Entre o financiamento público a um evento privado e o respectivo retorno com ganhos para a sociedade, é possível medir o verdadeiro impacto económico da Web Summit?

Em artigo de opinião, Nuno Garoupa diz que “quando foi financiada pelo Estado a primeira Web Summit, teríamos de considerar avaliações prospetivas das externalidades positivas e admito que seria complicado ir muito além da discussão conceptual. Por isso, mesmo sem nunca especificar exatamente como se chegou a estes números, acho aceitável que se falasse em benefícios totais e prospetivos de 200 milhões em 2016 e 300 milhões em 2017. Contudo, chegando à segunda Web Summit, já não é suficiente. Ainda menos quando se fala da terceira edição, em 2018”.

O autor considera que já se deviam conhecer “as externalidades positivas que se verificaram entre a primeira e a segunda Web Summit – quanto investimento entrou no setor, quanto emprego adicional foi criado, qual o grau de modernização financiado, quantas startups arrancaram, qual o impacto económico da primeira Web Summit”.

Mais, perante os 1,3 milhões de euros por cada edição até 2018, pagos por AICEP, Turismo de Lisboa e Turismo de Portugal], “se é lamentável que o Estado (seja governo, seja CML) não tenha qualquer número ou estatística concreta para justificar o seu generoso financiamento público quando já vamos no segundo ano, mais surpreendente é a ausência de indicadores quantitativos por parte da organização”.

O “problema dos intangíveis”, refere Garoupa, “é que Portugal já não consegue viver com tanta fartura – os intangíveis da Expo98, do Euro 2004, das capitais da cultura, da economia do mar, das autoestradas, dos choques tecnológicos, da paixão pela educação são de tal forma avassaladores, que o Orçamento do Estado, coitado, tem dificuldade em lidar com eles”.

O que sabemos do Web Summit em Lisboa
A organização do evento apenas produz, em cima do fecho do evento em Lisboa, dados tangíveis sobre o mesmo.

Outras entidades, como a SIBS, conseguem quantificar outros dados concretos sobre os quatro dias do evento que decorreu no início deste mês: entre os “mais de 53 mil visitantes, realizaram-se cerca de 49 mil levantamentos e 181 mil compras com cartões estrangeiros no distrito de Lisboa”. Destas, e agora misturando cartões nacionais e estrangeiros, 22% das compras “foram efetuadas em restauração e alojamento, o que representa também um aumento de 21% face ao período homólogo neste setor”.

Dentro do “recinto da Web Summit, foram realizados mais de seis mil levantamentos com cartões nacionais e estrangeiros, num valor superior a 355 mil euros”. Em 2016, foram mais de 350 mil euros.

A Associação do Alojamento Local em Portugal (ALEP) contabiliza que terá havido uma taxa de ocupação a rondar os 80%.

Segundo o presidente da ALEP, Eduardo Miranda, estes são “dados reais de ocupação futura”, analisando 8.000 unidades em Lisboa. E nota: “não estamos a falar de um evento que esgota a capacidade, mas tem um valor efeito muito positivo, já que Novembro costumava ser o início da temporada baixa com ocupações de 50 a 55%, e baixa de preços, e que agora equipara-se a época média-alta”.

Quanto à Associação da Hotelaria de Portugal, esperava “uma taxa de ocupação de 88%” nos hotéis em Lisboa, quando no ano passado se esperava que essa taxa iria chegar aos 85% mas “fechou nos 79%”.

Uma outra contabilidade pode ser feita, segundo dados do Governo: “entre Setembro do ano passado e 1 de Julho, houve 13.100 artigos sobre a Web Summit em diversos media internacionais, com cobertura em 119 países”. Mas o seu impacto continua a ser intangível.

O que sabemos da Web Summit em Dublin
Comparar Lisboa a Dublin, a cidade onde nasceu a Web Summit, é complicado porque se tratam de dados relativos a 2015 ou antes e num evento com menor audiência do que sucedeu na sua transferência para a capital portuguesa.

O jornal Irish Times tentou contabilizar esse impacto económico e, para os 30 mil conferencistas em 2015, apontava um valor de 37 milhões de euros. O equivalente a um “fim de semana de râguebi”, dizia um hoteleiro.

Já o Dublin Horse Show, com mais de 100 mil visitantes durante cinco dias, era “o evento privado mais lucrativo”, em que o Estado contribuía com cerca de 100 mil euros.

Para 2014, Dublin contava um impacto económico de 110 milhões de euros perante os 22 mil conferencistas (mais do dobro do que os 10 mil de 2013).

Desde 2011 até 2015, a Web Summit recebeu 456 mil euros da Enterprise Ireland e 800 mil euros de agências governamentais.

A saída do evento de Dublin para Lisboa foi estimada numa perda de 37,5 milhões de euros, nomeadamente no “turismo, investimento, reputação e pequenos negócios locais que usam o evento como plataforma para o desenvolvimento”.

E o futuro em Lisboa?
Regressando a 2017, calcula-se em 300 milhões de euros de impacto “só nos serviços diretamente relacionados — hotelaria, transportes, entre outros”, disse a secretária de Estado da Indústria, Ana Teresa Lehmann.

Miguel Frasquilho, presidente da AICEP, comparou o impacto da Web Summit ao da Expo98 e do Euro 2004. Mas com vantagem para o evento tecnológico: é que “vai estar cá nos próximos três a cinco anos”.

Paddy Cosgrave, o mentor do evento, tem uma visão semelhante: “há de certeza um impacto muito directo de estímulo económico [em Lisboa]. Mas isso é só uma semana no ano. O impacto deve ser avaliado no período de cinco a 10 anos”.

Esse impacto deve igualmente ser antecipado para o caso da Web Summit abandonar Lisboa. Como dizia a comissária para as startups de Dublin, Niamh Bushnell, quando da saída do evento da cidade irlandesa, “é uma pena, claro, mas não é como se empresas e startups que estavam a escolher Dublin como sua sede já não venham para a Irlanda e não acredito que a decisão vá afectar de forma alguma o nosso ecossistema de startup ou a forma como é entendida Dublin”.