolhem dados pessoais dos seus utilizadores.

5) Como contrariar as “fake news”, que causam desconfiança nos conteúdos dos media tradicionais?
Apesar de considerarem as redes sociais como fonte principal para as notícias, apenas uma em quatro pessoas reconhece que elas separam os factos da ficção.

Acredita-se que como a tecnologia generalizou as “fake news”, é essa mesma tecnologia que poderá impedir a sua disseminação. Esta é uma ficção: em 2017, o Facebook diminuiu em 25% o envio de tráfego para os editores noticiosos, enquanto a Google o aumentou em 17%.

Qual o resultado disto tudo? Em Portugal, por exemplo, 22 em cada 100 pessoas já afirma evitar as notícias, segundo o Digital News Report de 2017.

Uma solução contra a existência das “fake news” será eliminar os incentivos financeiros das empresas tecnológicas e das redes de publicidade que com elas lucram. Mas é difícil quando 600 marcas fazem publicidade em sites de “fake news”.

A alternativa? Bom jornalismo e validado, a credibilidade dos jornalistas e alertas para notícias em “fase de validação”. Mas quem é hoje jornalista e como se pode querer ter jornalismo mas não o jornal?

6) Podem os media gerir a confusão e obter receitas?
A imprensa já reduziu tudo?

Fez cortes no tamanho do jornal, diminuiu páginas, encerrou gráficas (caso recente do El País), repetiu cortes e fusões nas redacções, operou mudanças físicas nas redacções, e agora lida com o aumento do custo do papel (nos EUA, o preço por tonelada está nos 600 dólares quando custava 40 dólares em Fevereiro de 2016).

Depois de entregar a publicidade aos meios online, com um retorno mínimo, vai fazer o mesmo com os seus conteúdos?

Acredita que os robôs a escreverem notícias vão ser mais baratos? A copiar coisas do Twitter, como advoga o Reuters Tracer?

7) Aposta no papel é a solução? E o online, é?
A circulação dos diários nos EUA – imprensa e digital – caiu 8% em 2016, no 28º ano consecutivo de perdas. Em Portugal, os jornais, revistas e outras publicações periódicas perderam 28% da circulação total no ano passado face a 2015, registando-se também uma quebra de 17,6% nos exemplares vendidos.

A Cofina, Media Capital e Impresa tiveram dívidas de 371 milhões de euros nos primeiros nove meses de 2017. Estamos assim perante o fim dos jornais em papel?

Após a eleição de Donald Trump, várias empresas de media aumentaram as suas audiências, assinaturas pagas e doações. A questão é se será um epifenómeno ou tendência a mais longo prazo.

Num ambiente empresarial em mutação, o Financial Times ultrapassou os 700 mil assinantes digitais
e até a imprensa francesa aumentou as vendas.

Em Espanha, são os que menos confiam nos media que estão mais dispostos a pagar por subscrição online – porque pagam àqueles em que confiam

Isto sucede igualmente nos EUA. A polarização da sociedade norte-americana leva “as pessoas a procurarem apenas a informação com que estão de acordo“.

8) Mercado publicitário: digital sobe, imprensa perde
O mercado publicitário português vale 567 milhões de euros actualmente, quando eram 806,5 milhões em 2007. Para onde foram 260 milhões de euros numa década?

Este ano, perante 2016, todos os meios cresceram, menos a imprensa, que perdeu 10 milhões de euros, segundo o Omnicom Media Group (OMG). No entanto, mais de 6,8 milhões de residentes no Continente com 15 e mais anos “leram ou folhearam jornais ou revistas” entre Setembro e Novembro de 2017.

9) Audiências e questões etárias
Parecem muitos leitores do papel quando se sabe que a faixa dos 15 aos 34 anos tem uma maior afinidade com os media digitais (Bareme Crossmedia 2017).

No entanto, 2,7 milhões de portugueses contactam com a imprensa em papel e só 1,2 milhões o faz nos equipamentos digitais. Ou seja, acima dos 35 anos é no papel. Mas será mesmo assim?

No estudo de 2016 “Has digital distribution rejuvenated readership?“, realizado no Reino Unido, 65% dos entrevistados entre os 18 e os 34 anos afirmava gastar mais tempo com as edições impressas – mais do dobro do que sucedia no online.

10) Todos a olhar para digital e não para o “Digital Media Crash”?
É bom olhar para os meios digitais estrangeiros, endividados a investidores que estão a perder a paciência. Com a estratégia de internacionalização, BuzzFeed, HuffPost, Mashable, Vice e outros enfrentam também os GAFA e são mais vulneráveis aos “adblockers“.

Há um “Digital Media Crash” mas ninguém o quer ainda assumir. Porque será diferente em Portugal?

O problema não é apenas nos títulos online mas também nas redes sociais. Num recente inquérito a 5.000 alunos em Inglaterra, 63% afirmou não se preocupar se os media sociais nunca tivessem sido inventados. 71% disse mesmo efectuar alguma “desintoxicação temporária para escapar” a esses media.

11) Falta de transparência e desconfiança em algoritmos
Há um óbvio cansaço com o Facebook, pelo excesso de publicidade e pela forma fraudulenta como actua e que já o levou a instalar malware em equipamentos de utilizadores.

Os media sociais revelaram-se menos fiáveis – pelo que muitos procuram redes fechadas como o WhatsApp.

Em paralelo, há uma opção por agregadores de media sociais como o Gobo, com a criação de filtros personalizados e não definidos pelas redes sociais.

Perante as relações difíceis entre estas e os editores, a sua consolidação como entidades supremas para a divulgação das notícias (mas não para a sua diversidade) parece ser um perigo para as democracias e não está garantido o seu futuro (os editores têm o mesmo problema, veja-se o caso do Chile) – mas parece existir algo de novo, nomeadamente no interesse dos mais jovens.

Em resumo, perante a exigência da credibilidade de jornalistas e de orgãos de comunicação social, tem de existir uma transparência sobre os algoritmos que os media sociais usam na sua forma de apresentar as notícias ou resultados de buscas ou de apresentação de publicidade.

12) E os modelos de negócio?
Com problemas na imprensa tradicional, nos meios digitais, nas redes sociais, como é que se consegue rentabilizar o investimento?

Existem cerca de 70 modelos mas não há uma única estratégia que sirva para todos os meios. Nem cópias. Pode-se começar por 12 e evoluir para 33 formas de rentabilizar os sites mas o modelo mais abordado, depois da publicidade, é o “paywall“.

O primeiro jornal a cobrar online foi o Wall Street Journal, em Janeiro de 1997. Agora, aparece como uma necessidade e permite um melhor conhecimento das audiências e ajuda a definir a estratégia futura. Perdem-se leitores? Sim, leitores que não pagam. Mas é necessário escolher modelos híbridos, complementares, de experiência e abandono em caso de falhanço.

13) “Offline is the new online”
Modelo híbrido é o caminho, quando o “Offline is the new online“.

Nas conclusões do XIII Congresso da Imprensa Portuguesa, foi “defendida a necessidade de convergência entre as edições impressas e as edições online, de forma a conseguir manter os leitores mais velhos, mas também a conquistar os mais novos, criando-se conteúdos que gerem receitas e conquistem leitores”.

14) Literacia para os media também é tecnológica
Falta literacia para os media – ensinar jovens desde o ensino primário – e falta análise mediática dos impactos sociais da tecnologia numa sociedade tão tecnológica em que media e tecnologia se (con)fundem.

A literacia para os media também é tecnológica. É pessoal, obviamente, mas só se pode assumir quando se sabe do que se está a falar. E isso passa pelo ensino.

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