O Fórum Manifesto organiza esta sexta-feira e sábado (27 e 28 de Outubro) um encontro destinado a discutir “O trabalho do futuro – o futuro do trabalho“, em Lisboa.

O tema da automação ou da robotização do trabalho tem estado em discussão nos últimos anos, com versões e opiniões nem sempre convergentes. “A automação é um tópico tratado com enorme diplomacia, tanto na Europa como nos Estados Unidos”, notava a revista The New Yorker.

Passou-se do tempo do “robô galante” dos anos 50 do século passado para temores de uma escalada do desemprego, sem quaisquer alternativas perante o valor económico desta tendência para as empresas.

O tema ganha igualmente preponderância quando a Arábia Saudita autorizou, pela primeira vez no mundo, dar a cidadania a um robô humanóide ou se analisa como um robô pode um dia entrar na universidade e quais as consequências que os humanos devem retirar dessa experiência.

Neste debate, perdem-se valores sociais e bens (basta ler este “Card catalogs and the secret history of modernity“) mas pode ganhar-se qualidade de vida e evitar o excesso de trabalho, seja no sector dos media ou dos programadores de software.

“O trabalho não está a desaparecer”
“Desde a Revolução Industrial há 200 anos, os avanços tecnológicos levaram sempre à destruição de emprego mas mais novos empregos foram sempre criados. Nesta altura, não há uma prova clara que isto seja de alguma forma diferente do que aconteceu antes. Não estamos a eliminar trabalho, os níveis de desemprego não estão a aumentar, o trabalho não está a desaparecer”.

A mudança está a ocorrer para os robôs serem usados nas tarefas rotineiras e os humanos a terem um papel preponderante em funções mais criativas, o chamado “trabalho aumentado”, refere Josh Healy, do Centre for Workplace Leadership da universidade australiana de Melbourne.

“A taxa de perda de emprego pela automação foi relativamente pequena nos últimos 20 anos, talvez menos de meio ponto percentual da população em idade activa. Assim, não estamos a falar de números enormes”, diz Daron Acemoglu, professor de economia no MIT, notando a necessidade de se pensar em ajustamentos no mercado laboral.

Aliás, a venda mundial de robôs industriais cresceu 16% no ano passado e “deverá crescer mais rapidamente em 2017”, antecipou a International Federation of Robotics, mas países como a Alemanha não parecem ter sofrido o impacto da robótica no desemprego.

A China e a Coreia do Sul lideram este mercado, tendo o primeiro visto um crescimento de 30%, enquanto os EUA se ficaram pelos 14%.

No entanto, o emprego neste país deve crescer em 11,5 milhões de postos de trabalho entre 2016 e 2026, passando de 156,1 milhões para 167,6 milhões, segundo as “Employment Projections 2016-26” do U.S. Bureau of Labor Statistics. Trabalhos mais “susceptíveis” à automação devem diminuir.

Por exemplo, como se explica em “The Real Story of Automation Beginning with One Simple Chart“, enquanto os EUA aumentavam o número de poços de petróleo, diminuíram os empregos nesta indústria. O mesmo é válido para outros sectores. “A economia simplesmente não precisa do número de pessoas que emprega actualmente com a tecnologia que já está disponível” mas “a questão é em que ponto suficientes pessoas vão reconhecer que a automação é um problema muito real que deve ser confrontado imediatamente”.

No Reino Unido, foram os empregadores quem reclamou um estudo, envolvendo os sindicatos, para analisar o impacto da robótica ou da inteligência artificial no mercado de trabalho.

Desconhecimento sobre o futuro
O emprego do futuro não passa apenas pela automação. Em “The Future of Skills: Employment in 2030” percebe-se que existem outras tendências a necessitar de análise para este debate. Por exemplo, “sete em 10 pessoas estão actualmente em empregos onde simplesmente não sabemos de certeza o que vai acontecer”.

O que remete para os autores das análises sobre o futuro do trabalho. Enquanto o economista Ariel Rubinstein defende a necessidade de ouvir economistas e historiadores neste debate, o professor de ética da universidade de Victoria na Nova Zelândia escreve em “Don’t trust economists about the future of work” sobre a necessidade de uma “preparação para o pior [que] consiste em meter de lado a nossa necessidade de boas notícias sobre o futuro e pensar seriamente sobre como criar empregos cuja existência não dependa do estado actual das nossas tecnologias”.