O “século XXI chegou“, disse o presidente da Venezuela ao anunciar no início do mês a criação da criptomoeda Petro, indexada às reservas de petróleo, gás, ouro e diamantes.

O país não inova neste assunto, atrás de “praças” de moedas virtuais como a Coreia do Sul, o (des)interesse da Rússia, os pagamentos em lojas no Japão ou a Bulgária, que confiscou 200 mil bitcoins, num valor actual que ultrapassa os três mil milhões de dólares.

Com avisos de ser um Inferno de Dante destinado às “expectativas de loucos“, depois do valor de um bitcoin chegar aos 7.000 dólares e aos 8.000 dólares em Novembro passado, subir depois para os 12 mil dólares, chegar aos 15 mil dólares e atingir os 16.660 dólares, ultrapassando o valor da economia portuguesa – e esquecendo a sua repetida volatilidade de valor – tudo pode acontecer.

Para perceber como chegámos aos bitcoins, blockchains e ICOs, este vídeo é elucidativo.

O economista Jim Rickards também explica a diferença sobre a valorização do ouro e dos bitcoins, e Mark Fisher encontra semelhanças na valorização dos preços da prata nos anos 70 do século passado, enquanto Don Tapscott considera existir “o potencial de transformar o dinheiro, negócio, governação e sociedade”.

Outros recordam que este tipo de moeda mais não é do que uma renovação da “compra de coisas que não valem nada“, iniciada por George Washington no século XVIII.

1.500 criptomoedas para três milhões de utilizadores
Existem muitas criptomoedas, para lá daquela descrita pelo secreto Satoshi Nakamoto.

Se 1.469 criptomoedas foram lançadas entre Abril de 2013 e Junho deste ano, o “2017 Global Cryptocurrency Benchmarking Study” estima que “mais de três milhões de indivíduos estão a usar criptomoedas”.

Apesar da sua “falsa valorização“, já vista em anos anteriores, há avisos, como os do Banco de Portugal, e de outros bancos centrais com alertas de um colapso iminente ou de uma próxima bolha (entre outras antecipadas) que pode acabar em “lágrimas“.

Se a aventura do negócio dos bitcoins prossegue, há quem não lhes toque.

Apesar de haver quem considere anti-ético a evolução da criptomoeda para um modelo financeiro que pretendia substituir (e que não é caótico), a verdade é que já chegou a Wall Street.

O modelo é semelhante: as chamadas “baleias” são cerca de mil contas que controlam 40% do mercado dos bitcoins.

Muitos bitcoins desaparecem, pelo que investigadores tentam determinar a identificação dos proprietários das contas, até porque alguns governos pretendem taxar estas transacções.

Sendo uma tecnologia digital, o potencial de “hacking” aos bitcoins é algo natural, assim como o seu uso para fins ilegais ou para até obter retribuição no Twitter.

Da mesma forma, é possível “congelar” 280 milhões de dólares sem intervenção do Estado.

Blockchain inseguro mas usado
Por trás da criação destas criptomoedas está um protocolo, uma plataforma distribuída sem controlo da informação partilhada, não detida por ninguém, um ecossistema de projectos, conhecido por blockchain e que, por usar assinaturas digitais, nem sempre é seguro.

Em 2016, foram iniciados mais de 26 mil projectos com esta tecnologia e até surgiram projectos de uso de bitcoins em diferentes plataformas blockchain.

As aplicações são diversas (quem vende o hardware parece ter mais sucesso) mas nem sempre funcionais, por exemplo na marcação de datas em páginas Web arquivadas.

Mas a tecnologia está a ser testada para a autenticação e privacidade na Internet das Coisas, na segurança e privacidade nos automóveis, na entrega de diplomas aos estudantes do MIT, na ciência, nos media e na relação entre editores e publicidade, como “tecnologia regulatória“, na análise alimentar, na privacidade online, na educação, para melhorar a Wikipedia, em contratos futuros (“smart contracts“), na gestão de identidades em sistemas de governo electrónico.

Outras propostas, como a Circles, visam as “criptomoedas individualizadas“, tendo como fim a manutenção e distribuição de um rendimento básico universal e outros pretendem vender gatinhos (ou Crypto Kitties).

De forma mais séria, várias empresas estão a adoptar modelos de negócio de “Initial Coin Offering” ou ICO. As portuguesas Aptoide (cujas AppCoins entram na plataforma Ethereum a 13 de Dezembro para transacções na sua loja de aplicações) ou a YDreams parecem perceber do assunto, esta ao associar-se ao consórcio de blockchain Hyperledger.

Cara mineração
Toda esta tecnologia tem um custo energético e é elevado para “minerar” os bitcoins [actualização sobre os dados da Digiconomy]. A transacção de um bitcoin “consome 5.000 vezes mais energia do que usar um cartão de crédito” ou “usa tanta energia como a sua casa numa semana” e este pode ser o seu “maior risco“.

Compara-se ao consumo energético da Irlanda ou de quase 160 países. É um “desastre ecológico em perspectiva” que já levou a esquemas de uso de computadores pessoais sem que os seus utilizadores saibam.

Como sucedeu com os centros de dados para a “cloud computing”, procuram-se agora localizações adequadas para o fazer, como a Sibéria.

Alguns donos dos carros Tesla estão a “minerar” bitcoins nos postos de carregamento dos veículos.

Em resumo, como dizem vários investigadores em “SoK: Research Perspectives and Challenges for Bitcoin and Cryptocurrencies“, os “bitcoins são um caso raro onde a prática parece estar à frente da teoria”.

Por outro lado, ao contrário da teoria original dos seus criadores, “a tecnologia foi aclamada pelo seu potencial para inaugurar uma nova era de serviços que dependem menos de intermediários como empresas e estados-nação. Mas os seus dinamizadores ignoram muitas vezes que o contrário é igualmente possível: o blockchain pode consolidar ainda mais o poder centralizador das corporações e dos governos”.